cordiais saudações
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on domingo, 5 de junho de 2011 at 5:39 PM.
§Ligue o rádio, ponha discos, veja a paisagem, sinta o drama: você pode chamar isso tudo como bem quiser. Há muitos nomes à disposição de quem queira dar nomes ao fogo, no meio do redemoinho, entre os becos da tristíssima cidade, nos sons de um apartamento apertado no meio de apartamentos.
Você pode sofrer, mas não pode deixar de prestar atenção. Enquando eu estiver atento, nada me acontecerá. Enquanto batiza a fogueira - tempo de espera? Pode ser - o mundo de sempre gira e o fogo rende. O pior é esperar apenas. O lado de fora é frio. O lado de fora é fogo, igual ao lado de dentro. Estar bem vivo no meio das coisas é passar por referência, continuar passando. Isso aí eu li uma vez no Pasquim.
§Isso aí eu li uma vez na coluna do Torquato Neto, Geléia Geral, publicada no jornal Última Hora, 1971.
§A imagem, recorte da mais famosa coluna de Torquato, para abençoar a estreia.
§O blog Vitrola foi criado em junho de 2001, com a simples premissa de observar ao redor pelas coisas mais legais e menos óbvias, compêndio de tudo de interessante, desde sempre com o olhar no especial. Dez anos depois, a nova casa das investigações artísticas, base de operações de textos e ideias, é no UOL:
http://ronaldoevangelista.blogosfera.uol.com.br/
Momento de atualizar favoritos e RSSs. Valeu pelo que foi, salve o que virá.
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Mário de Andrade, lesado
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 10 de maio de 2011 at 9:02 AM.
O meu principal defeito intelectual, falha espantosa pela sua enormidade, é a falta de memória. Não tenho absolutamente memória nenhuma, mas absolutamente nenhuma. Em grande parte isso deriva é certo da irregularidade da minha vida. Mas o defeito existiu sempre, desde a infância, onde já sofria muito porque minha memória não guardava coisa alguma, por maior que fosse a atenção e o prazer do aprendido. // Mas se isso me traz fortes prejuízos na vida prática, obrigação de preparar aulas teóricas como se aprendesse inteiramente o assuno, dificuldade enorme e lentidão consultadeira ao escrever qualquer estudo e outras fadigas assim, essa desmemoriação não deixa de ter seus benefícios para mim. Eu sinto que as noções apreendidas ficam latentes em mim, muito embora se recusem a transpor o limiar da consciência. Mas ficam. E como não aparecem sou obrigado a uma constante e intensíssima atividade de espírito, muito voluptuosa, em que vivo em eterna atitude cartesiana, como que tirando do nada, isto é, apenas da minha própria experiência, os meus raciocínios, idéias, juízos, conclusões.
*
Que tranquilidade senti com a identificação ao ler os trechos acima, de cartas de Mário de Andrade - a primeira parte a Sousa da Silveira e a segunda a Oneyda Alvarenga. Quem disse que ser desmemoriado é ruim? Mário, valeu pelo belo ponto de vista de ser legal ver tudo com frescor constante.
A imagem, daqui.
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Gentle-voiced chanteuse
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 1 de março de 2011 at 11:48 AM.
Não foi apenas o adorável Daniel - Mark Hudson, do Telegraph, também não resistiu ao prazer de Efêmera e mandou quatro estrelas na resenha publicada sexta passada no jornal inglês:
Weaving mellow afro-samba flavours through a complex architecture of influences, from the Beatles to Eighties synth-pop, this latest offering from the São Paulo avant garde is further proof that the Brazilian megalopolis is one of the world’s most dynamic musical cities right now. Gentle-voiced chanteuse Tulipa holds her own amid the wilful eclecticism with some exquisite melodies.
O disco acaba de sair na Europa, Tulipa toca em março em Londres e a foto acima eu peguei aqui.
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Yusef Lateef e o Amor Supremo de Coltrane
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sábado, 12 de fevereiro de 2011 at 10:59 AM.
Todo louvor devido a Deus e ao homem. Dois breves parágrafos sobre o Alcorão, Juanita Naima Grubbs e o grande desabrochar espiritual de John Coltrane, da autobiografia do doutor Lateef.
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Noturno em azul e ouro
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 11 de janeiro de 2011 at 1:01 PM.O primeiro disco, de 1988 (pela Warner, produzido pelo Pena), tinha um capricho tão grande que trazia longas notas sobre cada faixa (provavelmente escritas por Carlos Fernando), explicando as referências, influências, intenções, história por trás da interpretação de cada composição. Como a contemplativa "Chelsea Bridge", de Billy Strayhorn, famoso parceiro de Duke Ellington, pelo Nouvelle em versão Tonalista de alto calibre, de scat singing mais orquestra; inspiração pro original, trecho das notas e play abaixo.

Se Debussy tratava a Música como arte visual, havia um pintor, americano, que compunha imagens e concebia a Pintura como Música: James Abbott McNeill Whistler (1834 . 1903). Ambos, aliás, admiravam-se mutuamente.
Uma certa vista do Tâmisa, pintada por ele ("Noturno em azul e ouro") viria, 76 anos depois, a causar profunda impressão em Billy Strayhorn, que nela se basearia para compor "Chelsea Bridge". Houve um engano no título, apenas, quanto à ponte que figura no quadro (Old Battersea Bridge), talvez devido ao fato de Whistler ter sido tão ligado ao bairro londrino de Chelsea, onde viveu.
Procuramos também partir da pintura, para captar o "clima" fluído e misterioso do tema e dar-lhe a moldura perfeita.
Certa vez, Whistler reuniu seus amigos (e inimigos) para uma famosa palestra, em que expôs seus conceitos estéticos. Num trecho ele dizia:
"E quando a névoa noturna veste de poesia as margens do rio, como um véu, e os pobres prédios se abandonam ao céu sombrio, as altas chaminés tornam-se campanários e os depósitos são palácios na noite, e toda a cidade está suspensa no ar: uma terra encantada diante de nós; aí o transeunte se apressa de volta ao lar. O operário e o homem culto, o sábio e o ocioso cessam de compreender - como cessaram de ver - e a Natureza, que, por uma vez, cantou no tom, canta sua primorosa canção para o artista apenas, seu filho e seu mestre. Seu filho, pois a ama, seu mestre, pois a conhece."
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prisma harmônico
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on domingo, 5 de dezembro de 2010 at 11:49 AM.
No jazz o pianista quando faz o acompanhamento, nunca toca os acordes marcando os tempos: o pianista de jazz fica cercando o solista naquele prisma harmônico da música, apenas nas passagens necessárias. A música é que orienta a ele, e ele, por sua vez, ajuda harmonicamente o solista. Não há uma marcação certa, regular, mas uma espontaneidade rítmica do pianista em função da harmonia. A batida da Bossa Nova tem justamente um pouco disso porque no caso de um cantor que se apresenta só com violão, ele se utiliza do instrumento como um cerco para suz voz, como o pianista e o solista de jazz. E assim a marcação em contratempo resulta num balanço diferente. Esse balanço não havia na música tradicional que era muito mais pesada. O sincopado da Bossa Nova deu uma espécie de identidade ao movimento.
Eu pude explicar facilmente porque esse cerco era uma coisa que eu fazia: eu tinha justamente mania de harmonizar e me acompanhar não marcando. O João Gilberto ia muito à Cantina do César de Alencar e ficava horas e horas do meu lado, me vendo tocar e se entusiasmava com o meu modo de acompanhar, isso eu me lembro bem. Cantando ele já tinha uma divisão bem afastada do habitual e eu me sentia muito bem acompanhando ele, principalmente harmonicamente: o que eu fizesse, não tinha problema. Dessa intimidade, pode ter se dado alguma idéia.
Há muitas músicas inéditas minhas que ele sabe.
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Gonçalo Junior & Loris Foggiatto
5 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sábado, 4 de dezembro de 2010 at 11:06 AM.
Muitos amigos conhecem essa história que vou contar aqui. Só que vou fazê-lo com mais detalhes, por que é algo muito raro de acontecer com quem coleciona ou pesquisa sobre quadrinhos no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Sim, porque jamais me considerei colecionador. Apenas leitor e interessado em sua história editorial no Brasil.
Vamos ao fato.
Janeiro de 2010. Um dia qualquer que não me lembro com precisão. Estava eu atolado na biografia do sambista baiano Assis Valente, aquele que fez clássicos como "Cai cai balão", "Boas festas" (Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel) e "Brasil pandeiro". Tarefa oceânica. Não é fácil falar de um cara que morreu há 52 anos, pois todos os seus contemporâneos praticamente partiram desta para melhor. Restava-me vasculhar arquivos de jornais e revistas para preencher lacunas importantes desse artista que tentou se matar seis vezes, até ter sucesso na última.
Descobri, então, que a revista semanal Carioca, do grupo editorial A Noite (circulou entre 1936 e 1955), publicou muita coisa importante sobre Assis. Era semanal, o que demandaria uma pesquisa extensa e intensa na Biblioteca Nacional do Rio Janeiro. Fui ao site Mercado Livre para ver se havia algum exemplar à venda e cuja descrição citasse o compositor. Encontrei vários números, porém nenhum com o nome de Assis citado e cujos preços variavam de R$ 20 a R$ 40.
Desânimo total. Foram lançados ao menos 800 números da revista, em 19 anos. Era preciso mesmo procurar uma biblioteca. Mas eis que vi um anúncio inusitado: alguém vendia 25 números de Carioca por R$ 50 - depois saberia que se tratavam dos volumes 1 a 25, um preciosidade. Ou seja, R$ 2 cada. Apertei o clic e comprei a mercadoria, com alguma desconfiança, pois é muito comum a confusão de que se está vendendo um lote, mas o preço se refere a cada exemplar. Enfim, não me parecia possível que custassem tão pouco.
