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TRIO SURDINA






A emissão suave, a pronúncia coloquial, a sensação de perto do ouvido, a leveza e atualidade do som, o arranjo com poucos instrumentos e muitas dinâmicas. Quase dois anos antes de Chet Baker começar a cantar, pelo menos cinco antes de João Gilberto lançar sua batida cristalizada de violão-e-voz, doze depois do encontro de Django Reinhardt e Stephane Grappelli no Hot Club da França, o Trio Surdina vivia seu momento cheio de revoluções silenciosas: o violinista (e vocalista e assobiador) Fafá Lemos, o violonista Garoto e o sanfoneiro Chiquinho do Acordeom, músicos e estrelas da Rádio Nacional e em suas próprias carreiras.






Em quatro sessões entre os últimos dias de 1952 e os primeiros de 1953, nos estúdios da própria Nacional, o trio gravou um punhado de músicas com concepção assombrosamente moderna, arranjos de tirar o fôlego, malandragem, senso de humor e romantismo e criação em processo máximo de inventividade, unindo características muito particulares e complementares de cada músico. Um violinista assobiador cantando como João Gilberto seis anos antes da Bossa Nova? Um violonista com tanta clareza de toque e evolução de idéias? Um acordeão criando esses sons inéditos e em fusão com os outros instrumentos? Um trio inspirado em jazz e samba de breque? O nome perfeito, cheio de sentidos adequados, vinha do programa em que os três se encontravam com frequência e sucesso no formato: Música em Surdina, de Paulo Tapajós, circa 1952. Os Três Mosqueteiros da Bossa era um dos epítetos delegados a eles no ar em suas condições de ases e modernistas.






Fafá vindo do sucesso nacional de "Vingança", de Lupicínio Rodrigues, na voz de Linda Batista e com seu violino, e já às vésperas de ir aos Estados Unidos tocar com Carmen Miranda e gravar seu primeiro disco - com orquestra e clima Exótica, contemporâneo de Les Baxter e precursor de Martin Denny e Esquivel. Garoto, já revolucionário do choro, paradigma do seu instrumento, ousando nos acordes, invertendo ritmos, inventando andamentos, brincando com bordões e dedilhados. Chiquinho soando seu acordeão como órgão ou palheta, piano ou orquestra, fazendo cama ou solando, segurando ou soltando o groove, dialogando no registro agudo com o violino ou criando riffs em uníssono com o violão, lírico e criativo.





Os três juntos, em melhores momentos e disposições, alimentando-se da criatividade extra necessária para um trio de violino-violão-acordeão criar e preencher sons e espaços e o inevitável senso de diversão despretensiosa que nasce como consequência. Tangos, foxes, beguines, baiões em pegada entre o improviso do jazz de salão e a roda de morro. O samba de bossa de Noel Rosa, a beleza de Dorival Caymmi, a aristocracia de Ary Barroso. O arrepiante violão de Garoto a um passo de João Gilberto e além, os impressionantes timbres do acordeão de Chiquinho e o lindo tratamento das melodias por Fafá, glissandos, rubatos, pizzicatos, vocal ultra-cool e solos de assobio. Vinte e oito músicas, uma hora e vinte minutos preciosos: toda sua obra oficial em três LPs e meio de dez polegadas pela gravadora Musidisc, os dois primeiros, respectivamente, em vinil amarelo e verde.

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2 Responses to “TRIO SURDINA”

  1. # Blogger Mundim Veloso

    Muito bom... onde eu acho para baixar?
    Abraço.  

  2. # Blogger Ronaldo Evangelista

    Não tem tudo, mas dá pra começar a caçar:

    http://loronix.blogspot.com/2007/07/trio-surdina-trio-surdina-1953.html
    http://loronix.blogspot.com/2007/06/trio-surdina-baiao-nr-2-1953-two.html
    http://arquivossonoros.blogspot.com/2010/07/fafa-lemos.html
    http://toquemusical.wordpress.com/2009/10/24/compactos-diversos/  

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