Gal Costa + Caetano Veloso
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 11 de julho de 2011 at 6:38 PM.

Você já foi à Bahia, nêga? Há algumas semanas, fui pela primeira vez, encontrar Caetano e Gal para matéria de capa para a Rolling Stone. Reunindo memórias e projetando o futuro, a história do encontro desses dois baianos – e meu com os dois baianos – você começa lendo por aqui, segue o blog novo:
http://ronaldoevangelista.blogosfera.uol.com.br/
Marcadores: Caetano Veloso, Gal Costa, UOL
Esteja cá já
2 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 14 de dezembro de 2010 at 10:25 AM.

As ondas do mar, a praia, o vôo dos pássaros. Silêncio e som, solidão e companhia, tudo é tanto amor. Caetano Veloso empresta a composição, o andamento e clima, segunda do lado B do primeiro disco de Fafá de Belém, 1976, arranjo de Wagner Tiso. A descrição contemplativa da natureza e dos reflexos sensíveis interiores dimensionam o horizonte dos sons de violão, baixo, bateria, oboé, violoncelos, pulos de compassos, passeios por tons, beleza quase etérea mas com os pés sentindo o chão. Não muito longe das vozes de hoje de Céu com Beto Villares, Cibelle, Mariana Aydar. "Cá já", música de suspiro, música do tamanho do mundo de fora e de dentro, definitivamente a melhor música do mundo, praticamente um doce de cajá.
Vejo que areia linda brilhando cada grão
Graças do sol ainda vibram pelo chão
Vejo que a água deixa as cores de outra cor
Volta pra si sem queixa, tudo é tanto amor
Esteja cá já
Pedra, vida, flor, seja cá já
Esteja cá já
Tempo, bicho, doce, jaca já
Doce já cá já
Jandaia aqui agora
Ouço que tempo imenso dentro de cada som
Música que não penso, pássaro tão bom
Ouço que vento, vento, ondas, asas, capim
Momento, movimento, sempre agora em mim
Esteja cá já
Pedra, vida, flor, seja cá já
Esteja cá já
Tempo, bicho, doce, jaca já
Doce já cá já
Jandaia aqui agora
Marcadores: A melhor música do mundo, Caetano Veloso, Fafá de Belém
Gilbertália
2 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 20 de setembro de 2010 at 11:25 AM.

Maior legal esse Expresso 2222, coletânea de textos centrada no Gil (já na capa de tranças e atrás de um piano elétrico desfocado), mais ou menos no molde em que o poeta Waly Salomão organizou, pela editora Pedra Q Ronca, a Caetanave Alegria, Alegria. // Abaixo, só um trecho de entrevista a Vicente Tardin, Alfredo Herkenhoff e Paulo Macedo, em 1978, com Gil comentando Cassiano ("entre João Donato e João Gilberto"), explicando a cena Black Rio e a estética negro é lindo, contando que descobriu Bob Marley pela Melody Maker e considerando os sincronismos espaço-culturais, coincidências de necessidade histórica.
Voltando à música, muita gente tem falado - Caetano e Gal Costa, inclusive - de uma certa renovação na música brasileira por parte de Cassiano, que seria um compositor black, na falta de outra definição.
Eu falo também. Adoro. Assim como João Gilberto, Cassiano é um artista importante pela sua reclusão, pela sua especificidade e especialidade. É um cara difícil, isso tudo nele é um pouco misterioso e aureolado por uma coisa de grandeza. Sabe que sonha com algo impossível, mas não abre mão desse sonho, de um cantar magnífico.
Ele lembra um pouco o Stevie Wonder.
É claro. Cassiano quer introduzir na alma brasileira o cantar de um pássaro de lá, desse pássaro soul. Tanto que o disco dele chama-se Cuban Soul. Cassiano está João Donato e João Gilberto. É aquele encontro entre o samba de João e a rumba de João Donato, ele quer ser o encontro. Isso sou eu quem digo. Cassiano não deve nem cogitar dessas coisas. Talvez não saiba o que o Donato faz, o João Gilberto com certeza ele sabe. Ele quer trazer esse universo de Caribe e Harlem para a escola de samba, para o Brasil, para o Rio de Janeiro.
É meio impossível, não?
É o sonho. Tanto não é impossível que ele faz as músicas, canta desse jeito e acaba sendo isso, criando uma geração de discípulos como Dafé, Lady Zu, Melodia, tanta gente...
O Luís Melodia também?
É sim, embora também possa nem estar ligado. Tim Maia, Melodia, todo mundo nasce desse inconsciente coletivo do qual Cassiano representa a consciência. São esse tais sincronismos espaço-culturais, históricos. De repente tem sincronia. Eu me lembro de quando o Caetano na época deixou os cabelos crescerem, e passou a assumir todas aquelas atitudes ditas rebeldes, tudo parecia muito com Dylan, Beatles e tudo mais. No entanto, a informação que Caetano tinha desses fenômenos lá fora era muito pouca, era tudo coincidência de necessidade histórica, manifestação, avatarização, você esta entendendo? Coisas assim como por que uma pirâmide no Egito e outra no México? Por que cacau? Essas migrações difíceis da história. A germinação que é feita pelo fluxo das águas e dos raios solares. Por que tem cacau na África? Por que tem essas coisas lá e cá? As tais migrações culturais do planeta. Hoje em dia então, facilitados por todo o jogo de correntes do visual, do auditivo e do psiquismo, né? Mas na época tudo aquilo em Caetano aparecia como reflexo desse sincronismo, contemporaneamente às coisas de lá, com a mesma necessidade da época.
Eu lembro quando trancei o cabelo, há dois anos, eu tinha visto a capa de um disco do Stevie Wonder, onde ele tinha os cabelos trançados de uma maneira muito parecida com o jeito nagô de trançar o cabelo, aquelas coisas da África. Mas eu fiz minhas tranças mais soltas. E eu não sabia de nada. Quando estava em Curitiba, já na excursão dos Doces Bárbaros, uma semana antes de ser preso em Florianópolis, o Chiquinho comprou aquele jornal inglês Melody Maker, que tinha uma reportagem com o Bob Marley. Foi aí que eu fiquei sabendo: eu não conhecia o Bob Marley até então e nem sabia que eles usavam o cabelo daquela forma, os rastas. Então, fiquei pensando: veja que coisa estranha, de repente me dá na cabeça de trançar os cabelos aqui, não sei bem porque, por causa da oportunidade oferecida pelos Doces Bárbaros, um espaço aberto à liberdade de experimentar um tipo ou outro de roupa, coisas deste tipo. E eles lá, começando a fazer sucesso e por acaso usando o cabelo de forma parecida, ou com a mesma intenção lúdica de partir para outro enfoque, buscar uma outra estética pro chamado negro é lindo, por aí. Então essas sincronias no mundo contemporâneo se tornam cada vez mais interessantes porque se dão quase ao mesmo instante em todo lugar. Ao mesmo tempo o inconsciente ainda tem sua atuação. Não é tudo dado pela informação fria e gerada.
Marcadores: abre aspas, Black Rio, Caetano Veloso, Cassiano, coincidências, gilberto gil, João Donato, João Gilberto, sincronicidade
VitrolaMixtapes: Blubell
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 19 de abril de 2010 at 3:42 PM.

