RONALDOEVANGELISTA


Maria Bethânia, 1965











Fotos de Joel Maia para a UH Revista, fevereiro de 1965.

Só algumas das 166 mil fotografias do acervo do jornal Última Hora, do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

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Teatro Bandeirantes, 1974

Mil novecentos e sessenta e oito, os programas musicais são o Faustão e Gugu de seu tempo. A TV Record tem o Teatro Record, a Tupi aluga o Cine Ritz, ambos na rua da Consolação. Bombam na audiência programas de auditório, especiais ao vivo, Jovem Guarda, Fino da Bossa. A TV Bandeirantes, inaugurada um ano antes, não quer ficar pra trás e compra o Cine Arlequim, na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, para acolher a música popular brasileira. Seis anos depois, 1974, quando naquele lugar o Teatro Bandeirantes é finalmente inaugurado, as coisas já não as mesmas. Os jovens artistas dos programas de TV já são superstars, a sigla-gênero MPB já virou commodity, todas as gravadoras, empresários, teatros, tevês já aprenderam a ganhar dinheiro e capitalizar tatuando os artistas no status quo.

Aí, seguindo de leve o modelo do mega-happening Phono 73, organizado 15 meses antes pela Phonogram (ex-Philips, futura Universal), a Bandeirantes organiza um supershow de inauguração de seu novo teatro, no dia 12 de agosto de 74, com apresentações de Rita Lee, Tim Maia, Elis Regina, Chico Buarque e Maria Bethânia, tudo na seqüência devidamente transformado em especial de TV. Exibido, arquivado e nunca lançado comercialmente - mas pirateado já em VHSs entre interessados, desde muito antes da internet.

Hoje o Teatro Bandeirantes virou igreja evangélica, os artistas ainda vivos viraram uns chatos e todas as redes de TV brasileiras se afogam na própria caretice.

Pelo menos temos o YouTube.



Depois da apresentação de dois minutos, Rita Lee surge toda glam no palco escuro para cantar "Mamãe Natureza" acompanhada do Tutti-Frutti e, entre solos de guitarra, até toca um clavinete.



Ainda na frente do clavinete, Rita saca uma flauta e manda ver num solo, antes de dar o boa-noite e voltar a atacar as teclas e o microfone em "Pé de meia". (Outra do maravilhoso "Atrás do Porto Tem uma Cidade", primeiro disco seu com o Tutti-Frutti, do mesmo ano do show.)



Os riffs marcados, o clavinete nervoso, os solos intensos, o visu estáile: é Rita cantando "De pés no chão" toda ruiva no cabelo e na boca. Ela nem curtia Bowie, diz aí.



Saem os riffs, entram os grooves; sai Rita, entra Tim. Acompanhado da Seroma Band, esbanjando estilo no seu terno preto e camisa rosa de cetim, Tim Maia inventa o funk brasileiro e canta "Réu confesso", vai emendando improvs em inglês e já tira da cartola "Primavera". Sem perder o fôlego, ainda manda um "Azul da cor do mar".



Só se for agora. Tim, em seu melhor momento, apresenta a banda, dividida em quatro partes (teclados, cordas, ritmo e sopro), antes de transarem uma música inédita sobre um livro que ele anda lendo, chamado "Universo em Desencanto". É "Que beleza", já obra-prima, cinco meses antes de ser lançada no primeiro Tim Maia Racional. Pra completar o momento, ainda vem um "Gostava tanto de você". Muito obrigado, estamos aí.



Sentindo cada palavra de cada frase de cada música, como lhe era habitual, Elis Regina sobe ao palco acompanhada do quinteto do genial pianista Cesar Camargo Mariano (com quem se casou no mesmo 1974), e canta "Conversando no bar". Ao mesmo tempo, vai inventando o comportamento e o gosto de toda uma geração (e mais) de artistas e mulheres brasileiras.



Como para Elis emoção pouca é bobagem, ela já emenda "Travessia" com tudo que tem no peito e na voz, acompanhada de Cesar Mariano, seu piano elétrico, seu bigode e arranjo épico. Depois de aplausos e mais aplausos, muito justo, ainda leva o sambinha "Feiticeiro Negro".



