RONALDOEVANGELISTA


Os Mutantos, Paris, 1969



Janeiro de 1969, Os Mutantes (com Dinho e Rogério Duprat, mas ainda sem Liminha) embarcaram para Paris, na conta da Philips, para apresentação-showcase no MIDEM e estratégias de divulgação, como a sensacional aparição na TV francesa no play acima. (Foi um ano e meio depois, em outubro de 70 que voltaram para temporada no Olympia e aproveitaram para gravar o incrível álbum Tecnicolor.) O trio mais baterista e maestro tinham acabado de terminar as gravações do segundo disco, em dezembro, então a afiação era total - embora toquem aqui duas do primeiro, do meio do ano anterior. A dança do rapaz (no 1 min), o bigode e chapéu de Dinho (aos 3 min), os sininhos e o longo close no rosto de Rita (entre os minutos 6 e 7), não tem preço. // E que triste pensar que dez pessoas no palco hoje não criam como quatro criavam então.

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I've got to let you know, I've got to let you know




Record Club é o Beck brincando no estúdio, chamando os chapas para passar algumas horas ouvindo, tocando e recriando algum disco, no impulso coletivo e de primeiro take - tudo registrado em vídeo e áudio. Fez Leonard Cohen com Devendra Banhardt e Binki Shapiro, Skip Spence com Jamie Lidell e Feist, vários músicos legais sempre participando e tocando. A idéia é boa, ainda melhor quando tudo tocado, filmado e montado mais elegante e menos experimental.

E às vezes acontece mágica, como no vídeo estiloso dessa versão sublime de "Need You Tonight", hit dos 80 do INXS, cantada pela Annie/St. Vincent (tipo Chan/Cat Power e Natasha/Bat For Lashes), com o Angus Andrew do Liars e figurações do Beck e, surpresa, se você procurar bem, do Sérgio Dias, last Mutante standing. Logo abaixo, o mais hit ainda "New Sensation". Vai indo o disco todo do INXS, regravado no começo do mês passado, Beck soltando aos poucos, uma faixa por semana, por aqui.

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Uau!



Falando em Walter Hugo Khouri (a relação é As Amorosas, cê tá ligado), muito massa os comerciais mini-curtas tropicalistas que os Mutantes fizeram pra Shell, de perdidos no deserto, Don Quixote, de noivos de filme mudo, de faroeste, surfistas, jovens, bonitos, hipsters, vanguardistas, anarquistas pop. Nonsense rápido todo MTV, com uns sons mutcholôcos deles e do Duprat.

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Expressão e afirmação da juventude brasileira



O Estado de São Paulo, com 9 milhões de habitantes de menos de 25 anos de idade, é um dos centros de expressão e afirmação da juventude brasileira. Compositores populares, cantores, diretores e intérpretes de teatro e de cinema, escritores e artistas plásticos, projetam o seu nome por todo o país. E conquistam acesso aos meios de comunicação de massa, representados por uma rêde de nove estações de tevê, de noventa e uma estações de rádio, além de centenas de jornais e revistas. Quer se dediquem ao estudo, às técnicas de produção e aos diversos ramos da ciência moderna, quer se apliquem às atividades artísticas, os moços encontram em São Paulo um ambiente estimulante e pronto a absorver os que se distinguem por talentos ou capacidades especiais. Êles estão procurando ajudar São Paulo a dar o grande salto para a frente.

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Os Mutantes, Gil, Nara, Roberto, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, uma escada e vários bambas em uma antiga edição da Realidade.

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Jovem Urgente, 1969

Em 1969 havia na TV Cultura um programa chamado Jovem, Urgente, dirigido por Walter George Durst e apresentado pelo professor e psiquiatra Paulo Gaudêncio. Ele ficava sentado em uma cadeira giratória, com uma lousa na mão, falando e conversando com um grupo de jovens em um cenário não muito diferente de um auditório universitário. Um dia, levou ao programa um bando de jovens artistas dos mais malucões pra falar "aquilo que os jovens musicalmente estão dizendo e os adultos não ouvem": os Novos Baianos, os Mutantes e Tom Zé.



A imagem acima (ou parte dela) está no no filme Lóki. O resto, é brincar de quebra-cabeça no YouTube. Acerta o volume da TV transistorizada em branco e preto e bom programa.