Você já viu a Blubell cantando? Tenho certeza que levou um susto quando viu aquela figura pequena e discreta com uma voz tão forte e segura. Mas o brilhantismo interpretativo não é a única coisa impressionante em Blubell: as músicas que escolhe cantar, as que escreve, os músicos com quem toca e as versões que criam são peças-chave na construção do seu universo. Não à tôa, talvez seu trabalho mais interessante seja com o quarteto À Deriva, de jazz de gente grande. O lado mais roqueiro também vai longe com suas músicas em série da MTV e banda com Pedro Baby. Toda essa mistura consciente de referências de bom gosto deixou curioso: quais as influêncas e paixões da Blubell? Pois aqui está, mixtape especial para nós, dez faixas escolhidas por ela, juntando de Anita O'Day e Caetano Veloso a'Os Mulheres Negras e Raveonettes, de Elvis e Elis a Marvelettes e Tim Maia. Aquele máximo de sofisticação jazzística, mas com pegada, groove, senso de humor e anarquia roqueira. Tipo ela.
Ficou assim:
01 Anita O'Day - Let's Face the Music and Dance
02 Os Mulheres Negras - Feridas
03 The Marvelettes - Danger Heartbreak Dead Ahead
04 Madonna & Prince - Love Song
05 Ablo te Pablo Mi - Triste com astral
06 Caetano Veloso - A little more blue
07 Elvis Presley - Kiss Me Quick
08 The Raveonettes - Love in a Trashcan
09 Tim Maia - Sofre
10 Elis Regina - Cabaré
baixe AQUI
Marcadores: À Deriva, Anita O'Day, blubell, Caetano Veloso, Elis Regina, mixtapes, Tim Maia
organizando o movimento
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 7 de abril de 2010 at 2:32 PM.
Parece bem massa esse documentário sobre a final do III Festival da Record, o de "Alegria, Alegria", "Domingo no Parque", "Roda Viva", "Ponteio", o violão quebrado de Sérgio Ricardo, Roberto Carlos cantando samba, Caetano com os Beat Boys, Gil com os Mutantes. Partindo de um projeto de documentar toda a era dos festivais, o filme é Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, sobre momento de criação e cristalização de idéias ricas e clichês do que conhecemos hoje como música brasileira e de todo nosso comportamento cultural. A premiére é na abertura do É Tudo Verdade, na sexta, depois passa sábado e quinta que vem, entra em cartaz daqui uns meses.
Marcadores: Caetano Veloso, Chico Buarque, gilberto gil, TV, Vamo?
Hoje é um dia especial na sua vida
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 29 de julho de 2009 at 12:55 PM.
Se você está precisando de ajuda pra viver momentos bonitos e se divertir até cansar, tá fácil.

