RONALDOEVANGELISTA


Betina, Arranjo e Regência: Tom Zé, 1973









Um ano depois deu seu primeiro disco pela Continental (e terceiro de carreira), no mesmo ano em que gravaria o arrojado Todos Os Olhos, 1973, Tom Zé fez um frila para a Chantecler: arranjou e regeu duas músicas suas para a voz de Betina - possivelmente o único lançamento de uma cantora hoje completamente desconhecida. No lado A, pequena obra-prima com brilhante e esquecido arranjo de sopros no contraponto, a então inédita "Que bate calado" (regravada por Tom Zé três anos depois como "Dói", no Estudando o Samba). No lado B, versão mais lenta e levada pro romântico de sua recente "O anfitrião" (do álbum de 72, mesmo de "Se o caso é chorar" e "Edifício Itália"), com o autor puxando o coro no refrão.

Betina com vocal claro e natural, melancólico e forte, de especial expressão e especialmente mágica para interpretar a riqueza de sentidos das canções de Tom Zé, comprovando cedo que os experimentalismos do ex-tropicalista fazem camada para canções que soam bem com mais de uma leitura - de amor mas esperta, de tristeza mas humorada. (E vale notar recentemente o mesmo efeito em discos de Monica Salmaso, Adriana Maciel, Marcia Castro, Bárbara Eugênia.) Tom Zé ali ele próprio no olho do furacão de seu auge criativo, colocando todas as forças a favor de um novo artista se lançando com suas músicas, compondo, cantando junto, arranjando, liderando a banda. Banda, aliás, toda particularmente inspirada - o baterista é algo a se ouvir. Pouco mais de sete minutos de música perfeita, Compacto Simples Chantecler C 33.6445, 1973, filho único querido escavado (terá sido Eric ou Henrique?), invendável e inemprestável, até onde sei nunca relançado em nenhum formato. Nem Tom Zé tinha, me pediu e copiei. Aproveitei para registrar o que ele se lembrava sobre a gravação, Betina, a idiossincrasia da situação:

Alguém me pediu que fizesse arranjo pro disco de inauguração de Betina. Não sei se ela chegou a gravar um LP, eu escrevi só duas músicas pra um compacto simples. Ela era uma pessoa séria, uma artista que já nasce madura. Cantava na noite, uma moça muito importante, tenho pena de não ter conhecido ela direito. Me lembro que eu estava de férias em São Sebastião, escrevi o arranjo lá, marquei com os músicos e vim tocar. Quando eu acabei de gravar, o próprio produtor me falou que tinha defeitos. Claro que a linguagem dele era outra mesmo, mas eu fiquei com pena dela. Betina, me perdoe por você ter chamado um artista tão sofisticado. Se ouvir a gravação, eu acho bom. Mas botar ela pra concorrer no mundo da música popular com aquilo, não era perfeito. Rogério Duprat, quando fez seus primeiros arranjos, já tinha a força de tudo pronta. Eu estava ainda armando, começando a montar minha linguagem, com aqueles blocos de metais. Mas era muito incipiente ainda, não era acompanhado por uma percussão forte, pra poder dar uma coisa pra manter o artista cantando. Aquilo ia ser minha linguagem já formada em 1976, quando escrevi a música novamente.

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o telefon-



Quando fala "no meu descompasso o riso dela", falta um tempo no compasso. O samba é em 2/4 e ali na palavra descompasso tem um compasso em 1/4 - sem o tempo fraco, dois tempos fortes sucessivos. No "telefon...", a letra é suprimida pra a pessoa imaginativamente ouvir se o telefone está chamando ou não.

Porque quando a pessoa está sozinha, o telefone chamando é uma esperança. Não é uma recorrência - você fala "o telefon...", aí quando toca o telefone você pára pra ver se está tocando mesmo? A intenção era essa, o que tento fazer lá é que você veja o quadro de uma pessoa que faz isso.