Esperei um mês e não recebi nenhum retorno do vendedor com o número da conta bancária para fazer o depósito. Já tinha até me esquecido. No desespero em busca de novas informações sobre Assis, lembrei da compra. Liguei para o vendedor e um senhor simpático me atendeu - descobri depois que tinha 75 anos. Disse se lembrar da minha compra e pediu desculpas pela falta de retorno, pois havia machucado gravemente o braço esquerdo. Prometeu me passar o número da conta por e-mail.
Perguntei se ele tinha mais Carioca. "Bastante", respondeu ele.
E outras revistas? "Sim".
Quadrinhos? "Sim".
Pode me mandar uma lista? "Sim".
A relação chegou no dia seguinte, via e-mail. Era pequena e incluia títulos como O Cruzeiro e Shimmy, lendária revista erótica da década de 1920 que nego vendia na época pelo Mercado Livre a R$ 390 cada. Essa publicação era muito importante para mim porque nela Assis publicou uma série de cartuns no ano de 1928, quando tentou a carreira de cartunista antes de virar protético e compositor.
Não resisti e liguei para o senhor imediatamente.
Seu João (nome fictício) me contou uma história que não presteio muita atenção: essas revistas estavam em bom estado e pertenceram ao sogro dele, que morreu no ano passado, aos 96 anos de idade. Ele me disse que morava numa cidadezinha da Grande São Paulo e propôs que eu fosse no sábado seguinte à casa onde estavam as tais revistas - o local permanecera fechado desde a morte do dono.
Encontrei um sobrado de cinco quartos. Ficava na Vila Mariana, em São Paulo. Cheguei por volta das 14h e ele e a esposa me esperavam. Duas pessoas muito gentis. Entrei na casa e não acreditei no que vi: dezenas de milhares de revistas ensacadas com etiquetas que as identificavam. Eram quartos e mais quartos semelhantes: estantes abrigavam aquele mundo inimaginável de revistas.
Eu me aproximei de uma das prateleiras e o que vi me provocou uma tremedeira nas pernas. Não podia acreditar que estava naquele lugar e que aquilo tudo realmente era real.
Tentei falar, o coração acelerou e comecei a gaguejar com que estava diante de mim: cerca de QUINHENTOS NÚMEROS DE O TICO-TICO, publicados entre 1908 e 1957.

Dos muitos pacotes plásticos cuidadosamente identificados com etiquetas havia centenas de números de O Tico-Tico - saberia depois que eram vários anos completos, entre 1915 e 1935, numa média de 52 números para cada ano. Meus olhos repousaram em quantidade semelhante da revista semanal de humor O Malho, marco do jornalismo e do humor gráfico, lançada em 1902 e que circulou até a década de 1950. Noutro canto, havia uma pilha de almanaques anuais de O Tico-Tico (o mais antigo, de 1909, que muita gente pensava ser lenda urbana). Noutro canto, a revista literária VAMOS LER!, do número 1 ao 800, coleção completa, sem faltar nada.
A casa era um biblioteca fantástica, que deixaria Jorge Luis Borges em êxtase. Principalmente para os fãs de quadrinhos. De 1940 a 2008, o solitário morador daquele lugar colecionou todos os suplementos de comics que saíram em jornais de São Paulo, principalmente na Folha da Noite, Folha da Manhã e Folha de S. Paulo. Estavam todos organizados em pastas e empilhados. O Suplemento de Quadrinhos, iniciado em 1940, estava completo. Muitos livros sobre fotografia, cinema e humor estavam numa prateleira - inclusive os de Belmonte, o grande chargista paulistano e amigo do dono do local por toda a vida.
Havia centenas de exemplares de O Cruzeiro, Manchete, Eu sei Tudo, Fon Fon!, A Cigarra, Jornal das Moças, Revista da Semana, Revista do Globo. Somam-se a isso: Gibi semanal (dezenas de números, inclusive o 1), Guri, Gibi Mensal, coleção completa da Edição Maravilhosa, desde a primeira série, em formato reduzido; centenas de exemplares de O Pato Donald, Mickey e os primeiros Almanaques do Tio Patinhas, antes de virar revista mensal. Bote na conta mais centenas de gibis de terror da La Selva e da Outubro, as coleções Grandes Figuras e Epopeia, da Ebal; Fantasma, Flecha Vermelha, Mandrake e muitos outros da RGE.
Foi só isso que consegui discernir nesse primeiro dia. E veio na minha mente um só pensamento: seriam necessários milhares e milhares de reais para comprar aquilo tudo. Se ele pedisse R$ 100 por cada O Malho e O Tico-Tico, daria R$ 100 mil. Se pedisse R$ 300 por cada Shimmy, o lote totalizaria mais de R$ 15 mil. Pobre de mim. E não havia porque não pensar assim. Afinal, ele conhecia o Mercado Livre, paraíso dos especuladores que hiperinflacionaram os gibis.
Até que vi uma pasta grossa, preta, com a ponta de um jornal de quadrinhos. Seria o Suplemento Juvenil ou O Globo Juvenil, lendários tablóides que trouxeram a indústria dos quadrinhos para o Brasil na década de 1930? Nada disso. Pelo menos por enquanto, nada havia dos dois títulos. Tinha ali, simplesmente, o Santo Graal dos quadrinhos no Brasil: quatro dezenas de números de revistas e suplementos de HQ que eu nunca tinha ouvido falar, que circularam entre as décadas de 1910 e 1920. Não encontrara registros daquilo em nenhuma biblioteca pública, nem na Nacional do Rio de Janeiro. E olha que isso é uma obsessão minha.
Um exemplo? A revista Carlitos. Outro? O suplemento infantil da revista Fonfon, de 1913. Ou Mundo Infantil, conhecido, publicado pela Vecchi a partir de 1929. Eu não conseguia acreditar naquilo. Mas, como era possível aquilo tudo ter sobrevivo ao tempo, às fogueiras que queimavam gibis, ao assédio dos colecionadores? Pensei rápido: custe o que custar, eu preciso comprar tudo que está nesta pasta. Assim, poderia completar a história que comecei a contar com A Guerra dos Gibis 1. Tentando não mostrar interesse, perguntei quanto custava aquele lote.
O senhor de 75 anos se limitou a dizer: "Mas, meu filho, isso aí é muito velho, está caindo aos pedaços". Não, não estava. Bom, estava mas me interessava muito. Mais do que qualquer coisa. "Mesmo assim, gostaria de levar. O senhor me vende? " E ele: "Não, não vendo. Pode levar de presente para você". Eu ainda não fazia ideia de que estava diante de uma das pessoas mais generosas que cruzei em minhas quatro décadas no planeta terra. E as Shimmy, por quanto vende cada uma? Resposta: "Ora, isso te interessa mesmo? Pode levar de presente".
E ele desviou a conversa de volta a Carioca. Queria saber se levaria mais exemplares. Disse que sim e ele falou que faria todo o lote restante por um bom preço - menos de R$ 1 cada. Aquilo não podia estar acontecendo. Encorajado, perguntei pelo preço de cada O Malho, O Tico-Tico e Edição Maravilhosa. Mesma coisa, R$ 1 real cada. E os almanaques natalinos de O Tico-Tico e Juquinha (estes, de 1916 a 1935)? R$ 1 cada. No resumo da ópera: sai de lá com doze caixas de revistas.
Atribuo tudo isso à imediata empatia que tive com aquele inesquecível casal, cuja generosidade só agora começo a dimensionar. Os dois, então, levaram-me para casa. Nos despedimos depois de descarregar tudo aquilo na portaria do meu prédio. Eu disse para a senhora: "O seu pai deve estar feliz lá em cima porque eu jamais venderei as revistas que ele passou quase um século colecionando. Eu vou escrever livros com elas e depois acabarão em algum museu". Emocionados, nos despedimos com a promessa de um novo encontro no sábado seguinte. Afinal, eu tinha estado em apenas um dos quartos da casa.

No sabado seguinte, cheguei às 9h da manhã, como tinha combinado com o simpático casal. Seu João e dona Lourdes chegaram um pouco depois, com o carro cheio de caixas de papelão vazias. Agora teríamos mais tempo para conversar e pedi detalhes sobre a venda daquele acervo que tinham herdado.
Pergunto se tinham procurado donos de sebos para comprar o material. Sim, mas somente um aparecera para avaliar. O comprador ofereceu R$ 2 mil pelo que eu descobriria depois ser algo superior a 50 mil revistas e perto de dois mil livros, mais montanhas de suplementos de jornais. O que mais causou indignação a seu João, no entanto, foi o fato do interessado querer levar também a infinidade de quadros que o sogro havia pintado - a maioria de nus femininos.
Ele praticamente enxotou o sujeito dali. No dia seguinte, essa pessoa ligou de volta, tentando fechar o negócio por um valor um pouco maior. Era tarde demais. Seu João não fazia negócio com ele por valor nenhum. Mas, e o Mercado Livre, não valia a pena tentar por ali? "Aquilo não dá, demora muito, é tudo picado e precisamos esvaziar logo a casa para vendê-la e fazer a partilha" - disse-me mais ou menos assim. E assim adentramos o sobrado.
Percebi, então, que eu tinha pulado um quarto e ido para o segundo - onde estava o lote de Carioca que comprei. Seguimos a ordem dos cômodos e vi várias caixas lacradas com a descrição do conteúdo de cada uma anotado na parte de cima. Duas me chamaram a atenção. Lia-se: "Revistas de nus". Meio sem jeito, falei que aquelas revistas me interessavam muito porque estava prestes a lançar um livro sobre o tema - Maria Erótica e o clamor do sexo, que realmente sairia cinco meses depois. A filha do morador falecido disse, em seguida, meio sem jeito, que o pai gostava muito desse tipo de revista e que havia um quarto nos fundos entulhado delas. Viva!! Comemorei em pensamento!