Hoje, sete da noite, Galeria Olido, vai rolar a conclusão do projeto Conexões, com todos nós humildemente reapresentando os melhores momentos do mês: Tatá Aeroplano, Karina Buhr, Leo Cavalcanti e Tulipa Ruiz voltam à vitrine da avenida São João para cantar, respectivamente, Roberto&Erasmo, Rita Lee, Gil&Caetano e Gal.
Última chance de ver mágica acontecendo, Tatá se entregando à emoção de cantar Roberto e ainda mostrando relações entre seus sons e o de Erasmo; Tulipa parando o tempo pra arrepiar os ouvintes, cantando Dê um rolê como se não houvesse amanhã; Karina pescando na memória histórias e canções, somando e subvertendo o senso de humor de Rita Lee com seu próprio; Leo cantando Lamento sertanejo com aquele arranjo, naquele lugar, com aquele clima e aquele encontro de pessoas. Não existe época de ouro, a vida é de ouro.
Fazendo tudo acontecer, a Banda dos Contentes, com Mauricio Fleury, Pedro Falcão e Demétrius Carvalho, hoje com Régis Damasceno e Gui Held aparecendo pro goodbye.

Depois, comemorando o fim de mês, os shows, a amizade, a vida, o amor e a falta e vergonha de ser hippie, VENENO especial música brasileira, de graça e gudiváibe, anti-hype e carão-free no Astronete.
Só chegar e ser feliz.
Marcadores: Baile VENENO, Caetano Veloso, dj evan, Erasmo Carlos, Gal Costa, João Gilberto, Karina Buhr, Leo Cavalcanti, Rita Lee, Roberto Carlos, Tatá Aeroplano, Tulipa Ruiz
tudo é perigoso, divino, maravilhoso
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 22 de julho de 2009 at 2:18 PM.
Naquela época convivia com todo o ambiente tropicalista. Só falávamos dos movimentos novos que surgiam no mundo. Gil ouvia Hendrix o dia inteiro. Janis Joplin não saia da minha cabeça. Aquele som, aquele rasgo de voz foi me tomando de uma forma que criou em mim uma necessidade de fazer alguma coisa diferente do que eu acreditava, de tudo o que já fizera e de como eu entendia a música até então. Eu era muito radical, gostava de pouquíssima coisa. João era meu ídolo e nada, quase nada passava pela minha peneira. Não gostava de iê iê iê, nem da jovem guarda, de nada. Precisava fazer alguma coisa para me expressar, botar pra fora o que eu sentia, com força, atitude, e que, falando francamente, chamasse a atenção sobre mim.
Gil e Caetano, envolveram-se de corpo e alma com essas novas experiências da música popular brasileira. E dentre essas pesquisas me deparei com Divino Maravilhoso, uma canção que mexeu comigo. Caetano convidou-me para cantá-la no Festival da Record e Gil se propôs fazer o arranjo. Ele foi tão perspicaz que me perguntou como é que eu queria cantá-la. Expliquei que queria cantar de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira. Queria mostrar uma outra mulher que há em mim. Uma outra Gal além daquela que cantava quietinha num banquinho a bossa nova. Queria cantar explosivamente. Para fora. Gil fez então o arranjo para o Divino Maravilhoso.
Quando Caetano me viu pisar o palco cheia de penduricalhos e espelhinhos pendurados no meu pescoço, aquela cabeleira afro armada por Dedé, quase morreu de susto. Ele não sabia de nada. Não tinha escutado o arranjo do Gil, nada, nada. Cantei com toda a fúria e força que haviam em mim. Metade da platéia se levantou para vaiar. A outra metade aplaudiu ferozmente. Um homem na minha frente berrava insultos. Foi então que me veio ainda uma força maior que me atirou contra ele. Cantava diretamente para ele: É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte! Cantava com tanta força e tanta violência que o homenzinho foi se aquietando, se encolhendo, e sumiu dentro de si mesmo. Foi a primeira vez que senti o que era dominar uma platéia. E uma platéia enfurecida. Naquele tempo de polarização política, a música era a única forma de expressão. Despertava paixões, verdadeiras guerras. Saí do Divino Maravilhoso fortalecida, crescida. Acho que naquela noite entrei no palco adolescente, menina, e saí mulher. Sofrida, arrebentada, mas vitoriosa.
*
Gal, em 68 no Festival da Record, e aqui.
Marcadores: Caetano Veloso, Gal Costa, gilberto gil
Em 1970, Gal dubla com chinfra e charme descabelado sem tempo de temer a morte. Hoje à noite, Leo canta com a Banda dos Contentes no penúltimo show do Conexões na Olido. "Divino, Maravilhoso", música de Gil&Caetano.
Marcadores: Caetano Veloso, Gal Costa, gilberto gil, Leo Cavalcanti
Alguém cantando, Caetano e Gal, Leo, Tulipa? // "Alguém Cantando", Caetano e Gal, 1978, no Fantástico.
Marcadores: Caetano Veloso, Gal Costa
que canta como que pra ninguém
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 20 de julho de 2009 at 2:21 PM.

