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Esta Vida Puta

Em uma manhã e tarde especialmente inspiradoras semana passada fui à Casa das Áfricas conversar com Carlos Moore, biógrafo de Fela Kuti e figura impressionante e com história maravilhosa por si só. A bio do Fela sai no fim do mês e matéria sobre isso saiu hoje na Folha Ilustrada. A clicar ou seguir lendo.



Carlos Moore, cientista político e etnólogo de 69 anos, chegou a primeira vez à Nigéria quando era um jovem jornalista cubano exilado na França, em 1974. Foi a convite do governo, para trabalhar no Festival Mundial das Artes Negras, mas na sua primeira semana de África foi seduzido por uma força revolucionária que mudou tudo: a música de Fela Kuti.

Sua relação com o compositor e ativista rendeu atritos com o governo nigeriano e culminou com sua expulsão do país depois de alguns meses. Mas a amizade com Fela que nasceu ali se fortaleceu ao longo dos anos e permitiu afinal que Moore conseguisse concentrar a história e as ideias do intenso músico em um livro.

A biografia Fela - Esta Vida Puta foi lançada originalmente em francês em 1982 e pouco depois ganhou versão inglesa. Este mês, é lançada pela primeira vez em português, com prefácio de Gilberto Gil, pela editora mineira Nandyala.

Em São Paulo, o lançamento acontece no dia 25 de junho, na Matilha Cultural (Rua Rêgo Freitas, 542 - centro), em evento com show em homenagem a Fela pela banda Bixiga 70 e a presença de Moore, que vive em Salvador há dez anos.




Desde o fim do ano passado, Moore está processando a produção do musical Fela! por incorporar elementos-chave de seu livro, além de diálogos e situações. Com investimento do rapper Jay-Z e passagens bem sucedidas pela Broadway, em Londres e na própria Nigéria, já se fala em adaptação do musical para o cinema.

Moore reivindica crédito à sua biografia, já que o processo, de tão íntimo, é autoral em diversos aspectos. “Ele me autorizou a escrever na primeira pessoa”, lembra Moore, em entrevista na Casa das Áfricas, em São Paulo.

“Eu não podia escrever ‘Fela disse’, ‘Fela nasceu em tal lugar’. Eu disse a ele: ‘eu te conheço bem, acho que posso falar como tu, integrar suas palavras e contar essa história’.” Daí que nomes, entidades, situações, palavras são de Moore sobre Fela.

“Nossa relação era política e de irmãos”, explica. “Era muito forte, havia realmente um amor muito grande. Especialmente porque ele estava sempre ameaçado, eu tinha esse temor que matassem ele.”

“Comecei a falar pra ele desde o início, ‘você tem que colocar as coisas que está dizendo em um livro!’ Mas ele dizia que isso estava errado. Dizia: ‘Isso está nas minhas canções, está indo da minha boca pra orelha do povo, e o povo está entendendo.’ Dizia que livro é coisa de branco, que nossa cultura africana é oral.”

Foi apenas depois de alguns anos, quando Fela andava em uma fase especialmente dura, após a morte de sua mãe e contemplando o suicídio, que um dia ligou lhe mandando vir “imediatamente”, e pronto para escrever.

Durante semanas, Moore ouviu Fela se abrindo completamente, jogando tudo que pensava, visões políticas, confissões pessoais, idiossincrasias e insights. Furacão de pensamentos, ideias assustadoramente brilhantes ou equívocas, fluxo de consciência rico, livro no ritmo de um artista que não parava de criar e impunha como ninguém sua música e visão política.




Fela Kuti dizia que estava criando “música clássica africana”. Mas seria impossível ter previsto a influência que teria, 14 anos depois de sua morte e 40 de seu auge artístico, sobre uma geração mundial de músicos sintonizados com suas ideias.

O afrobeat, como Fela chamava sua fusão de vertentes da música negra, cruzando tradições africanas com dinâmicas de funk e jazz, é destino ou ponto de partida de incontáveis formações pelo planeta hoje.

Em São Paulo, sob diferentes níveis de influência, interessantes bandas como Sambanzo, Afro Electro e Uafro se apresentam por bares e clubes. Uma das mais recentes formações, Bixiga 70, toca no lançamento da biografia Fela - Esta Vida Puta, e no dia 28 de junho no Sesc Pompeia.

Com sotaque próprio sobre as criações iniciais de Fela, a banda junta dez músicos de São Paulo que também se espalham por projetos como Rockers Control, Otis Trio, ProjetoNave, Coisa Fina - o disco de estreia deve sair no segundo semestre.

“No século XX Fela é o único artista que pode dizer que criou um gênero musical”, observa o biógrafo Carlos Moore. “E hoje grupos diferentes pelo mundo estão experimentando dentro desse gênero, criando algo novo. Da Itália ao Japão, é uma música que está fertilizando a criatividade e se juntando a outras culturas, é uma coisa extraordinária.”

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