Posso ver? "Claro". Abri a primeira caixa e vi vários pacotes amarrados com barbantes e protegidos dos dois lados por folhas grossas de cartolina. Havia um código comum em todas: "Revistas Brejeiras". Sim, Brejeiras significava nus, sexo, mulher pelada! O que encontrei nessas duas primeiras escavações não me lembro. Sei que eram coisas maravilhosas: nada mais nada menos que um apanhado geral das revistas eróticas no Brasil desde 1902.
Tinha ali muita coisa pré-histórica, como A Maçã e Selecta. Depois, dos anos 30 e 40, Copabana, Conselhos sexuais, Ciência e sexualidade, etc. Dos anos 50, títulos com vedetes seminuas e as chamadas "revistas de salão de barbeiro" - dezenas de títulos muito populares na época, com piadas libertinas e pinups ou fotos de garotas seminuas. Como Sorriso, Seleções de Rir Ilustrada, Bom Humor. E, ainda, as publicações dos clubes de naturismo, outra mania da época.
Abertas as caixas, disse que queria comprá-las. E partimos para o fundo da casa, onde supostamente havia muita revista de mulher pelada. E era mesmo só o que tinha. Coleções completas de Ele & Ela, Fairplay, Revista do Homem (depois, Playboy), Status, Fiesta, Fiesta italaina, Playboy americana, Lui etc. Todas impecavelmente novas.
Na prateleira do meio, mais montinhos maravilhosos de revistas brejeiras. De quebra, algo que não tem preço: perto de 50 catecismos originais de Carlos Zéfiro da década de 1950, que vejo na estante aqui, enquanto escrevo. Encontrei ainda diversos volumes encadernados de Mini-Fiesta, a revista de bolso que tanto frequentei na adolescência com começo da década de 1980. Folheei ali mesmo e me lembrei daquelas garotas outrora tão amadas e desejadas por mim. Já ia me esquecendo: deparei-me com várias revistas em quadrinhos eróticas da Edrel e da Grafipar também.
Dessa vez, voltei para a casa com nove caixas. Todas, absolutamente todas, só com revistas de sexo. O resto ficaria para a semana seguinte. Bom, não era o resto, mas quase tudo ainda, pois a exploração antropológica havia apenas começado.
O telefone tocou numa noite de quinta-feira de fevereiro e era Seu João. Queria avisar que eu precisava ir à casa da Vila Mariana no fim de semana seguinte sem falta, para ver o que mais me interessa do acervo que estava vendendo. Uma pessoa de Belo Horizonte, explicou ele, viria olhar tudo na outra semana e pretendia levar o que tivesse sobrado.
Seu interesse, explicou-me, era pelas revistas de cinema e ele me pediu para que não levasse nenhuma desse gênero, pois prometera a essa pessoa reservar tudo. Sou louco por cinema, fiquei maravilhado com edições raras de Cinearte, Cinefã e muitas outras que encontrei lá. Não toquei em nada e segui minha experiência arqueológica naquele sobrado em busca de outros tesouros.
Bom, até aqui já tinha visitado três quartos da casa. Voltamos ao primeiro quarto e observei o que tinha no guarda-roupa: preciosas máquinas fotográficas e uma quantidade imensa de filmes em super 8 - que nem procurei saber do que se tratava porque seria impossível levar aquilo para casa. Esse acervo seria comprado por uma pessoa de Belo Horizonte. No chão, estavam oito projetores bem antigos de filmes em 8mm e 16 mm. E material químico de revelação. Um dos passatempos do antigo morador era a fotografia - herança do pai, famoso fotógrafo paranaense.
O próximo passo seria um longo corredor, com pilhas e pilhas de livros e revistas (muitas O Cruzeiro), caixas lacradas, pastas de arquivos em grande quantidade. Dei uma geral e peguei muitos gibis com quadrinhos eróticos e revistas de nus pintados pelo dono da casa. Talentoso, traço personalíssimo e estiloso. Isso explica a quantidade de revistas eróticas em todos os cantos. Mais catecismos de Zéfiro e encadernados de títulos de sexo das décadas de 1970 e 1980.
Passei para as pastas. Estavam organizadas com etiquetas nas laterais. Eram mais de 50 daquelas de arquivos de escritório na cor cinza. Primeiro, encontrei a coleção completa com mais de mil números do suplemento FOLHETIM, da Folha de S. Paulo. Além de dossiês maravilhosos sobre personagens e temas ligados à cultura, inclusive quadrinhos, chamavam a minha atenção nesse tablóide as capas de nossos grandes cartunistas: Petchó, Angeli, Laerte, Fortuna e Alci. Vi aquilo e pensei num livro em cores com todas aquelas imagens incríveis.
As surpresas não pararam: algumas pastas traziam o suplemento infantil da Folha de toda a década de 1960, quando Maurício de Sousa era a grande estrela da publicação - que não levei e me arrependi depois. Noutra, mais exemplares do suplemento de quadrinhos da Folha da Noite dos anos 40 - eu havia levado o primeiro lote, a partir do número 1.
Alimentei, então, a esperança de encontrar algo muito valioso: exemplares de O Globo Juvenil, Suplemento Juvenil e A Gazeta Juvenil. Algo me dizia que essas pérolas esperavam por mim ali. Cacei como um cão perdigueiro. Vasculhei tudo com calma e meu faro estava certo: havia sim muitos O Globo Juvenil - a partir do número 3. Somando tudo, peguei duas centenas dessas três publicações capitais para a história dos quadrinhos no Brasil.
Nas outras pastas, muitas fotos originais de mulheres nuas das primeiras décadas do século. Provavelmente prostitutas paranaenses ou paulistanas. Quem as tirou? Quando? Nada foi escrito para identificá-las. Num canto, pastas gigantes de material fotográfico abrigavam dezenas de folhinhas de pinups e garotas seminuas dos anos 40 a 80. Nenhuma dobrada, todas em perfeito estado de conversação, cuidadosamente organizadas.
Tudo isso rendeu nada menos que 13 caixas, que teria de amontoar num taxi (pedi a um desses serviços que atende por telefone para mandar um carro grande). Não deu e deixei parte das caixas separada e lacrada para pegar na semana seguinte. Enquanto isso, pensava cada vez mais seriamente em levar a coleção completa de Vamos Ler!, com 800 exemplares. Afinal, ali tinha muita coisa de J. Carlos, Raul Perdeneiras e Belmonte, entre outros grandes artistas do humor gráfico. Seu João disse que faria um preço camarada. Não pensei muito e pedi para separasse para mim e avisasse o comprador de Belo Horizonte que já estava vendido.
Você, que aqui me lê, por acaso acha que a minha aventura naquela casa acabou aí? Que nada. Estava apenas começando. Sempre me intrigou a informação repetida diversas vezes de que no porão da casa - com altura de pouco mais de um metro - poderia ter coisas guardadas. A intriga virou curiosidade: e se abrigasse nas suas entranhas um acervo tão fantástico quanto o que estava na parte de cima? Antes de mais nada, eu precisava de coragem para entrar naquele lugar, provavelmente habitado por ratos, baratas e escorpiões. Decidi que faria isso na semana seguinte.

O comprador de Belo Horizonte veio e levou muitas caixas de livros e revistas e outros objetos que não sei precisar. Mas não arrematou tudo. E voltaria outras vezes para novas aquisições. Mas, como disse lá atrás, a quantidade de revistas e livros naquela casa era algo muito além da imaginação de qualquer mortal. E impossível de ser realmente avaliado em pouco tempo.
Antes de dar prosseguimento à minha aventura e à minha entrada no porão daquela casa, vou aqui revelar a quem pertenceu aquilo tudo. Usarei a seguir as informações que seu genro colocou na Wikipédia - na verdade, fiz um copy do texto que ele me mandou, formatei e eu mesmo postei na enciclopédia virtual. Em seguida, acrescento algumas observações:
Aquela casa era do senhor Loris Foggiatto (1913-2009), artista plástico, fotógrafo e professor de desenho paranaense radicado em São Paulo desde a década de 1930 e conhecido pelas gravuras e quadros com nus femininos. O pai dele, Domingos Foggiatto, foi fotógrafo da imprensa oficial do Estado do Paraná e considerado muito adiantado para a época, pioneiro nas artes plásticas e na fotografia, além de proprietário de dois cinemas, teatros e circos.
Loris chegou na capital paulista em 1934, e logo foi trabalhar como gráfico do jornal Folha da Noite (atual Folha de S. Paulo), onde trabalhou até 1969, quando ele se aposentou. Ainda jovem, a veia artística herdada do pai apareceu e ele começou a fotografar o cotidiano de São Paulo - deixou em sua casa mais de 10 mil imagens entre ampliações e negativos.
Em meados da década de 1940, Loris foi aprender desenho na Associação Paulista de Belas Artes. Destacou-se como aluno dos artistas Inocêncio Borghese e Aurélia Cavalcante. Mais tarde, aperfeiçoou-se com os artistas Durval Pereira, Colette Pujol e Waldemar da Costa. Pela aptidão que tinha especialmente em desenho, logo passou de aluno para professor. Deu aulas de desenho e pintura por mais de 40 anos na APBA. Muitos pintores renomados tiveram aulas com o Professor Foggiatto.
Aliás, ele participou da diretoria da APBA por duas décadas. Deu aulas de nu artístico com modelos ao vivo, por varias décadas, quando o nu se tornou uma especialidade sua. Foi um grande apreciador da beleza feminina, produzindo uma enorme quantidade de desenhos e quadros que têm um traço especial evidenciando a sensualidade feminina, não explorando o erotismo.