Marcadores: Caetano Veloso, Conexões, gilberto gil, Leo Cavalcanti
Gal canta um escândalo de pernas abertas e violão no colo, sem deixar você desviar o olhar, no Teatro Bandeirantes, 1973. Tulipa canta divina maravilhosa e a Banda segue cheia de pique e Paulinho acompanha filmando as luzes e os sons, na Galeria Olido, 2009. Da Maior Importância, de Caetano, no Qualquer Coisa, no Índia, no show da Tulipa Gal e de novo no Leo Caetano, assim como existe disco voador e não sou eu quem vai.
Marcadores: A Banda dos Contentes, Caetano Veloso, Conexões, Gal Costa, Tulipa Ruiz
Expressão e afirmação da juventude brasileira
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 at 12:01 PM.

O Estado de São Paulo, com 9 milhões de habitantes de menos de 25 anos de idade, é um dos centros de expressão e afirmação da juventude brasileira. Compositores populares, cantores, diretores e intérpretes de teatro e de cinema, escritores e artistas plásticos, projetam o seu nome por todo o país. E conquistam acesso aos meios de comunicação de massa, representados por uma rêde de nove estações de tevê, de noventa e uma estações de rádio, além de centenas de jornais e revistas. Quer se dediquem ao estudo, às técnicas de produção e aos diversos ramos da ciência moderna, quer se apliquem às atividades artísticas, os moços encontram em São Paulo um ambiente estimulante e pronto a absorver os que se distinguem por talentos ou capacidades especiais. Êles estão procurando ajudar São Paulo a dar o grande salto para a frente.
*
Os Mutantes, Gil, Nara, Roberto, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, uma escada e vários bambas em uma antiga edição da Realidade.
Marcadores: abre aspas, Caetano Veloso, Chico Buarque, gilberto gil, Mais que mil palavras, MPB4, Mutantes, Nara Leão, Roberto Carlos
Gil-Chico-Veloso
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sexta-feira, 30 de janeiro de 2009 at 1:28 PM.

Boa, xará! (trabalhar com êsse cara é uma tranqüilidade, hem, Mané?). O xará Gauss, nessa mesa de Cabo Kennedy, enriquece o tropicalismo. E a Claudete bolou bem essa do Veloso de Holanda (disco bacana, mundo complicado, mil idéias, trecos vários...
Pata, Pedro (pedreiro), Pedro, pata! Domingô de um summer que não is gone, donde sei gudebai às canzones psico-idílicas; vesti Ludwig de azul (porta aberta!), magnólias e margaridas: Hip (pie)! Hip (pie)! Hurraaaaaaa! Rei da Roda (velas mortas): Viva!
E o bacana foi o côro de quatro maestros (no Domingou) com o Gil regendo (Medaglia, Gregori, Cozzella e eu).
Pela aí, rollin monkacos beatolados.
Salve, lindo sapato branco e panamá!
Viva (em pó) tôdas as mini (inclusive a Claudete)!!!
Rogério Duprat
*
Do Gil-Chico-Veloso, da Claudete, arranjo e regência do Duprat.
Marcadores: Caetano Veloso, Chico Buarque, Contracapa, gilberto gil, Rogério Duprat
Criatividade e lucros
3 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 21 de janeiro de 2009 at 12:23 PM.

André Midani, sempre inacreditavelmente inteligente e chique, como já o descreveu Caê, analisa o tiro no pé da indústria cultural e explica a única saída possível, no essencial livro Música, Ídolos e Poder:
Em geral, os líderes criativos de grande parte das indústrias criativas perderam poder a partir da década de 1980 e de 1990. E o perderam porque muitos viam o lucro como um componente vulgar, em que não queriam se imiscuir nem com que pretendiam aprender a lidar. E à medida que as empresas se tornavam muito maiores, os tecnocratas irromperam, sob a seguinte alegação: "Nós, os não-criativos, somos melhores para gerir indústrias criativas porque não nos consideramos aristocratas e temos capacidade e prazer em lidar com a parte suja dos negócios: o lucro." E era essa a melodia que Wall Street queria escutar!
Os danos que os tecnocratas estão causando à indústria fonográfica, ao cinema, à TV, às publicações, à Broadway e às empresas de publicidade têm que ser confrontados pelos líderes criativos de amanhã, antes que seja tarde. Terão que inverter o lema "lucros e criatividade" para "criatividade e lucros". No entanto, para alcançar esse objetivo, deverão aprender a entender, e até gostar, do mundo das finanças para se tornarem presidentes de suas organizações, descobrir o prazer de estudar os balanços financeiros das suas empresas, ler através dos números e compreender o que significam.
Richard Branson, os irmãos Weinstein, Ted Turner, Steve Jobs, Bill Gates, Larry Page, John Hegarty são alguns exemplos que podem servir de inspiração. Os líderes criativos vão ter que aprender a ser tão impiedosos quanto os tecnocratas, aprender o linguajar de Wall Street e convencer todo esse mundo de que somente a ciatividade genuína e o planejamento a longo prazo levam a uma lucratividade segura e duradoura. Vão ter o desafio e a responsabilidade de inverter os papéis e conseguir que os tecnocratas trabalhem para eles, em vez deles trabalharem para os tecnocratas.
Marcadores: abre aspas, André Midani, Caetano Veloso, Think Tank
Ah, meu deus do céu, vá ser sério assim no inferno
4 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 at 1:33 AM.