Os Novos Baianos cantam "Dona Nita e Dona Helena", música feita pra mãe da gente


Os Mutantes seguem à risco o figurino de banda sixties psicodélica e mandam "Fuga N°2"


Moraes novinho paga de Lou Reed baiano e Baby canta "Curto de Véu e Grinalda" com os Novos Baianos


Tom Zé, de lenço no pescoço, protege a família brasileira cantando "No Tempo da Nossa Vovó"


Arnaldo no órgão, Rita nas maracas e os Mutantes cantando "Quem tem medo de brincar de amor?"


Tom zé canta "A Gravata", mas antes explica que um camarada (um cidadão!), pra viver mais ou menos bem numa grande cidade, precisa inicialmente de três coisas: gravatas, documentos e neuroses


Os Mutantes soltam o rock e cantam "Preciso urgentemente encontrar um amigo" (canção-presente de Erasmo, aliás)


Tom Zé começa cantando e termina "São São Paulo" em spoken word


Paulo Gaudêncio fala das mentiras do mundo moderno e explica que ninguém agüenta ser massa, imediatamente antes de Tom Zé cantar "A Gravata"

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Wax Poetics tem matérias com Shuggie Otis e Mutantes



Se você já viu alguma edição, sabe que a Wax Poetics é das melhores revistas de música do mundo. Dedicada a soul, jazz, hip-hop, funk, disco, reggae e vertentes afins da música negra e do colecionismo, ela sempre tem matérias excelentes, recheadas de fotos de arquivo e discografias, tudo como deve ser. É também ótimo lugar para se ler decentemente sobre música brasileira: ela já fez matérias preza com Wilson Simonal, João Donato e toda a cena Black Rio, entre outros.

A cada edição os caras pescam só personagens incríveis, mas a mais recente está especial: capa e entrevista com Shuggie Otis, autor da música Strawberry Letter 23 e do fabuloso disco Inspiration Information - gravado quase todo por ele sozinho quando tinha 21 anos.

Além do Shuggie (cujo nome artístico eu descobri ser uma corruptela de "sugar" lendo a matéria), a Wax Poetics 31 tem uma matéria com os Mutantes. Mais legal ainda que a matéria é essa lista comentada, feita pro site deles, de 14 discos que influenciaram a banda. Infelizmente os discos foram escolhidos pelo mais palha dos Mutantes, que agora leva o nome da banda no seu projeto solo, mas ainda rende bons comentários - como a história que Arnaldo e ele se espelhavam nos Everly Brothers até a Rita entrar pra banda e eles virarem os Peter, Paul & Mary.

A lista tem ainda Celly Campelo, Sly & the Family Stone, Jimmy Smith, Rolling Stones, Demônios da Garoa. E, é claro, Beatles: Every time a Beatles album was released, it was like a change of your perspective on life. Aqui.

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Recomendada a compra pelo site deles, Amazon, Dusty Groove, algum amigo mandando pelo correio. Nas bancas e Fnacs a revista custa quase 70 reais, mas o preço de capa é menos de dez dólares.

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Build Up Eletronic Fashion Show



O senso de humor, o rosto angelical e a voz delicada não são as únicas semelhanças entre Nina e Rita. Nina, você sabe, é talentosa, criativa e divertida estilista e criou discos e shows para cada coleção que lançou. Rita não só era a estilista informal dos Mutantes como fez uma série de shows-desfiles pra Rhodia, chegou a ser convidada a lançar uma linha de roupas com seu nome e, pro Build Up, fez um espetáculo misturando música, moda, cultura pop, metalinguagem.

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Amigo de Lívio Rangan, o chefão da Rhodia, Midani costumava se reunir com ele para sugerir nomes de artistas, sempre que uma nova superprodução da empresa era planejada. Num desses encontros, no início de 1970, ao sentir um especial interesse de Rangan pelos dotes artísticos da garota, Midani percebeu que chegara o momento de investir na carreira individual de Rita. O big boss da Philips já sabia que as coisas não andavam bem entre os Mutantes e, apesar de ser fã do trio, calculou que a separação poderia ser boa para todos os envolvidos.