Dentre os seus trabalhos premiados, podemos destacar o Salão Paulista de Belas Artes, onde teve cinco trabalhos premiados; Salão da Associação Paulista de Belas Artes (cinco prêmios) e teve mais 21 quadros premiados em diversos Salões de artes plásticas. Realizou também exposições individuais como na Galeria Itaú (1979), Hotel Hilton (1987 e 1990), Centro Cultural (1988) e Centro Cultural de Bertioga (1999 e 2000). Participou ainda de júri de 15 Salões de Belas Artes.
Seu Lóris, como era conhecido, morreu serenamente na casa da filha, numa cidade da região metropolitana de São Paulo, pouco antes do almoço familiar de um domingo, dia 22 de março de 2009. Conversou normalmente com todos e faleceu cercado pelas pessoas que mais gostava. Muitos lembravam dele como uma pessoa de temperamento forte, mas encantador como prosador. Adora cortejar as mulheres, que amava indistintamente e imortalizava em quadros. Tinha memória prodigiosa e histórias maravilhosas para contar. Cuidava de sua fantástica biblioteca com muito zelo. Reclamava se alguma faxineira tirasse qualquer coisa do lugar.
Ficara viúvo na década de 1980 e desde então vivia sozinho. Eu jamais soube da sua existência e tenho certeza de que se o tivesse conhecido, seríamos grandes amigos, a contar e a relembrar de histórias que ele viveu nos primórdios do século 20. Teríamos falado dos gibis pré-históricos, de sua amizade com o cartunista Belmonte, de sua paixão por pinups e mulher pelada, que também compactuo.
Ele, enfim, teria confiado aquilo tudo para que pudesse fazer novas pesquisas e escrever livros. Se nada acontece por acaso, talvez isso explique que o destino desse um empurrão e promovesse esse tardio encontro. Ele lá e eu cá, a zelar de suas queridas revistas para que isso se perpetue por muito tempo, pois nada, absolutamente nada, será vendido ou trocado.

Desde o primeiro dia em que estive no sobrado da Vila Mariana - ah, esqueci de dizer que fica na rua Umberto I, quase em frente ao começo da rua Pelotas -, eu ouvia a filha de seu Loris falar de um tal porão que havia ali, onde ela e, depois, seus filhos, brincaram por toda a infância. Havia da parte dela e do marido a suspeita de que no poderia ter mais revistas, uma vez que até aquele momento muitas coisas que eles lembravam não tinham sido ainda encontradas, como os 21 primeiros números de O Pato Donald.
As semanas passaram e estávamos em abril. Outros compradores apareceram por lá, mas ninguém se interessara em saber onde ia dar aquela pequena entrada de 1 metro por 60 centímetros, aproximadamente. Um dia, quando as chances de encontrar mais revistas preciosas pela casa começava a rarear, desci as escadas até o quintal, acompanhado da filha de seu Loris. Tentei olhar pelo cercado e vi apenas uma montanha de coisas velhas: frascos de remédios antigos, abajures, vasos, martelos, lâmpadas, reveladores de filmes, móveis quebrados etc.
Um metro adiante começava o breu. Consegui abrir a grade e visualizei uma pilha de revistas. Estiquei o braço e puxei com muita dificuldade. Tirei dois montinhos razoáveis. Eram os 100 primeiros números novinhos da revista Veja, sem qualquer indício de traça ou umidade.
Rapidamente comecei a tirar as tralhas e cheguei à Ilha do tesouro. Nos três metros adentro, havia montanhas de revistas. Preciosidades tão valiosas quanto as que havia tirado de lá de cima. O lugar era de difícil acesso porque tinha pouco mais de um metro de altura por um de largura - nessa parte havia um corredor, estreitado por largas prateleiras. Não pensei duas vezes e liguei para um amigo colecionador, cujo nome vou preservar aqui. Eu já havia comentado com ele sobre minhas aquisições e falei rapidamente: "Largue tudo que está fazendo, pegue um taxi e venha imediatamente para o seguinte endereço. Ah, e traga uma lanterna".
Não me perguntou nada. Imaginou do que se tratava e apenas disse: "Estou correndo praí". Em meia hora ele estava lá. Por que o chamei? Primeiro, pela amizade e pela gratidão. Depois, pelo tamanho físico. Eu tenho mais de 1,85m de altura e ele é baixinho. Tinha uma estatura possível para adentrar o porão até o fundo. E ele começou a me entregar pilhas e pilhas de revistas, depois de, pacientemente, tirar toneladas de tralhas do nosso caminho. Fizemos um pacto: cada coleção de quadrinhos dali retirada disputaríamos no par ou impar para ver quem escolheria primeiro. Ganhei a primeira e escolhi um montinho de Gibi Trissemanal, que incluia o volume 1, aquele com Charlie Chan na capa.
Foi quando tive um grande susto. Enquanto eu folheava aquelas maravilhas, o tempo passou e chamei por meu amigo. Ele não respondeu. Gritei várias vezes e nada. Entrei em pânico, imaginei que ele tinha desmaiado ou morrido devido a algum bicho que o picou ou por falta de ar. Os donos da casa vieram ver o que estava acontecendo e nos preparamos para chamar os bombeiros. Até que vi a luz da lanterna se mover lá dentro. E o sujeito apareceu em seguida, completamente imundo, para dizer que havia muitos outros quartos no porão com muitas revistas. Tinha também perto de 30 montes de jornais, sobre os quais falarei no próximo post.
A cada nova descoberta de gibis raros, ele gritava de lá, como se fosse uma senha. E começaram a sair montanhas de Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas, Mônica e Cebolinha (Abril) desde o número 1, Pernalonga, Almanaque Disney, Diversões Juvenis. Enfim, boa parte do que a Abril publicou de 1950 a 1979.
Por cinco finais de semanas seguidos, tiramos coisas do porão. Isto é, revistas. Alguns exemplos: o resto da coleção de Carioca, Fon Fon!, Careta, Jornal das Moças, A Cigarra, Panorama e outras que eu tinha comprado e cujas numerações estavam incompletas. Tiramos de lá mais uma série do 1 ao 100 de Manchete, centenas de O Cruzeiro, inclusive os primeiros números, outra coleção de Quatro Rodas.
Num outro dia, colhemos centenas de exemplares da famigerada Seleções do Digest, bíblia do anticomunismo cristão ocidental. Num dos quartos dos fundos, esse amigo achou os 90 primeiros números do Pato Donald e os 50 primeiros de Mickey, mais Seleções Coloridas do 1 ao 17, considerada a primeira publicação da Ebal, de Adolfo Aizen. Não seria justo com ele, que tanto se sujou e ralou naquele lugar, dividir essas preciosidades no par ou impar e o deixei ficar com tudo.
Afinal, eu tinha encontrado maravilhas no porão, que também passei a explorar. Como um jornal de quadrinhos francês, que circulou a partir de 1902 - e cujo título vou ficar devendo porque seus volumes estão perdidos entre as caixas que ainda permanecem lacradas. E o alemão Allers Familj-Journal, cujos exemplares datam a partir de 1908. Todos em ótimo estado de conservação e que deixariam extasiados colecionadores e pesquisadores franceses e alemães. Outra descoberta: o Jornal do Lar, em formato standart (grande), dirigido a mulheres e publicado em 1932, mas que, na verdade, é um elo perdido da chegada dos comics no Brasil. Era impresso em cores.
Uma publicação que encontrei em grande quantidade em todos os cantos da casa, principalmente no porão e que eu tinha me esquecido de citar (como dezenas de outras), foi o semanário humorístico paulistano O Governador, que teve mais de mil números. A publicação circulou entre as décadas de 1930 e 1940.
Continuei a levar caixas e caixas para casa por meses. Mas havia no porão algo de muito valioso que, à primeira vista, não interessou a ninguém. Por causa disso, eu passaria meus próximos finais de semanas ao longo de quatro meses enfiado no porão daquela casa mágica.

De janeiro a agosto de 2010, poucos foram os finais de semana em que não passei pelo menos o sábado na casa de seu Loris Foggiatto, na Vila Mariana, São Paulo. Eu brincava com o amigo com quem dividia as buscas no porão que aquele sobrado era mesmo sobrenatural, como desconfiava uma parente do antigo dono. Afinal, saíamos para ir embora e, na volta seguinte, aparecia uma coleção de gibis ou uma edição rara num lugar onde nós havíamos vasculhado minunciosamente.
Perguntava a seu João se alguém havia estado ali durante a semana e ele garantia que não. Não tinha motivos para não acreditar nele, claro. Lembro do número 1 da revista MAD, da Vecchi, de 1975, que apareceu do nada onde sempre passávamos. Ou das novas pilhas de almanaque de farmácia que surgiam de vez em quando. Mas aconteciam surpresinhas normais como me deparar com algum exemplar do Globo Juvenil ou do Suplemento Juvenil no meio de cadernos de turismo, por exemplo.
Desde o primeiro dia, a filha de seu Loris falava que o pai havia sido muito amigo do cartunista paulistano Benedito Carneiro Bastos Barreto, o Belmonte (1896-1947), um dos mais importantes artistas gráficos do país na primeira metade do século 20, criador do personagem Juca Pato.
Se Belmonte morreu em 1947 e Loris trabalhou na gráfica da Folha nos 13 anos anteriores, devem mesmo ter convivido todo esse tempo nos corredores jornal. É preciso lembrar que Loris era um excelente desenhista e promissor pintor. Os dois, portanto, tinham interesses em comum. (Ironicamente, Belmonte morreria numa clínica que ficava exatamente na rua onde seu Loris passou toda a vida, a Umberto I). Sua filha afirmava com convicção que havia na casa todos os livros de Belmonte, mais uma pasta com coisas pessoais do artista - não faço ideia do que se trata porque a mesma foi adquirida pelo comprador de Belo Horizonte.