Domingo, sete da noite, auditório Ibirapuera, show do Tom Zé. Ele está cantando "Brigitte Bardot", música sua de 1973, do incrível álbum Todos os Olhos. A Brigitte Bardot está ficando velha. Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar? Quem conhece se diverte, quem não conhece simplesmente sente o susto planejado por Tom Zé: de repente a banda toda, que desde o começo da música se continha em sussurros, se transfere do piano ao mezzo forte, transliterando ao som a intensidade da tendência suicida da Bardot de Zé.
Quando a gente era pequeno pensava que quando crescesse ia ser namorado da Brigitte Bardot, continua a música. Mas a Brigitte Bardot está ficando velha, e de susto não morre mais: na repetição, onde antes havia o som abrupto, aqui há o fim tranqüilo. Tom Zé percebe o efeito do anticlímax: "Ah, vocês acharam que ia ser igual de novo? Aí não ia ter graça; a arte tem que surpreender."
Ironicamente, o mise en scène que gerou todo o imbroglio virtual começou com Tom Zé ironizando a onipresença de Caetano. "Você vai me entrevistar amanhã", começou ele ao microfone, ao comentar a presença de Pedro Alexandre Sanches na audiência. "Se for pra perguntar de Caetano, nem vá." Todo mundo riu e quase ficou por isso mesmo. Mas papo vai, papo vem, foi.
Caetano, todos sacam, é condescendente com todos e em especial com Tom Zé. Tom Zé, todos sacam, tem um certo orgulho ferido pelo carão de 30 anos do Caetano. Mas, convenhamos, ninguém tem culpa do ostracismo de ninguém. Cá de meu lado, acho Tom Zé um artista muito mais interessante quando totalmente independente de todo o Tropicalismo (salvo Duprat). Seus melhores discos soam tropicalistas apenas na medida em que Tom Zé é tropicalista avant la lettre: as fusões e experimentações e ironias e senso pop de manchete de jornal são naturais a ele e por ele foram emprestadas ao movimento.
Uma vez, conversando com Tom Zé justamente sobre uma "exclusão" sua do grupo tropicalista de elite, ele me dise: "minha obrigação é gostar e minha melhor estratégia é amar." Desde sempre essencialmente um inventor, Tom Zé se justifica na sua criatividade, não em qualquer carteira de associado de clube de ex-tropicalistas ou compositores malditos ou ídolos cult de descolados gringos. Daí, às vezes temo ele cair na armadilha de abusar do ostracismo, de um antagonismo com Caetano, de tanta excentricidade ou qualquer de suas criações tão interessantes como matéria-prima. Porque, afinal, a arte tem que surpreender.
Em pleno 1973, Tom Zé surpreendia quem ouvia "Complexo de Épico", música que abre e fecha Todos os Olhos. Sobre uma base gravada, recortada e colada - um loop analógico, portanto -, ele canta (bem, "canta"):
Todo compositor brasileiro é um complexado
Porque então essa mania danada
Essa preocupação de falar tão sério
De parecer tão sério
De ser tão sério
De se sorrir tão sério
De se chorar tão sério
De brincar tão sério
De amar tão sério?
Ah, meu Deus do céu
Vá ser sério assim no inferno
Marcadores: Caetano Veloso, Estudando Tom Zé, Play, Tom Zé
Caetano 68
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sábado, 1 de novembro de 2008 at 10:03 AM.

Que maravilhoso país o nosso, onde se pode contratar quarenta músicos para tocar um uníssono.
(Miles Davis, durante uma gravação)
Antes havia Orlando Silva & flautas e até mesmo no meio do meio dia. Antes havia os prados e os bosques na gravura dos meus olhos. Antes de ontem o céu estava muito azul e eu e ela passamos por baixo desse céu, ao mesmo tempo com medo dos cachorros e sem muita pressa de chegar do lado de lá. Do lado de cá não resta quase ninguém. Apenas os sapatos polidos refletem os automóveis que, por sua vez, polidos, refletem os sapatos assim per omnia até que (por absoluta falta de vento) tudo sobe num redemoinho leve, me deixando entrever um resto de rosto ou outro, pedaços, amém. Marina sabe a história do pelicano etc. etc. o peito aberto e rasgado etc. etc. mas que nada: quando a gente não tem nenhuma necessidade de ir para os States não há mesmo mais esperança. Eu gostaria de fazer uma canção de protestos de estima e consideração, mas essa língua portuguesa me deixa rouco. Os acordes dissonantes já não bastam para cobrir nossas vergonhas, nossa nudez transatlântica. E, no entanto, Ele é um gênio: quem ousaria dedicar este disco a João Gilberto? Quantos anos você tem? Como é que você se chama, quando é que você me ama, onde é que vamos morar? Os automóveis parecem voar, os automóveis parecem voar por cima (mas mais alto que o Caravelle) dos telhados azuis de Lisboa, dos teus olhos, dos mais incríveis umbigos de todas as mulheres em transe, dos teus cabelos cortados mais curtos que os meus, meu amor, porque eu não quero, porque eu não devo explicar absolutamente nada.
Caetano Veloso
P.S.: Gil, hoje não tem sopa na varanda de Maria.
*
Do primeiro solo do Caetano.
Marcadores: Caetano Veloso, Contracapa, João Gilberto, Miles Davis
Esplendor de clareza e precisão
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 29 de outubro de 2008 at 8:16 PM.