O Adolphe Appia, que no princípio do século foi o primeiro teórico das artes, dessa parte das artes, disse que as artes plásticas são artes espaciais - você vê tudo num instante -, as artes do discurso e da música são artes temporais - precisam de um espaço de tempo -, e o teatro é uma arte espaço-temporal - porque depende também do gesto do ator, enquanto o discurso, que é o texto, está sendo apresentado.

"Solidão" foi o momento em que tentei botar o espaco dentro do tempo. É ótimo você botar pequenos segredinhos mais cabalísticos, mais esotéricos como esses, ou mais simples, como tantos outros, pra pessoa do outro lado descobrir, ver que tem lógica.




(Foto daqui.)

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Amor deixei



Se o caso é cantar, Lulina fechou os olhos, deixou ventar, abriu o coração, soltou a voz e vestiu Tom Zé, com a Banda dos Contentes, Galeria Olido, quatro de novembro. Filmado pelo Capanema (ou foi a Dani?).

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CONEXÕES na Olido, volume 2



04_NOV Lulina canta TOM ZÉ
11_NOV Bárbara Eugênia canta NEY MATOGROSSO e SECOS & MOLHADOS
18_NOV Bruno Morais canta NOVOS BAIANOS
25_NOV Duani canta TIM MAIA

com
A Banda dos Contentes:
Mauricio Fleury, Pedro Falcão, Demétrius Carvalho

Quartas de novembro, 19h
Galeria Olido / Vitrine da dança
Av. São João, 473 - CEP 01035-000
fone: 3331-8399 - Centro - São Paulo - SP
Gratuito

(Pôster lindo por Jana Pinho & Henry Kage.)

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Lulina canta Tom Zé



Lá vem a onda: quarta-feira Lulina canta canções de Tom Zé de graça, na Galeria Olido, de vitrine pra São João, no pé da cidade, onde começam Augusta, Angélica e Consolação.

Show às 19h em ponto, repertório com as mais bonitas, arranjos e interpretação de coração, Lulina acompanhada da Banda dos Contentes: Mauricio Fleury, piano elétrico; Pedro Falcão, bateria; Demétrius Carvalho, contrabaixo acústico.

Primeiro show do volume 2 do projeto CONEXÕES na Olido, que tem ainda Barbara Eugenia cantando Ney&Secos (dia 11), Bruno Morais cantando Novos Baianos (dia 18) e Duani cantando Tim Maia (dia 25).

Você gosta? Então derrame toda hora.

LULINA canta TOM ZÉ
Quarta, 4 de novembro
Galeria Olido, av São João 473
GRÁTIS

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Ensaio com Gal Costa e Som Imaginário, TV Tupi, 1970

Mil novecentos e setenta, Gal Costa lançava seu terceiro disco, Legal (de "Love, Try and Die" e "Falsa Baiana") e o Som Imaginário lançava o seu incrível disco de estréia, homônimo. Ela, aliviando um pouco de segurar sozinha a onda do tropicalismo de elite, vindo do estridente álbum de 69 para o azul de 70, toda absolutamente linda e sorridente e prestes a embarcar na intensa viagem Fa-Tal. Eles, a união dos jovens e explodindo criatividade Zé Rodrix no órgão, flauta e onde fizer a diferença, Robertinho Silva na bateria, Wagner Tiso no órgão, Fredera aka Frederyko na guitarra, Tavito no violão de 12, Luiz Alves no baixo - todos com extenso currículo posterior e genialidade à flor da pele.

Daí que Fernando Faro juntou Gal e Som Imaginário na TV Tupi e gravou um Ensaio, como sempre obra-prima de sensibilidade, imagens, ângulos, enquadramentos, momentos, iluminação, preto-e-branco, sons, olhares, falas e espontaneidades.


O Som Imaginário abre o programa em quadro perfeito numa nuvem de algodão, entre estrelas abrindo o coração, com Frederyko cantando "Sábado" de guizos nos sapatos e farrapos coloridos. Zé Rodrix segue no pífano, Wagner e Tavito fazem os backings celestiais e Robertinho e Luiz Alves garantem o ritmo (os dois últimos, aliás, hoje em dia e já há anos dois terços do Trio do Donato).