Só para situar, Belmonte reinou absoluto em seu tempo na imprensa paulistana, enquanto no Rio brilhavam nomes como J. Carlos e Raul Pederneiras - de quem ele era muito amigo. Publicou mais de uma dezena de livros - boa parte com seus cartuns relacionados à Segunda Guerra Mundial. Escreveu também volumes de crônicas e contos humorísticos (como o clássico "Idéias de João Ninguém", de 1935) e estudos históricos principalmente sobre São Paulo ("No tempo dos bandeirantes"; "Brasil de outrora" e "Costumes da América Latina"). Também ilustrou as obras infantis de Monteiro Lobato - foi o primeiro de muitos artistas a dar forma aos personagens do Sitio do Pica-pau Amarelo.
O artista passaria boa parte da vida no grupo Folhas - hoje responsável pelos jornais Folha de S. Paulo e Agora. Foi ali que, em 1929, Belmonte transformou em sucesso seu mais famoso personagem, Juca Pato, nas páginas da Folha da Noite. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele ganhou fama mundial ao usar o humor para combater os países do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e por tirar sarro das incoerências das três maiores potências do mundo - as capitalistas Estados Unidos, Inglaterra e a comunista União Soviética.
Nas minhas buscas pela casa de seu Loris, nada encontrei dele. Até que seu genro, gentilmente, lembrou-se que havia levado para casa um exdemplar de "A Guerra de Juca", com a reunião de caricaturas publicadas até 1940. Deu-me de presente, claro. Talvez tenha olhado no Mercado Livre o valor médio do mesmo, R$ 400, mas nada cobrou, em mais um de muitos gestos de gentileza desse ser humano único.
Minhas esperanças quanto a Belmonte renasceram no porão da casa. Seu Loris havia trabalhado na Folha de 1934 a 1969 e, de acordo com a sua filha, todas aquelas montanhas de jornais que ele ali havia depositado cobriam exatamente esse período. "Papai sempre chegava com uma pilha de jornais nas mãos e, como tinha mania de guardar tudo, colocava no porão depois que a gente lia". Sim, eu percebi que eram exemplares dos três jornais que o grupo Folhas publicou no período: Folha da Noite, Folha da Tarde e Folha da Manhã. O primeiro, mais popular. O segundo, elitista, existia para concorrer com O Estado de S. Paulo e A Gazeta.
Pedi ao genro de seu Loris para me deixar retirar daqueles jornais - boa parte devorada por cupins e traças - as páginas que tinham caricaturas e ilustrações de Belmonte. O ex-gráfico da Folha me deu uma ajuda sem querer. Ele havia separado perto de dez pilhas somente com os cadernos de domingo da Folha da Malhã, o "Suplemento", que tinha jeito de revista e que sempre trazia na capa exclusivamente um desenho de página inteira - tamanho standart, o maior de todos - feito por Belmonte. Um mais belo que outro, meticulosamente construídos a bico de pena.
Não mais que três tinham sido comprometidos pelas traças. No total, tirei de lá perto de 150 capas cinematográficas, o mais fantástico tesouro da história desse incansável cartunista. Só isso daria um livrão de capa dura de babar. Um detalhe: no meio há edições especiais com todas as páginas ilustradas por ele, o que totalizariam um volume de 500 páginas, no mínimo.
Eu olhei tanto aqueles jornais por tantos dias que me familiarizei com o esquema que deixava Belmonte como a estrela dos dois principais jornais do grupo. De segunda a sábado, ele publicava um cartum por dia na Folha da Noite. Na capa ou na página 4. Durante a guerra, por causa da repercussão de seus desenhos contra Hitler, ele ocupou metade de toda a capa em centenas de edições. No domingo, a Folha da Manhã reproduzia todos os cartuns da semana que saíram na Folha da Noite e usava seu traço na capa do Suplemento.
Dos cartuns diários, juntei perto de dois mil, creio. Desses, perto de 400 tinham Hitler como personagem - quase sempre a figura central. Eu, aliás, já escaneei todos e estou à procura de um editor para publicar um belo volume, sob o título CONCERTO EM DÓ MAIOR. Até descobri que uma querida amiga tem o telefone da filha dele, para que possa lhe pedir para autorizar a publicação. Outros temas recorrentes nesses cartuns eram a política nacional e os problemas urbanos de São Paulo.
Não sei o que fazer com o inacreditável acervo de Belmonte que reuni. Meus planos seriam, além do livro com Hitler como tema, um álbum de luxo com as capas do Suplemento da Folha da Manhã. Talvez arrisque uma biografia, mas só depois que Andrea Nogueira publicar a dela - aliás, ofereci-me para ajudá-la a encontrar um editor, o que faço no momento. Andrea é a maior autoridade em Belmonte no Brasil.

Tudo que relatei aqui sobre os mais de dez mil revistas e livros - além de incontáveis pastas de arquivos de folhinhas antigas (com pinups), recortes de jornais e revistas etc - que adquiri do genro e da filha de seu Loris Foggiatto me deixa meio frustrado porque, ao reler os posts anteriores, continuo com a sensação de que não consegui dimensionar essa experiência única que, creio, jamais se repetirá comigo e dificilmente com qualquer outro mortal.
Eu recordei tudo diretamente no espaço de redação do blog a partir de minhas memórias e, por falta de tempo, não consegui olhar o acervo ou abrir as muitas caixas e pacotes que ainda estão lacrados. Eu citei muito pouco do que levei para casa. As revistas em quadrinhos e de humor raras, as coleções completas de títulos de outras áreas, os cartões postais, as fotos (centenas ou milhares) originais de prostitutas nuas, as milhares de revistas eróticas que traçam um apanhado fantástico desse segmento - que seu Loris chamava de revistas brejeiras -, cada um renderia ao menos um post inteiro aqui.
E por que dar publicidade a isso na Internet? Exibicionismo meu? Quem me conhece sabe que não. O meu maior sonho é que tudo isso vá parar num museu ou arquivo público, numa instituição seriamente constituída, aberta ao público, onde pesquisadores possam estudar esse inacreditável material, com o devido cuidado e segurança que algo assim demanda. Seria um espaço com funcionários bem orientados que atenderiam esses visitantes.
Tudo isso ficaria à disposição para consulta por pouco tempo, por causa de sua fragilidade causada com o desgaste do tempo, pois meu projeto prevê que tudo seja digitalizado e acessado de qualquer lugar do planeta pela Internet, guardados os devidos cuidados sobre direitos autorais, se for o caso.
O maior obstáculo que imagino seria um órgão público topar manter no acervo as publicações de sexo, uma vez que o preconceito sobre o tema ainda é imenso, num grau de estupidez bem acima do que se imagina. Quando escrevi o livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo, fiquei impressionado sobre o quanto é possível contar por meio dessas revistas e livros a história da sexualidade brasileira, dos costumes, dos hábitos e das tradições, da emancipação das mulheres, da repressão nos nossos regimes autoritários, da censura, do desejo de liberdade, da luta contra o machismo, da repressão ao sexo feminino em todos os tempos e épocas.
Assumo aqui a palavra de absolutamente nada cobrar sobre tudo isso que consegui juntar se aparecer alguma instituição com esses requisitos. Sim, desde que tenha a segurança de que tudo isso será realmente preservado ao longo de décadas e não simplesmente abortado por algum governante idiota, desses que destroem o que o anterior fez.
Que se mantenha esse material para que futuras gerações possam conhecer e estudar esse tempo - o século 20, principalmente - em que todas as emoções, sensações, desejos e fantasias de gerações de brasileiros passavam por uma folha impressa. Por muitas delas. Um tempo em que o olhar fascinado pela imagem, desenho ou foto, combinava com o toque tátil sobre o papel e o cheirinho de tinta da revista que acabou de sair da gráfica.
Sinto a presença de seu Loris no acervo que pretensamente assumi a missão de preservar. Vejo-me na obrigação de guardar um tesouro que ele por tanto tempo se empenhou em zelar - talvez para algum propósito que jamais saberei ou pelo simples prazer de colecionar. Seu Loris, na verdade, não era um colecionador, não saía por aí atrás de títulos para completar suas coleções. Ele apenas guardava as revistas que comprava e lia, com o cuidado de preservá-las das ações do tempo, dos insetos e roedores.
Na solidão da velhice, ao contempar tudo aquilo, é possível que ele se sentisse na companhia de velhos fantasmas de sua infância e juventude. Ou que passasse o tempo a folhear aquelas revistas como uma espécie de máquina do tempo dos melhores momentos de sua vida. De certo modo, ele estava preso àquele tempos idos, vividos, mas não esquecidos, como também fazemos ao recorrer a velhos discos ou aos gibis de diferentes períodos de nossas vidas.
Ao especular sobre a ligação de seu Loris com aquele tão fascinante mundo que criou ao seu redor, fico a imaginar que tipo de contato tomamos com objetos assim que, acredito, vão muito além do mero preservar para decorar uma casa ou por puro exibicionismo intelectual. Toda vez que leio um livro, por exemplo, passo a estabelecer com aquele exemplar e seu autor uma cumplicidade até mesmo familiar, diria assim, uma proximidade que jamais se concretizará, claro.
Daí sempre acharmos que somos íntimos de nossos autores preferidos quand os encontramos. Toda vez que leio um livro, bom ou ruim, nunca deixo de terminá-lo. E procuro guardá-lo na estante como algo com o qual criei uma relação que não acabará jamais porque alguns fragmentos ou a soma de muitos permanecerão em minha memória para sempre.