Assim como todos nós que gostam muito e conhecem algo da obra de Roberto e Erasmo, Caetano também se pega pensando em quem escreveu o quê em qual música:
"Fera ferida" é muito Roberto na minha cabeça. Não gosto de me intrometer na questão do que é mesmo de Roberto e Erasmo (ou de Lennon e McCartney). Mas tenho curiosidade e alguma idéia sobre as individualidades envolvidas. Há coisas de rima em "Fera ferida" que eu atribuiria a Erasmo (com seu talento para os versos rimados e seu amor por essa forma, como atestam o uso que ele fez do poeminha de Ghiaroni e as letras do disco do "Coqueiro verde" - sem falar em "Sentado à beira do caminho", um esplendor de clareza e precisão), mas o tema de "Fera ferida" é Roberto puro. O que impacta nessa canção é o tom de confissão íntima de Roberto, tom que fica reforçado pelo fato de a música ter sido lançada em sua voz. Mas Erasmo é tudo o que eu disse em "Verdade tropical" e muito mais. Lendo o livro de Midani (que tem algumas lembranças que não coincidem com as minhas mas é mesmo um ótimo livro), vi voltar a imagem forte de Erasmo, sua personalidade rock. José Agrippino de Paula também gostava mais de Erasmo do que de Roberto (como Midani) e eu sempre entendi por quê.
Do blog Obra em Progresso.
Marcadores: Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Roberto Carlos
1972 na música brasileira
14 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sábado, 27 de setembro de 2008 at 10:24 PM.

Chico Buarque * Quando o carnaval chegar [dl aqui]
Ironias com o rock, arranjos de coreto, clima de carnaval de filme do Nelson Pereira dos Santos, canções rebuscadas e aquela delicadeza e melancolia que ganham a ala feminina: é o disco que inventa não só Marcelo Camelo, mas também toda a cena de samba universitário da Vila Madalena em São Paulo.

Caetano Veloso * Transa [dl aqui]
O disco favorito de todo fã do Caetano, o disco "mas esse é bom" de todo detrator do Caetano, o disco favorito do próprio Caetano e boa dose de inspiração pra atual "fase roqueira" dele. Gravado em Londres, com Caetano deprimido e inspirado e com a banda liderada por Jards Macalé tocando ao vivo no estúdio, criando camadas de sons, canções, emoções.

Elis Regina * Elis [dl aqui]
Elis Regina não era cantora de bossa nova nem de jazz, não era hippie nem tropicalista. Era tão idiossincraticamente pessoal que tiveram que inventar um rótulo o mais genérico possível - simplesmente "música popular brasileira" - pra dar conta de generalizar discos como esse. Muito por culpa de Cesar Camargo Mariano, recém-vindo da banda de Wilson Simonal.

Tom Zé * Tom Zé [dl aqui]
Foi ali, por volta de 1972, que Tom Zé teve que encarar de vez a dura realidade: ele não fazia parte da elite da música brasileira. Provavelmente não era nem tropicalista. Livre da responsabilidade e encarando sua própria genialidade, criou seu primeiro grande clássico - de uma série que ao mesmo tempo o jogou no esquecimento e o tirou de lá 20 anos depois.

Tim Maia * Tim Maia [dl aqui]
Tim Maia era movido a emoções fortes. E deve ter tido poucas mais fortes que a fossa e dor de corno que sentia quanto compôs e gravou esse disco, esbanjando conhecimento de causa em funksoul e transbordando despeito e desamor. Pelo menos em termos de à-flor-da-pele, o grande disco do recente biografado pela assinatura Nelson Motta.

Erasmo Carlos * Sonhos e Memórias [dl aqui]
Depois de ir gradativamente ampliando seus horizontes a cada disco desde fins dos anos 60, foi em 1972 que Erasmo assumiu que queria mesmo era ser hippie. Esqueceu aquele papo de jovem guarda, trocou de gravadora, casou e foi pro mato. Nessas, renasceu um grande compositor: agora a inspiração vinha em sambinhas, baladas folk, soul, desabafos e declarações.

Jards Macalé * Jards Macalé [dl aqui]
Animado como compositor pelo Vapor Barato da Gal e como bandleader pelo Transa do Caetano, em 1972 Jards respirou fundo e colocou tudo no seu primeiro disco: sua voz, seu violão, sua excentricidade, sua sensibilidade, a poesia de Waly Salomão e o som de Lanny Gordin e Tutty Moreno.

Gilberto Gil * Expresso 2222 [dl link]
Gil, eufórico de alegria de estar de volta ao Brasil depois de dois anos no exílio, faz um disco mais brasileiro que nunca - mas, sob a influência do primeiromundismo roqueiro britânico, também mais roqueiro do que nunca, com a pegada de Lanny e Tutty já virando assinatura.