Em ritmo de dança, coração batendo mais que bongô, Elis canta "Dois pra lá, dois pra cá", com trechinho do bolero "La puerta" no final. E manda na seqüência um Tom Jobim, "Triste", compositor que até outro dia ela rejeitava grandemente - mas com quem neste 1974 dividiu disco histórico.



Sem deixar cair, outro Tom Jobim: "Só tinha de ser com você", com timbre lindo de piano elétrico e Elis com sua famosa voz-de-sorriso. E pra quem ainda não chorou ou morreu de emoção na platéia, Elis dá outra chance e oferece "Pois é", de Tom com Chico Buarque - que no final chega de mansinho e canta lindamente, observado por ela.



Agora dominando o palco com seus amigos do MPB4 em momento cheio de arranjos elétricos incríveis, Chico já sai assobiando contra a ditadura, antes de mandar "Cotidiano" e "Baioque", thank you. Clave, piano elétrico, violão, microfonia e o estamos seguindo em "Você vai me seguir".



Hoje com a função extra de ativar a memória de todo mundo que tanto ouviu a gravação ao vivo de "Jorge Maravilha", Chico canta a canção pra todas as filhas e ainda conta marotamente a história tão-verdadeira-que-é-falsa do compositor Julinho da Adelaide e sua vida no morro da Rocinha, com sua companheira Jurema. Pro arremate, manda a sempre linda "Tatuagem".



Todo setenta de calça marrom e jaqueta jeans, Chico convida as donzelas para um pecado safado debaixo do cobertor, em "Não existe pecado ao sul do Equador". No fundo um sentimental, ele ameaça um "Cala a boca, Bárbara", mas vai mesmo é de "Tira as mãos de mim". Ou melhor, Maria Bethânia vai, surgindo no palco de surpresa e intensamente, pra cantar com voz de trovão sentimental.

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1972 na música brasileira


Chico Buarque * Quando o carnaval chegar [dl aqui]
Ironias com o rock, arranjos de coreto, clima de carnaval de filme do Nelson Pereira dos Santos, canções rebuscadas e aquela delicadeza e melancolia que ganham a ala feminina: é o disco que inventa não só Marcelo Camelo, mas também toda a cena de samba universitário da Vila Madalena em São Paulo.


Caetano Veloso * Transa [dl aqui]
O disco favorito de todo fã do Caetano, o disco "mas esse é bom" de todo detrator do Caetano, o disco favorito do próprio Caetano e boa dose de inspiração pra atual "fase roqueira" dele. Gravado em Londres, com Caetano deprimido e inspirado e com a banda liderada por Jards Macalé tocando ao vivo no estúdio, criando camadas de sons, canções, emoções.


Elis Regina * Elis [dl aqui]
Elis Regina não era cantora de bossa nova nem de jazz, não era hippie nem tropicalista. Era tão idiossincraticamente pessoal que tiveram que inventar um rótulo o mais genérico possível - simplesmente "música popular brasileira" - pra dar conta de generalizar discos como esse. Muito por culpa de Cesar Camargo Mariano, recém-vindo da banda de Wilson Simonal.


Tom Zé * Tom Zé [dl aqui]
Foi ali, por volta de 1972, que Tom Zé teve que encarar de vez a dura realidade: ele não fazia parte da elite da música brasileira. Provavelmente não era nem tropicalista. Livre da responsabilidade e encarando sua própria genialidade, criou seu primeiro grande clássico - de uma série que ao mesmo tempo o jogou no esquecimento e o tirou de lá 20 anos depois.


Tim Maia * Tim Maia [dl aqui]
Tim Maia era movido a emoções fortes. E deve ter tido poucas mais fortes que a fossa e dor de corno que sentia quanto compôs e gravou esse disco, esbanjando conhecimento de causa em funksoul e transbordando despeito e desamor. Pelo menos em termos de à-flor-da-pele, o grande disco do recente biografado pela assinatura Nelson Motta.