Assim sou eu e os livros, as revistas, os recortes, os arquivos, as pastas e as memórias dos outros, que capto por meio de um gravador ou pela ponta da caneta sobre o papel. Sou tentado a imaginar que o talentoso Loris - jamais reconhecido à altura que merecia como artista plástico - tinha um casamento eterno parecido dentro daquela caixa de lembranças e saudades onde viveu a maior parte dos 96 anos de existência. Não o admiro só por isso.
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BLACK RIO, 1976
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 1 de dezembro de 2010 at 11:46 AM.


Três amigos, três discos de soul: está formado o núcleo do Black Power. Um veículo para a comunicação entre negros, não um movimento de negros. Logo acima a clássica matéria de Lena Frias no Jornal do Brasil (RIP), em 17 de julho de 1976, que oficializou e colocou na pauta o movimento Black Rio. No mesmo ano saíam o primeiro disco da equipe de som Soul Grand Prix e o álbum Maravilhas Contemporâneas de Luiz Melodia. No ano seguinte, os primeiros álbuns da Banda Black Rio e Gerson King Combo. O resto é história. Só não achei a última página da matéria, alguém tem aí?
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Betina, Arranjo e Regência: Tom Zé, 1973
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on terça-feira, 23 de novembro de 2010 at 5:53 PM.

Um ano depois deu seu primeiro disco pela Continental (e terceiro de carreira), no mesmo ano em que gravaria o arrojado Todos Os Olhos, 1973, Tom Zé fez um frila para a Chantecler: arranjou e regeu duas músicas suas para a voz de Betina - possivelmente o único lançamento de uma cantora hoje completamente desconhecida. No lado A, pequena obra-prima com brilhante e esquecido arranjo de sopros no contraponto, a então inédita "Que bate calado" (regravada por Tom Zé três anos depois como "Dói", no Estudando o Samba). No lado B, versão mais lenta e levada pro romântico de sua recente "O anfitrião" (do álbum de 72, mesmo de "Se o caso é chorar" e "Edifício Itália"), com o autor puxando o coro no refrão.
Betina com vocal claro e natural, melancólico e forte, de especial expressão e especialmente mágica para interpretar a riqueza de sentidos das canções de Tom Zé, comprovando cedo que os experimentalismos do ex-tropicalista fazem camada para canções que soam bem com mais de uma leitura - de amor mas esperta, de tristeza mas humorada. (E vale notar recentemente o mesmo efeito em discos de Monica Salmaso, Adriana Maciel, Marcia Castro, Bárbara Eugênia.) Tom Zé ali ele próprio no olho do furacão de seu auge criativo, colocando todas as forças a favor de um novo artista se lançando com suas músicas, compondo, cantando junto, arranjando, liderando a banda. Banda, aliás, toda particularmente inspirada - o baterista é algo a se ouvir. Pouco mais de sete minutos de música perfeita, Compacto Simples Chantecler C 33.6445, 1973, filho único querido escavado (terá sido Eric ou Henrique?), invendável e inemprestável, até onde sei nunca relançado em nenhum formato. Nem Tom Zé tinha, me pediu e copiei. Aproveitei para registrar o que ele se lembrava sobre a gravação, Betina, a idiossincrasia da situação:
Alguém me pediu que fizesse arranjo pro disco de inauguração de Betina. Não sei se ela chegou a gravar um LP, eu escrevi só duas músicas pra um compacto simples. Ela era uma pessoa séria, uma artista que já nasce madura. Cantava na noite, uma moça muito importante, tenho pena de não ter conhecido ela direito. Me lembro que eu estava de férias em São Sebastião, escrevi o arranjo lá, marquei com os músicos e vim tocar. Quando eu acabei de gravar, o próprio produtor me falou que tinha defeitos. Claro que a linguagem dele era outra mesmo, mas eu fiquei com pena dela. Betina, me perdoe por você ter chamado um artista tão sofisticado. Se ouvir a gravação, eu acho bom. Mas botar ela pra concorrer no mundo da música popular com aquilo, não era perfeito. Rogério Duprat, quando fez seus primeiros arranjos, já tinha a força de tudo pronta. Eu estava ainda armando, começando a montar minha linguagem, com aqueles blocos de metais. Mas era muito incipiente ainda, não era acompanhado por uma percussão forte, pra poder dar uma coisa pra manter o artista cantando. Aquilo ia ser minha linguagem já formada em 1976, quando escrevi a música novamente.
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Futurível
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on domingo, 14 de novembro de 2010 at 10:50 AM.
Gil, intuitivamente (porque nunca ouviu nada do Macaco Bong antes), declarou depois do ensaio que o resultado sonoro era algo nem exatamente Gilberto Gil nem exatamente Macaco Bong. Acertou na mosca. A soma das partes está dando numa terceira coisa. “Cérebro Eletrônico” e “Essa É Pra Tocar No Rádio”, se não é sacrilégio dizer isso, estão saindo redescobertas e revalorizadas. E “Palco” ainda deve ganhar um saxofone (do saxofonista Marcelo Monteiro da banda deo DJ Tudo).
Alex Antunes comenta um momento do encontro de Gilberto Gil com Macaco Bong, mais aqui. No palco, o resultado desse ensaio hoje, Auditório Ibirapuera, sete da noite.
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solid jazz with a bossa nova ring
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quinta-feira, 28 de outubro de 2010 at 7:31 PM.
Revista Billboard, 11 de maio de 1963.
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jazz moderno tocado sobre o ritmo de bossa nova
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sexta-feira, 8 de outubro de 2010 at 12:20 PM.
Andam fazendo por aí uma confusão danada sobre bossa nova e jazz samba. A coisa é muito simples: bossa nova é samba moderno, no qual letra, melodia, harmonia e ritmo formam um todo indissolúvel, enquanto que jazz samba é jazz moderno tocado sobre o ritmo de bossa nova. Harmônica e melodicamente, é tão jazz quanto a música de Horace Silver e Art Blakey. A única diferença é a batida. Neste LP, o tenorista Meirelles e seu conjunto Copa Cinco se exercitam nitidamente no gênero jazz samba. Excluindo-se as inevitáveis especulações sobre a autenticidade do novo gênero, devemos dizer que o jazz samba tem nesse LP talvez o seu disco mais representativo até aqui.
Como arranjador, Meirelles nos pareceu basicamente influenciado por Benny Golson. Seu esquema para os seis números do LP é semelhante ao que BG usava para os Jazz Messengers de Art Blakey, quando dirigiu musicalmente o conjunto, nos últimos anos da década de 50: tema exposto por piston e tenor, em uníssono, solos de tenor, piston, piano, baixo e bateria, e retomada do tema em uníssono, no final. Como tenorista, diríamos que Meirelles é um getziano que começa a se empolgar por Sonny Rollins. Ele ainda exibe muita coisa de Getz, no que se refere à concepção, mas sua sonoridade está bem próxima da de Rollins, especialmente no que concerne a liberdade sonora com que vem experimentando o criador de “The Bridge”.
Depois de Meirelles, o solista mais importante é o pistonista Pedro Paulo, que toca aqui com surpreendente bom-gosto e equilíbrio. Seu estilo e sonoridade lembram um pouco a Freddie Hubbard, embora sua técnica ainda esteja bastante longe da do novo pistonista dos Jazz Messengers. Luís Carlos Vinhas - que mostrou ser um autêntico pianista de jazz samba em seu LP gravado para a Audio Fidelity – apresenta-se aqui mais contido, mais preso à partitura. Seus vôos são bem mais baixos que no LP referido, onde sua liberdade era total. Gostamos bastante de seus solos, aqui muito mais líricos, mais serenos que no disco do Bossa Três. O baixista Manoel Gusmão evidenciou ser uma peça preciosa no esquema harmônico e rítmico estabelecido por Meirelles, e o baterista Do Um ratifica de maneira estupenda sua condição de ‘top drummer’ do jazz samba. Dispondo da liberdade que Bill Grauer resolveu não lhe dar no LP de Cannonball com o Sexteto Bossa Rio – no qual acompanha o tempo todo na caixa, sem usar os pratos uma única vez – Do Um utiliza ampla e incessantemente todos os elementos de bateria, presenteando-nos com um trabalho de distribuição realmente espetacular.
Parabéns ao jovem tenorista Meirelles. Seu LP é sem dúvida o mais representativo e mais autêntico gravado até aqui, em matéria de jazz samba. Aconselhamos remeter uma cópia urgentemente para os comentaristas de “Down Beat”.
Nota – Acreditamos que depois deste LP – que contém faixas improvisadas de 7 e 8 minutos de duração – estejam finalmente abertas na Philips as portas para o lançamento regular de LPs de jazz.
*
Sylvio Tullio Cardoso resenha O Som e dá as boas vindas ao samba-jazz, O Globo, 1965.
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pianoless
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sexta-feira, 24 de setembro de 2010 at 1:43 PM.
Falando no Chico Hamilton, Buddy Collette, anos 50, Pacific Jazz, nessa mesma entrevista Buddy prova que o improviso na vida faz parte da história do jazz e conta do primeiro ensaio, em seu apartamento, do impressionante quarteto sem piano de Gerry Mulligan, Bob Whitlock, Chico Hamilton e Chet Baker, da esquerda pra direita acima, em prosa abaixo.
*
You knew Chico Hamilton and Gerry Mulligan in 1952.
The first time that quartet rehearsed was at my apartment. Gerry was there at my place because he knew that Chico and I were friends. My apartment was at 1406 St. Andrews Place (Apt. 1). Everyone was at my place, listening to music or at parties. At first, what Gerry and Chet were doing didn’t sound too good.
Why not?
They didn’t have the right concept. Chetty was playing melody and Gerry was trying to harmonize on the baritone. But they were miles apart. Gerry was trying to do it like he would normally play.