Maria Bethânia * Drama - Anjo Exterminado [dl aqui]
Caminhando a passos largos em direção ao desbunde baiano sem limites da década de 70, mas ainda com a criatividade aguçada, Bethânia estava ligada nas coisas: chamou o irmão recém-chegado de Londres com aquelas idéias novas pra produzir um disco dela. Long story short, Drama está pra Bethânia como Transa pro Caetano.

Roberto Carlos * Roberto Carlos [dl aqui]
Em 1972 Roberto não precisava provar mais nada a ninguém. Já era há tempos o maior popstar do Brasil, já tinha sido justificado pela intelectualidade através do tropicalismo, já tinha superado tudo isso e entrado no olimpo popular com Detalhes. Então, fez a única coisa que lhe restava: inventou todo um estilo musical, hoje conhecido como "brega".

Novos Baianos * Acabou Chorare [dl aqui]
Depois de uma estréia subtropicalista, os Novos Baianos tiveram um intensivão direto na fonte de todas as revoluções: João Gilberto, que apareceu na comunidade hippie deles, dividiu o banza e os ensinou a graça de Assis Valente. Some à epifania cool de Moraes, Baby e Paulinho o virtuosismo empírico dos jovens gênios Pepeu, Dadi e Jorginho e pronto: obra-prima.

Wanderlea * Maravilhosa [dl aqui]
Entediada com a música e com a persona em que a haviam metido nos anos 60 - música e persona que ajudaram a libertar em público o inconsciente de incontáveis adolescentes brasileiras, mas já pareciam a essa altura coisa da década passada -, em 1972 Wanderlea desbundou maravilhosa: de black power loiro na capa, cantava o feminismo, Hyldon, Gil e Jorge Mautner (com direito a trejeitos bicha e tudo).

Leno e Lilian * Leno e Lilian [dl aqui]
Dois discos, sucesso, Devolva-me & Pobre Menina e quatro anos de carreiras solo depois, Leno e Lilian reencontraram-se para reinventarem-se de jovemguardistas naif a roqueiros-folkeiros setentistas melancólicos e semibregas, sob a batuta do então produtor Raul Seixas. E não é que as vozes sacarinas em uníssono funcionam na nova roupagem e o disco se torna um clássico esquecido do folk-pop brasileiro?

Arthur Verocai * Arthur Verocai [dl aqui]
Garoto prodígio da turma dos festivais que vinha se transformando em um dos arranjadores de ouro de sua geração, em 1972 Verocai ganhou passe livre da gravadora Continental para fazer um disco todo só seu, do jeito que quisesse. Com a experiência de diretor musical de um Ivan Lins imitando Tim Maia em começo de carreira e sob a influência de suas amizades mineiras, pirou total: solos jazzísticos, pegada funk, letras hippie de tom contemplativo e o primeiro sintetizador usado em um disco brasileiro. Demorou só 30 anos para as pessoas entenderem.
Marcadores: Arthur Verocai, Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Erasmo Carlos, Estudando Tom Zé, gilberto gil, Jards Macalé, Maria Bethânia, Nara Leão, Novos Baianos, Roberto Carlos, Tim Maia
Abre Aspas: Caetano dá o toque: Chega de Humildade e Modéstia
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 1 de julho de 2008 at 9:47 PM.