No estúdio, ela fez com Lanny e Jards. Aqui, o Som Imaginário segura o pique em "Love, try and die" e põe Gal em Ebulição. Do momento em que aparecem seus dedos dos pés, você já sabe que não adianta resistir: ela vai fazer você se apaixonar. Ah, Gal.


Dona Mariah, pura ternura, dá tilt no silêncio do Faro e faz o momento ainda mais íntimo enquanto conversa com a filha. Que música gosta mais? Todas do Caetano, compositor popular favorito, mas Gal Sugere.


Robertinho sai tocando, Zé Rodrix puxa a escola de samba no apito e a banda afiada no arranjo. No ano seguinte ela vai gravar no maravilhoso compacto, mesmo de "Vapor Barato", "Sua estupidez", "Zoilógico", mas aqui ainda mais crua e sensual e significativa, "Você não entende nada" é jóia pura.


A banda vai na genialidade e Gal brilha de tanto brilho no baião levado pro mato selva e pra eletricidade, "Acauã", um-dois-três-.


Falando nisso, "Assum preto", Luiz Gonzaga, quase à capela, com o som ambiente Imaginário.


Uma faca me rasgando, um mundo se acabando. É sempre surpreendente, como a vida se partindo, se começando, se acabando. Gal Costa sempre me trata com choques elétricos. Gal Costa é muito maravilhosa, nos diz por nós, dando bobeira na área, Tom Zé. Se há alguma dúvida, "Sua Estupidez", só no violão e na sombra do chapéu.


Toquinho dá as caras pra contar e provar que Gal é cantora que sabe das coisas e manda um Synval Silva, só no violão, Gal revelando e desvelando joaogilbertianamente "Ao voltar do samba".


A partir da estranheza e beleza da composição de Jards e Duda, Gal embeleza o mundo, sente tudo e canta "The Archaic Lonely Star Blues" daquele jeito que parece ter esquecido: entrando sob nossas peles.


Sem precisar nomear o desconhecido, mostrando Gal bebendo coca-cola como pop arte, Faro faz sua declaração de admiração ao magnetismo de Gal e seu engrandecimento versus os monstros de suas inseguranças e do clima opressor que já e ainda mantinha seus amigos e parceiros a continentes de distância.


Gal vai no violão (em momento pré-Fa-Tal total) e a banda segue pianinho total, no clima pra fechar lá em casa, na afirmação da devoção à João - que aliás regravaria essa mesma "Falsa baiana" daqui três anos.


Robertinho manda o groove, o Som Imaginário segura no hard-prog-hippie-psicodélico e Zé Rodrix assume o microfone pra banda fechar o programa na pegada, "Feira Moderna".

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Jovem Urgente, 1969

Em 1969 havia na TV Cultura um programa chamado Jovem, Urgente, dirigido por Walter George Durst e apresentado pelo professor e psiquiatra Paulo Gaudêncio. Ele ficava sentado em uma cadeira giratória, com uma lousa na mão, falando e conversando com um grupo de jovens em um cenário não muito diferente de um auditório universitário. Um dia, levou ao programa um bando de jovens artistas dos mais malucões pra falar "aquilo que os jovens musicalmente estão dizendo e os adultos não ouvem": os Novos Baianos, os Mutantes e Tom Zé.



A imagem acima (ou parte dela) está no no filme Lóki. O resto, é brincar de quebra-cabeça no YouTube. Acerta o volume da TV transistorizada em branco e preto e bom programa.



Os Novos Baianos cantam "Dona Nita e Dona Helena", música feita pra mãe da gente


Os Mutantes seguem à risco o figurino de banda sixties psicodélica e mandam "Fuga N°2"


Moraes novinho paga de Lou Reed baiano e Baby canta "Curto de Véu e Grinalda" com os Novos Baianos


Tom Zé, de lenço no pescoço, protege a família brasileira cantando "No Tempo da Nossa Vovó"


Arnaldo no órgão, Rita nas maracas e os Mutantes cantando "Quem tem medo de brincar de amor?"