Which was how?
Using the baritone like a bass. He was just playing harmony in same rhythm as the melody. Then he began trying counterpoint. He was moving around differently than just following the melody.
Did Mulligan know the group’s sound was all wrong at first?
Yes, they all knew it. Gerry didn’t want a piano in there. He was filling in for the piano on the baritone with notes a pianist might play if he had that instrument in the group. They finally got it and hit their sound by accident.
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Violoncelo, flauta, baixo, bateria percussiva, guitarra cristalina, pegada modernista: era o Chico Hamilton Quintet, Carson Daily, Jim Hall, Fred Katz, Buddy Collette. Nessa entrevista de uns meses atrás, do blog JazzWax, Buddy, descanse em paz, conta como surgiu o incrível combo de jazz-de-câmara, trecho abaixo.
*
You were in the original Chico Hamilton Quintet. How long had you known Chico?
I had known Chico since I was 10 years old. He lived in the area where my grandmother lived. Also Jackie Kelso. I met them at the Ross Snyder Playground in Southeast Los Angeles. I also had recorded with Chico in other groups before he put together the quintet.
How was that quintet formed?
Chico and Fred Katz were out on the road backing Lena Horne. Katz was playing piano then, with Chico on drums. Chico always wanted to start a band, especially after working with Gerry Mulligan and Chet Baker. He was a natural leader. We always talked about it when he was home in L.A. Then one day Chico and Fred quit Lena. Fred liked to play solo cello more than piano or anything. I knew about that but had never played with him.
How did you come to be in Chico’s group?
One day Chico called and said, “Bee"—that's what he called me, Bee or Mr. Bee—"we have a job at the Strollers in a week.” The Strollers was down in Long Beach, CA. I said, “I’m working with Scatman Cruthers but Scatman said he’d let me come down after a week.”
What happened next?
Chico started at the Strollers in the summer of 1955 but he didn’t have the sound that he had in mind for the group. He had hired Bob Hardaway, a tenor sax player. That group played the Strollers for a week. Then Hardaway had to leave. When I arrived, I brought in four or five tunes, like Blue Sands, that were different. Chico liked the sound, but we weren't completely there yet. Something was missing.
What instrument were you playing?
The sax, but I could tell the group needed a different sound. Chico was stirring it up. He loved to improvise—and still does. Man, Chico can do it even when he can’t. At that point, I was a good flute player and had playing it since 1940. I brought the flute in because I saw the cello and guitar and Chico improvising on the drums. I was thinking of this as a jazz-classical group. The flute would enhance that feel.
What did you think of the group’s sound?
I had to respect the cello. We had a chamber thing going. But Chico at first didn’t figure the cello to play with the band.
What do you mean?
Chico figured on having Fred continue to play piano with the group and cello during intermissions. But I didn’t know this when I came in, and I started using the flute more because I saw the cello there and knew we needed a lighter sound from me. The cello is an instrument that loves to play alone. Loves to get out in front and play any wonderful solo—picking and bowing.
So Katz played cello in between sets?
Yes, he’d play piano with the group and cello on the breaks. But Fred had a tendency to stay on stage too long on the breaks. Once he got going with the bow, there was no stopping him. One night he stayed too long, for 45 minutes or so, lost in thought while playing.
What did Chico think of Katz’s extended solo that night?
Chico didn’t like that. After 45 minutes, Fred was still out front playing away on his cello with his eyes half open in the groove. I said to Chico, “Let’s sneak on and start"—me, Chico, bassist Carson Smith and guitarist Jim Hall.”
Did you?
We got past Fred easily enough. He was still on the step to the bandstand lost in his own world. The piano where Fred was supposed to be was in the back but my horn was up front. I’m the lead player so I needed to be where people could see me.
Did Katz ever come up for air?
Everyone got in their place on stage. Then Chico started playing, and Fred finally snapped out of it. But Fred couldn't get to the piano fast enough. We were all there and were starting to play. So Fred started bowing something and I played something on the flute. We didn’t have a pianist but we did have a guitar player in Jim Hall that no one can beat. When Fred played the piano, we couldn’t really hear him anyway. As we played, Jim left space for the cello. That’s why the group’s sound was no one’s idea. It just happened by accident, as a prank that turned into a sound we all dug immediately.
Tell the truth, did you block Fred from getting to the piano?
No way. Honest. He couldn’t get back to the piano once we started, so it worked out. The chamber-jazz thing gave us freedom to explore new ways of presenting the music. Jim had a different taste than other guitarists. It was more conversational than just keeping time. It was an equal voice in the group's sound, in terms of playing and listening and responding. The group was meant to sound like all of us were having an important musical conversation.
*
Fotos de Gordon Parks do quinteto com estudantes de escultura para a Life.
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Gilbertália
2 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 20 de setembro de 2010 at 11:25 AM.
Maior legal esse Expresso 2222, coletânea de textos centrada no Gil (já na capa de tranças e atrás de um piano elétrico desfocado), mais ou menos no molde em que o poeta Waly Salomão organizou, pela editora Pedra Q Ronca, a Caetanave Alegria, Alegria. // Abaixo, só um trecho de entrevista a Vicente Tardin, Alfredo Herkenhoff e Paulo Macedo, em 1978, com Gil comentando Cassiano ("entre João Donato e João Gilberto"), explicando a cena Black Rio e a estética negro é lindo, contando que descobriu Bob Marley pela Melody Maker e considerando os sincronismos espaço-culturais, coincidências de necessidade histórica.
Voltando à música, muita gente tem falado - Caetano e Gal Costa, inclusive - de uma certa renovação na música brasileira por parte de Cassiano, que seria um compositor black, na falta de outra definição.
Eu falo também. Adoro. Assim como João Gilberto, Cassiano é um artista importante pela sua reclusão, pela sua especificidade e especialidade. É um cara difícil, isso tudo nele é um pouco misterioso e aureolado por uma coisa de grandeza. Sabe que sonha com algo impossível, mas não abre mão desse sonho, de um cantar magnífico.
Ele lembra um pouco o Stevie Wonder.
É claro. Cassiano quer introduzir na alma brasileira o cantar de um pássaro de lá, desse pássaro soul. Tanto que o disco dele chama-se Cuban Soul. Cassiano está João Donato e João Gilberto. É aquele encontro entre o samba de João e a rumba de João Donato, ele quer ser o encontro. Isso sou eu quem digo. Cassiano não deve nem cogitar dessas coisas. Talvez não saiba o que o Donato faz, o João Gilberto com certeza ele sabe. Ele quer trazer esse universo de Caribe e Harlem para a escola de samba, para o Brasil, para o Rio de Janeiro.
É meio impossível, não?
É o sonho. Tanto não é impossível que ele faz as músicas, canta desse jeito e acaba sendo isso, criando uma geração de discípulos como Dafé, Lady Zu, Melodia, tanta gente...
O Luís Melodia também?
É sim, embora também possa nem estar ligado. Tim Maia, Melodia, todo mundo nasce desse inconsciente coletivo do qual Cassiano representa a consciência. São esse tais sincronismos espaço-culturais, históricos. De repente tem sincronia. Eu me lembro de quando o Caetano na época deixou os cabelos crescerem, e passou a assumir todas aquelas atitudes ditas rebeldes, tudo parecia muito com Dylan, Beatles e tudo mais. No entanto, a informação que Caetano tinha desses fenômenos lá fora era muito pouca, era tudo coincidência de necessidade histórica, manifestação, avatarização, você esta entendendo? Coisas assim como por que uma pirâmide no Egito e outra no México? Por que cacau? Essas migrações difíceis da história. A germinação que é feita pelo fluxo das águas e dos raios solares. Por que tem cacau na África? Por que tem essas coisas lá e cá? As tais migrações culturais do planeta. Hoje em dia então, facilitados por todo o jogo de correntes do visual, do auditivo e do psiquismo, né? Mas na época tudo aquilo em Caetano aparecia como reflexo desse sincronismo, contemporaneamente às coisas de lá, com a mesma necessidade da época.
Eu lembro quando trancei o cabelo, há dois anos, eu tinha visto a capa de um disco do Stevie Wonder, onde ele tinha os cabelos trançados de uma maneira muito parecida com o jeito nagô de trançar o cabelo, aquelas coisas da África. Mas eu fiz minhas tranças mais soltas. E eu não sabia de nada. Quando estava em Curitiba, já na excursão dos Doces Bárbaros, uma semana antes de ser preso em Florianópolis, o Chiquinho comprou aquele jornal inglês Melody Maker, que tinha uma reportagem com o Bob Marley. Foi aí que eu fiquei sabendo: eu não conhecia o Bob Marley até então e nem sabia que eles usavam o cabelo daquela forma, os rastas. Então, fiquei pensando: veja que coisa estranha, de repente me dá na cabeça de trançar os cabelos aqui, não sei bem porque, por causa da oportunidade oferecida pelos Doces Bárbaros, um espaço aberto à liberdade de experimentar um tipo ou outro de roupa, coisas deste tipo. E eles lá, começando a fazer sucesso e por acaso usando o cabelo de forma parecida, ou com a mesma intenção lúdica de partir para outro enfoque, buscar uma outra estética pro chamado negro é lindo, por aí. Então essas sincronias no mundo contemporâneo se tornam cada vez mais interessantes porque se dão quase ao mesmo instante em todo lugar. Ao mesmo tempo o inconsciente ainda tem sua atuação. Não é tudo dado pela informação fria e gerada.
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"Eu nunca sei o que vou fazer até o momento em que começo a tocar - se eu soubesse, meu espírito não iria até lá comigo."
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on sexta-feira, 20 de agosto de 2010 at 7:10 PM.
