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Algo que não deve ser imposto, mas que existe por si mesmo



Dylan caro? E o Morricone, por R$1500 - o mais barato R$700? Em homenagem ao show do ano, para poucos e bons de bolso, lembro de quando entrevistei o maestro italiano pra Folha, no ano passado. Bem, entrevistei mais ou menos. Foi absolutamente surreal - preparei a pauta e mandei o questionário; depois liguei pra nora (ou ex-nora, não me lembro bem) do Morricone, que havia feito as minhas perguntas e gravado as respostas. Aí eu ficava ouvindo de fundo a voz italiana dele saindo das caixinhas de som do gravador e ela ia traduzinho, em um português meio enrolado: "ah, ele está dizendo que..."

Isso, é claro, depois de dias de negociações, horários marcados e desmarcados, e o risco de tudo ser cancelado a qualquer momento.

Improvavelmente, até que saiu um texto razoavelmente decente disso:

Música para cinema é diferente de tudo

Aos 78 anos, 46 de carreira, mais de 400 filmes no currículo, cinco indicações ao Oscar e um prêmio especial da Academia concedido pouco mais de dois meses atrás, o compositor italiano Ennio Morricone desembarca nesta semana no Brasil pela primeira vez, para fazer finalmente sua estréia em um palco brasileiro.

Morricone vai fazer apenas um show, neste sábado, dia 5, no Teatro Municipal do Rio, acompanhado da Orquestra Petrobras Sinfônica e 18 músicos italianos que traz na bagagem, inclusive a soprano Susanna Rigacci.

Se a chegada do cultuado compositor em terras brasileiras é motivo de excitação, o que dizer de feito similar nos EUA -país para onde Morricone produziu grande parte de sua obra? Pois foi apenas em fevereiro passado, poucas semanas antes de sua premiação na festa do Oscar, que o autor se apresentou pela primeira vez na América, para um público de 5.000 pessoas.

Pode parecer uma excentricidade do italiano não ter se dedicado com mais afinco ao seu potencial grande público, mas Morricone trabalha só com suas próprias regras. Outra prova disso é o fato de, mesmo tendo realizado obras em parceria com diretores americanos, como Brian De Palma, o maestro nunca ter se dado ao trabalho de aprender inglês.

E foi assim, cercado de improbabilidades e particularidades, que a Folha foi atrás de uma entrevista com o músico. Regra número um: ele só falaria à intérprete que ele conhecesse e aprovasse, de preferência alguém de sua equipe. Regra número dois: o horário teria de ser o que lhe servisse melhor, não importando quantas vezes fosse necessário remarcar a entrevista. Regra número três: ele não falaria diretamente à reportagem, mas sim com sua intérprete, com as nossas perguntas na mão, e ela depois transmitiria as respostas.

Brasil
Notório avesso a entrevistas, Morricone foi uma tour de force, mas não se esquivou de falar, desde que seguidas suas regras. Ganhar o Oscar? Sim, foi um reconhecimento que lhe deixou muito emocionado e surpreendido. O Brasil? É um país que admira de longe, e sobre o qual tem grande interesse. A música brasileira? Tem uma simpatia enorme, e foi forte influência no seu começo como compositor. Ter gravado um disco ao lado de Chico Buarque em 1970? Claro que se lembra, e foi uma experiência com resultado muito original, do qual se orgulha muito.

Conhecido principalmente pelas trilhas que escreveu nos anos 60 para os filmes do italiano Sergio Leone, lembrados até hoje como westerns spaghetti, Morricone tem aquilo como ponto de partida para uma carreira longa, rica e variada. Formado em composição pelo Conservatório de Santa Cecília de Roma e interessado em jazz e música de vanguarda, Morricone faz uma música distante dos clichês, utilizando-se de precisão erudita sobre melodias simples e instrumentação criativa -é notória sua mistura de cravos, sintetizadores, vozes femininas e orquestras.

Depois de tantos anos e tantas composições, qual pode ser o segredo da criatividade até hoje? "Esse segredo é a coisa mais simples que se pode imaginar", diz ele, por meio de sua intérprete. "Quatrocentas trilhas não é muito se pensarmos em Johann Sebastian Bach, que escrevia uma cantata por semana, sempre comissionado por um príncipe, um rei. Ou seja, sempre existiu a música por comissão, a criatividade surge quando a pessoa reconhece que ama o próprio trabalho, que foi escolhido para aquilo."

Então, qual o segredo dessa música que funciona tão bem acompanhando imagens quanto sozinha? "A música para cinema é diferente de todos os outros tipos de música", ele explica. "A grande diferença é o condicionamento: à história, ao diretor, ao público que é do filme, não da trilha. Esse condicionamento deve ser superado pelo estilo do compositor -algo que não deve ser imposto, mas que existe por si mesmo. Esse estilo deve conseguir encontrar seu caminho apesar dos condicionamentos."

E a paixão pela música, afinal, segue até hoje? "Não gosto de usar a palavra paixão, porque paixão acaba", esclarece. "A música, pelo contrário, é uma fonte inexaurível. A disciplina é tão importante quanto a paixão: com ordem e disciplina, paixão vira continuidade."

Aposentadoria, então, nem pensar? "Ah, essa palavra ele odeia, nem citei para ele", diz a intérprete. "O que ele mais gosta de fazer é trabalhar."

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1 Responses to “Algo que não deve ser imposto, mas que existe por si mesmo”

  1. # Anonymous Anônimo

    Gênio..  

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