Tom zé canta "A Gravata", mas antes explica que um camarada (um cidadão!), pra viver mais ou menos bem numa grande cidade, precisa inicialmente de três coisas: gravatas, documentos e neuroses


Os Mutantes soltam o rock e cantam "Preciso urgentemente encontrar um amigo" (canção-presente de Erasmo, aliás)


Tom Zé começa cantando e termina "São São Paulo" em spoken word


Paulo Gaudêncio fala das mentiras do mundo moderno e explica que ninguém agüenta ser massa, imediatamente antes de Tom Zé cantar "A Gravata"

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Ah, meu deus do céu, vá ser sério assim no inferno



Domingo, sete da noite, auditório Ibirapuera, show do Tom Zé. Ele está cantando "Brigitte Bardot", música sua de 1973, do incrível álbum Todos os Olhos. A Brigitte Bardot está ficando velha. Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar? Quem conhece se diverte, quem não conhece simplesmente sente o susto planejado por Tom Zé: de repente a banda toda, que desde o começo da música se continha em sussurros, se transfere do piano ao mezzo forte, transliterando ao som a intensidade da tendência suicida da Bardot de Zé.

Quando a gente era pequeno pensava que quando crescesse ia ser namorado da Brigitte Bardot, continua a música. Mas a Brigitte Bardot está ficando velha, e de susto não morre mais: na repetição, onde antes havia o som abrupto, aqui há o fim tranqüilo. Tom Zé percebe o efeito do anticlímax: "Ah, vocês acharam que ia ser igual de novo? Aí não ia ter graça; a arte tem que surpreender."

Ironicamente, o mise en scène que gerou todo o imbroglio virtual começou com Tom Zé ironizando a onipresença de Caetano. "Você vai me entrevistar amanhã", começou ele ao microfone, ao comentar a presença de Pedro Alexandre Sanches na audiência. "Se for pra perguntar de Caetano, nem vá." Todo mundo riu e quase ficou por isso mesmo. Mas papo vai, papo vem, foi.

Caetano, todos sacam, é condescendente com todos e em especial com Tom Zé. Tom Zé, todos sacam, tem um certo orgulho ferido pelo carão de 30 anos do Caetano. Mas, convenhamos, ninguém tem culpa do ostracismo de ninguém. Cá de meu lado, acho Tom Zé um artista muito mais interessante quando totalmente independente de todo o Tropicalismo (salvo Duprat). Seus melhores discos soam tropicalistas apenas na medida em que Tom Zé é tropicalista avant la lettre: as fusões e experimentações e ironias e senso pop de manchete de jornal são naturais a ele e por ele foram emprestadas ao movimento.

Uma vez, conversando com Tom Zé justamente sobre uma "exclusão" sua do grupo tropicalista de elite, ele me dise: "minha obrigação é gostar e minha melhor estratégia é amar." Desde sempre essencialmente um inventor, Tom Zé se justifica na sua criatividade, não em qualquer carteira de associado de clube de ex-tropicalistas ou compositores malditos ou ídolos cult de descolados gringos. Daí, às vezes temo ele cair na armadilha de abusar do ostracismo, de um antagonismo com Caetano, de tanta excentricidade ou qualquer de suas criações tão interessantes como matéria-prima. Porque, afinal, a arte tem que surpreender.

Em pleno 1973, Tom Zé surpreendia quem ouvia "Complexo de Épico", música que abre e fecha Todos os Olhos. Sobre uma base gravada, recortada e colada - um loop analógico, portanto -, ele canta (bem, "canta"):

Todo compositor brasileiro é um complexado

Porque então essa mania danada
Essa preocupação de falar tão sério
De parecer tão sério
De ser tão sério
De se sorrir tão sério
De se chorar tão sério
De brincar tão sério
De amar tão sério?

Ah, meu Deus do céu
Vá ser sério assim no inferno

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