Muita gente ainda se escandaliza quando Caetano Veloso diz: "acho lindo tudo que faço".
Ainda é considerado de muito bom tom cultivar a "modéstia" e a "humildade". Ou seja: achar medíocre tudo o que faz e esperar ansiosamente - com aquele biquinho de passarinho pedindo água - que alguma alma caridosa encontre méritos em seu trabalho...
Ora, ora, Dona Aurora: se nem você acha lindo o que faz quem vai achar?
E que "humildade" é essa, de se manter sempre numa posição de cômoda e covarde inferioridade diante da opinião alheia?
"Humildade" é um estado de espírito deturpado que o coloca à total disposição dos outros, sempre disposto a sacrificar suas maiores ou menores liberdades individuais em favor das mais tolas e medíocres expectativas e vontades alheias.
Estou falando dessa tristemente ridícula "humildade" que é cotidianamente cobrada de todos entre o medo e a subserviência. É claro que não falo do grandioso sentido de uma verdadeira humanidade que nasce do sentimento d pequenez e fugacidade do humano diante do Tempo e do Universo, diante da Vida e da Natureza.
Quase sempre falam em relação a artistas de sucesso, como se fosse uma grande virtude. "Fulano fez uma carreira brilhante mas continua o mesmo, o mesmo rapaz humilde de sempre..."
Ora, só um perfeito idiota pode se manter o mesmo ao longo de muitos anos de luta, eventuais vitórias, desapontamentos, amarguras, sonhos furados etc etc etc. Nunca um artista.
Pode parecer esperteza, mas as cabeças mais espertinhas sacarão que realmente se trata de sólida otarice fingir que considera uma bobagem tudo o que faz. No mínimo, corre o risco de algum "julgador" concordar instantaneamente... e ser odiado no ato.
Todos esses equívocos sobre "modéstia" e "humildade" estão muito ligados a um sentido permanente de estar em julgamento - que por sua vez deriva da compulsão de julgar permanentemente as ações, intenções (in-tensões) e omissões de todos. Para esquecer suas próprias...
É ou não é triste ter que fingir para os outros que se acha pequeno e desimportante quando o coração está aos pulos ansiando para que alguém confirme o que não se tem coragem de sentir?
Sugiro a todos e a mim mesmo uma reflexão mais profunda sobre esses palpitantes temas, esperando que o pensamento deságüe nos - esses sim - grandiosos sentidos da fugacidade humana diante das forças da Natureza e do Espírito, talvez uma das raras vias de se chegar a alguma coisa próxima da compreensão e da integração do Todo.
Isso não tem nada a ver com essas melancólicas e falsas "modésitas" e "humildades" para uso externo - revela a sabedoria de encarar de frente e para o fundo a fragilidade e curteza da vida humana e, de forma ampla e generosa, as grandezas do Espírito Humano, ao buscar a consciência do amor, do amor próprio profundo e vivificante - que não tem qualquer parentesco com o se sentir no centro do universo; e mesmo assim precisar que alguém lhe diga que está vivo e que merece estar.
É hora também de pensar com mais profundidade sobre esses significados que estão envolvendo as atitudes de "modésita".
Basicamente significa não se elogiar antes que os outros elogiem... Coisa triste, pequena e medrosa.
E quando o esperado, esperadíssimo, ansiado elogio e confirmação de méritos vem, baixar candidamente os olhinhos e murmurar um
Se você acha que não é ninguém, então é porque não deve ser ninguém mesmo... merece ser ninguém! Se você não se gosta, como esperar que algum desavisado ou ensandecido goste?
"Modéstia" ultimamente anda sendo muito associada a uma negativa dos próprios méritos e esforços; nunca em seus sentidos mais amplos e duradouros, ligados ao ascetismo, à alma imortal, à dispensa de luxos materiais e espirituais, em favor de valores mais profundos e essenciais.
Quem tem, com sua arte e seu trabalho, objetivos modestos, quer dizer tímidos, quase sempre só pode mesmo alcançar resultados modestos. E aí o malandro fica insatisfeito, reclamando da vida e do destino, ressentido, amargurado - mas sempre com aquela cabecinha discretamente baixa, querendo fazer crer a todos que já recebeu da vida muito mais que merecia...
Bem faz Caetano que tem coragem suficiente e intuição luminosa da luta feroz que representa um trabalho criativo; para ousar dizer que acha lindo tudo o que cria. Pode ser até que para ele mesmo, dentro de algum tempo, não seja mais tão lindo assim. Mas será vivido profundamente; tanto o feito como o conceito.
Só quem tem consciência de sua própria verdade e honestidade na busca e na luta pelos seus sonhos pode dizer sem medo que acha lindo tudo que faz. Honestidade bastante para saber que, se não achasse lindo, simplesmente não faria...
Que me perdoem a falta de modéstia e a ausência de humildade, mas acredito firmemente que tudo isso que foi escrito é bom e útil. Pode ser até que não seja, e é perfeitamente justo - nem vou me ofender por isso - que muitos não achem assim. Afinal, só os que se julgam perfeitos não podem admitir que discordem de seus pontos de vista; ódio eterno aos discordantes. Isso sim, é estúpida falta de humildade, modéstia e generosidade diante da vida, das pessoas, das artes e de si mesmo.
*
Nelson Motta, em crônica publicada, provavelmente, n'O Globo, provavelmente no fim dos anos 70, e aqui.
Marcadores: abre aspas, Caetano Veloso, Nelson Motta
Emilinha ou Marlene?
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 6 de maio de 2008 at 2:57 AM.
Continuando a série Achando Vídeos Inacreditáveis no YouTube, mais um momento incrível da música brasileira em imagens: Roberto e Caetano conversando sobre as músicas que mais gostavam quando crianças e cantando juntos uma das canções mais lindas que Caetano já escreveu e que Roberto já cantou: "Como dois e dois". Música que o Caetano fez doída quando ainda estava no exílio e deu pro Roberto e pra Gal cantarem em seus discos de 1971, igualmente clássicos - este e este. E música que Caetano recuperou recentemente pros seus shows, na mesma onda de descolização que gerou o Cê.
quando você me ouvir cantar
venha, não creia, eu não corro perigo
digo, não digo, não ligo, deixo no ar
eu sigo apenas porque eu gosto de cantar
tudo vai mal, tudo
tudo é igual quando eu canto e sou mudo
mas eu não minto, não minto, estou longe e perto
sinto alegrias tristezas e brinco
meu amor
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco
quando você me ouvir chorar
tente, não cante, não conte, não cante comigo
falo, não calo, não falo, deixo sangrar
algumas lágrimas bastam pra consolar
tudo vai mal, tudo
tudo mudou não me iludo e contudo
é mesma porta sem trinco, o mesmo teto
e a mesma lua a furar nosso zinco
meu amor
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco
Marcadores: A melhor música do mundo, Caetano Veloso, Roberto Carlos, YouTube