O shw Nhô Look era mais uma prova de que Rita levava mesmo jeito para o palco. Elogiada por seu desempenho, ela teve nesse espetáculo a chance de mostrar seu talento extra-musical. Além de cantar e dançar, interpretava o papel de uma garota caipira, Ritinha Malazarte, acompanhada por uma bandinha interiorana com 14 músicos. A coleção exibida por Rita e as manequins do elenco (entre elas Mila Moreira, que depois veio a se tornar atriz) adaptavam para o contexto brasileiro a moda paysan, inspirada no vestuário das camponesas européias.

Além do próximo show-desfile da Rhodia, na Fenit, do qual seria novamente a protagonista, Rita também foi convidada a criar roupas para uma grife jovem, que levaria seu nome. Se os Mutantes não se cuidassem rápido, corriam o risco de perder sua vocalista.

Apesar da resistência de Rita, maior ainda depois que ela voltou às boas com os Mutantes, os planos de André Midani e da Philips para transformá-la em uma cantora de sucesso prosseguiram conforme o traçado. Em julho, Rita retornou ao velho Estúdio Scatena para gravar seu disco, quase a toque de caixa. O álbum deveria estar prensado até meados de agosto, para ser lançado durante a nova produção da Rhodia, na qual Midani também deu vários palpites, de olho no marketing que o espetáculo renderia para a carreira solo de sua nova estrela.

"Encontramos a estrela da década!
Rita Lee"

O outdoor que surgia no encerramento do novo show da Rhodia, com Rita no papel principal, fundiu a cuca de muita gente. Depois da anunciada separação dos Mutantes, da boa atuação de Rita no show-desfile Nhô-Look e, mais ainda, após a notícia de que ela acabara de gravar seu primeiro disco individual, era difícil para quem visse esse espetáculo acreditar que ela ainda ligava seu futuro musical ao dos irmãos Baptista.

Na véspera da estréia do show, no Pavilhão do Ibirapuera, Rita jurava aos repórteres que nem passara por sua cabeça deixar de ser a vocalista dos Mutantes. No entanto, o espetáculo que estreou dia 8 de agosto de 1970, dentro da FENIT (Feira Nacional da Indústria Têxtil), sugeria algo bem diferente. Para começar, o próprio enredo do Build Up Eletronic Fashion Show girava em torno de uma garota (Rita Lee) que sonhava se tornar uma grande estrela. Outro detalhe significativo: Build Up (expressão que significa construir uma imagem; criar em torno de uma pessoa, ou de um produto, uma maneira de facilitar seu consumo) era também o título do LP de Rita, que a Philips prometera distribuir às lojas alguns dias mais tarde.

Produzido por Roberto Palmari, com direção musical de Rogério Duprat e Diogo Pacheco, o show mostrava, com boas doses de meta-linguagem, os bastidores do mundo da comunicação de massa e da propaganda. O cenário reproduzia as instalações de uma agência de publicidade, cujos clientes era, na verdade, os 14 patrocinadores do esptáculo, caso dos postos de gasolina Esso, do cigarro Hollywood, do rum Bacardi, do uíque Old Eight, da bicicleta Caloi, ou da revendedora de automóveis Bino-Ford, entre outros.

O elenco também era enorme. Além de 16 manequins da Rhodia e do balé de Ismael Guizer, participaram o ator Paulo José (como o diretor artístico da imaginária agência), os cantores Jorge Ben, Juca Chaves, Tim Maia, Marisa (vocalista do Bando) e os conjuntos Trio Mocotó, Lanny's Quartet, Coral Crioulo, Os Ephemeros e Os Diagonais. No palco, havia também um sofisticadíssimo sistema audiovisual, controlado por um computador eletrônico, que utilizava seis telas - em quatro delas eram exibidas centenas de slides; em duas outras, um documentário colorido em 16mm.

Rita saiu-se muito bem. Mais uma vez, representou, cantou, dançou e atuou como garota-propaganda, graças a um papel que serviu como uma luva à sua irreverente verve humorística. Ao interpretar a garota ingênua e desajeitada que sonhava se tornar manequim, chegava a escorregar e cair sentada durante um desfile, arrancando muitas risadas do público.


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Da Divina Comédia dos Mutantes, do Carlos Calado.

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