Erasmo Carlos * Sonhos e Memórias [dl aqui]
Depois de ir gradativamente ampliando seus horizontes a cada disco desde fins dos anos 60, foi em 1972 que Erasmo assumiu que queria mesmo era ser hippie. Esqueceu aquele papo de jovem guarda, trocou de gravadora, casou e foi pro mato. Nessas, renasceu um grande compositor: agora a inspiração vinha em sambinhas, baladas folk, soul, desabafos e declarações.


Jards Macalé * Jards Macalé [dl aqui]
Animado como compositor pelo Vapor Barato da Gal e como bandleader pelo Transa do Caetano, em 1972 Jards respirou fundo e colocou tudo no seu primeiro disco: sua voz, seu violão, sua excentricidade, sua sensibilidade, a poesia de Waly Salomão e o som de Lanny Gordin e Tutty Moreno.


Gilberto Gil * Expresso 2222 [dl link]
Gil, eufórico de alegria de estar de volta ao Brasil depois de dois anos no exílio, faz um disco mais brasileiro que nunca - mas, sob a influência do primeiromundismo roqueiro britânico, também mais roqueiro do que nunca, com a pegada de Lanny e Tutty já virando assinatura.


Maria Bethânia * Drama - Anjo Exterminado [dl aqui]
Caminhando a passos largos em direção ao desbunde baiano sem limites da década de 70, mas ainda com a criatividade aguçada, Bethânia estava ligada nas coisas: chamou o irmão recém-chegado de Londres com aquelas idéias novas pra produzir um disco dela. Long story short, Drama está pra Bethânia como Transa pro Caetano.


Roberto Carlos * Roberto Carlos [dl aqui]
Em 1972 Roberto não precisava provar mais nada a ninguém. Já era há tempos o maior popstar do Brasil, já tinha sido justificado pela intelectualidade através do tropicalismo, já tinha superado tudo isso e entrado no olimpo popular com Detalhes. Então, fez a única coisa que lhe restava: inventou todo um estilo musical, hoje conhecido como "brega".


Novos Baianos * Acabou Chorare [dl aqui]
Depois de uma estréia subtropicalista, os Novos Baianos tiveram um intensivão direto na fonte de todas as revoluções: João Gilberto, que apareceu na comunidade hippie deles, dividiu o banza e os ensinou a graça de Assis Valente. Some à epifania cool de Moraes, Baby e Paulinho o virtuosismo empírico dos jovens gênios Pepeu, Dadi e Jorginho e pronto: obra-prima.


Wanderlea * Maravilhosa [dl aqui]
Entediada com a música e com a persona em que a haviam metido nos anos 60 - música e persona que ajudaram a libertar em público o inconsciente de incontáveis adolescentes brasileiras, mas já pareciam a essa altura coisa da década passada -, em 1972 Wanderlea desbundou maravilhosa: de black power loiro na capa, cantava o feminismo, Hyldon, Gil e Jorge Mautner (com direito a trejeitos bicha e tudo).


Leno e Lilian * Leno e Lilian [dl aqui]
Dois discos, sucesso, Devolva-me & Pobre Menina e quatro anos de carreiras solo depois, Leno e Lilian reencontraram-se para reinventarem-se de jovemguardistas naif a roqueiros-folkeiros setentistas melancólicos e semibregas, sob a batuta do então produtor Raul Seixas. E não é que as vozes sacarinas em uníssono funcionam na nova roupagem e o disco se torna um clássico esquecido do folk-pop brasileiro?


Arthur Verocai * Arthur Verocai [dl aqui]
Garoto prodígio da turma dos festivais que vinha se transformando em um dos arranjadores de ouro de sua geração, em 1972 Verocai ganhou passe livre da gravadora Continental para fazer um disco todo só seu, do jeito que quisesse. Com a experiência de diretor musical de um Ivan Lins imitando Tim Maia em começo de carreira e sob a influência de suas amizades mineiras, pirou total: solos jazzísticos, pegada funk, letras hippie de tom contemplativo e o primeiro sintetizador usado em um disco brasileiro. Demorou só 30 anos para as pessoas entenderem.

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