Pharoah Sanders chega com seu sax tenor poderoso para dois shows esse finde no Sesc Pinheiros, com Rob Mazurek, Mauricio Takara, Chad Taylor, Guilherme Granado, Matt Lux. Punk rock para jazzheads.
(O título do post Pharoah me disse, por telefone.)
Marcadores: abre aspas, Mais que mil palavras, Pharoah Sanders, Vamo?
Ruy Castro entrevista Erasmo Carlos, Playboy, 1980
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 4 de agosto de 2010 at 10:15 AM.
Quando Erasmo Carlos anunciou, no princípio do ano, que pretendia gravar um disco cantando os seus sucessos em parceria com doze dos maiores nomes da música popular brasileira, poucos acreditaram que esse projeto pudesse ser realizado. Não que estrelas como Roberto Carlos, Gal Costa, Jorge Ben, Maria Bethânia, Rita Lee, Nara Leão, Tim Maia, Wanderléa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, As Frenéticas e A Cor do Som não quisessem gravar com Erasmo - eles só queriam. Mas como conciliar as datas de gravação com os inúmeros compromissos de todos esses artistas, muitos deles contratados por companhias diferentes e rivais entre si ?
Parecia impossível - mas não foi. Os artistas que Erasmo queria em seu disco cancelaram compromissos, adiaram partidas, anteciparam chegadas, e as diversas gravadoras esqueceram momentaneamente a sua concorrência por uma fatia do mercado e permitiram que seus contratados participassem daquela que prometia ser uma experiência única na música brasileira.
Enquanto isto, a Polygram, gravadora de Erasmo, armou um esquema: manteve seus estúdios abertos 24 horas por dia, durante seis meses, com prioridade para Erasmo a qualquer momento em que ele comparecesse com um de seus convidados. Músicos, maestros e arranjadores foram deixados de plantão, e os engenheiros de som foram instruídos a interromper o que estivessem gravando para que os microfones pudessem ser ocupados por Erasmo e seus amigos. Isso nunca havia acontecido antes.
O resultado de todos esses meses de gravações nas horas mais inesperadas, Erasmo Carlos Convida, chegou em julho às prateleiras das lojas - e decolou rapidamente para as paradas das emissoras de rádio, cujos programadores, pela primeira vez, não precisaram selecionar esta ou aquela entre as doze faixas de um disco. Todas eram ótimos, desde a comovente interpretação de Erasmo em Detalhes, com Gal, até o rock-brabeira de Minha Fama de Mau, com Rita Lee. e o que pode ser a interpretação definitiva de Quero Que Vá Tudo pró Inferno, com Caetano.
Não era apenas uma homenagem de colegas e gravadoras a um dos compositores atualmente mais respeitados da praça. Era também a vitória de um princípio pelo qual Erasmo Carlos vinha se batendo há vinte anos: a integração de todos os ritmos, a superação dos preconceitos, o sepultamento dos purismos musicais, o fim da guerra fria entre os diversos conceitos sobre o que devia ser a autêntica MPB. A partir de agora se sabe: a MPB pode ser tudo que está contido em Erasmo Carlos Convida - e pode ser ainda o que Erasmo nos reserva para o futuro.
Nada mau para um artista que, em sua carreira, conheceu o anonimato, o estrondoso sucesso da Jovem Guarda, voltou subitamente ao anonimato e, mais uma vez, conseguiu voltar à tona, só que, agora, nas águas de um enorme prestígio até mesmo entre críticos que nunca o tinham poupado. Ironicamente, foi também a volta por cima de um artista que, antes de gravar o seu primeiro disco, em 1961, tinha sido recusado por nada menos que sete gravadoras...
Aos 39 anos, grisalho e com uma calvície mal disfarçada pelo emaranhado de cachos, nem assim Erasmo Carlos vê motivo para ufanismos. Limita-se a dizer: "Fico feliz com isso, bicho". Sua simplicidade e modéstia parecem surpreendentes num artista que, durante a maior parte de sua carreira, carregou a imagem de machão, mulherengo, cheio de carros, violento, envolvido em brigas históricas - a imagem do "Tremendão". Hoje, pelo menos, Erasmo é o oposto de tudo isso.
Nem poderia ser diferente. Os dias da Jovem Guarda, que Erasmo ajudou a criar com Roberto Carlos, já ficaram para trás, e ele soube amadurecer como homem e como artista. Sua própria produção musical mais recente, que inclui coisas belíssimas como Traumas, Detalhes, Sentado à Beira do Caminho , Cavalgada, Além do Horizonte, Amigo, etc., não pode ser comparada à dos primeiros anos de sucesso, em meados da década de 60, Quando ele incendiava auditórios com Festa de Arromba, O Pica-Pau. Gatinha Manhosa, Terror dos Namorados, e era apresentado por Roberto Carlos com um refrão que despertava frissons: "Com , com vocês... O meu amiiiiigo Erasmo Carlos!" Sua música hoje não é dirigida apenas à juventude, mas a todas as faixas - inclusive à juventude.
A juventude brasileira também amadureceu com Erasmo. Ele foi dos primeiros rebeldes brasileiros que, nos anos 50, constituíram turmas para desafiar, meio às cegas, o que pensavam ser o establishment - o mundo 'dos "velhos", da caretice de terno e gravata, do cabelo cortado, da música açucarada. Os companheiros de turma de Erasmo na Tijuca , aonde ele nasceu em 1941 e viveu até a adolescência, eram Roberto Carlos, Jorge Ben, Tim Maia, Wilson Simonal e outros cuja oração matinal era o uobop-bop-a-lum-uobop-bem-bum que Elvis tinha gritado lá de Memphis, nos Estados Unidos. Com aquele eco nos ouvidos, eles tinham finalmente encontrado a sua identidade e dispunham-se agora a converter o resto do mundo. Não precisaram se esforçar muito, porque o grito de Elvis já havia sensibilizado milhões de jovens como eles e criado um mercado até então inexistente na indústria do disco: a música da juventude, feita especialmente para ela. Pela primeira vez, não precisavam mais tomar emprestado a música dos "velhos".
Quando os Beatles explodiram, em 1963, Erasmo e seus amigos já estavam na praça, batalhando de todas as formas. Suas guitarras elétricas tinham de ser improvisadas; cabeludos como eles, a "juventude transviada", eram mal vistos pela moral predominante e, quando sua dupla com Roberto Carlos lançou nacionalmente a Jovem Guarda, em 1965, eles se defrontaram com a mais dura das aposições: a da TFM - "a Tradicional Família Musical", como a definiu o crítico e poeta Augusto de Campos, composta pelo pessoal da bossa nova, do samba de morro e das "raízes" nordestinas. Mas nem mesmo essa frente ampla conseguiu impedir que a Jovem Guarda conquistasse a juventude e se impusesse em termos de mercado.
O fim da Jovem Guarda, por volta de 1970, nunca chegou a ser uma derrota. Ela apenas tinha chegado ao fim da sua proposta, como todos os movimentos que se pretendem renovadores. Mas o que viria a seguir seria ainda mais poderoso: o som da extinta Jovem Guarita passaria a influenciar todo o resto da Música popular brasileira, ao passo que Erasmo e Roberto Carlos absorveriam as influências dos outros e fariam de tudo uma coisa só. E a melhor prova disso está em Erasmo Carlos Convida .
Foi com tranqülidade dos que tem a consciência do caminho percorrido que Erasmo falou durante um dia inteiro ao editor Ruy Castro , de Playboy , em sua casa na Barra da Tijuca , no Rio . É uma casa grande , de aposentos amplos , confortáveis e bem decorados , mas certamente não é o que poderia se chamar de casa de artista . É apenas o lar do cidadão ERASMO ESTEVES , de sua mulher Narinha ( com quem é casado a nove anos ) , de seus filhos Gil e Carlos , e de Leonardo , de 17 anos , filho de Narinha e agora também de Erasmo.
"A certa altura da entrevista", conta Ruy, "Erasmo pediu um tempo: tinha de buscar os dois filhos menores numa escola ali perto. Fui com ele e, enquanto esperávamos que as crianças saíssem, era divertido observar aquele sujeito de quase dois metros, tão à vontade e tranqüilo no meio dos outros pais, como se nunca tivesse conhecido todo o sucesso que um artista pode experimentar, inclusive dinheiro e mulheres. E, hoje, como no tempo da Jovem Guarda, tendo tudo o que quer."
Você está atravessando a melhor fase da sua carreira, não? Depois de anos como um dos ídolos da Jovem Guarda e arrasado pela crítica, você amadureceu, deu a volta por cima e é hoje um dos compositores mais respeitados da música popular brasileira. O que é mais importante: o fantástico sucesso de público, que você já experimentou, ou o enorme prestigio junto aos colegas e à crítica, que você está experimentando agora?
Olha, bicho, eu já tive a minha fase de ídolo, de ser rasgado pelas fãs, de não poder sair à rua. Foi muito bom enquanto durou e eu adorei cada minuto daquilo. Mas, aos 30 anos, comecei a mudar os meus valores e vi que não era isso que fazia o artista ficar. Além disso, tive uma série de exemplos de cantores e compositores meteóricos, que surgiram com um alarido danado, apoiados por uma imensa máquina publicitária, e depois sumiram.
Quem, por exemplo?
Bem, o falecido Paulo Sérgio foi um que, quando surgiu, parecia uma coisa tremenda, ídolo das meninas e tudo o mais. De repente, passou. O que acontece é que a minha música sempre foi fiel a mim mesmo. Então, se aos 23 anos eu fazia músicas que falavam em broto, em carrão, nessas coisas, é porque a minha realidade era aquela, do broto, do carrão. Hoje, a sinceridade continua, mas os valores mudaram. No lugar do broto tem uma mulher; no do carrão , uma cama . A minha mú'sica cresceu junto comigo.
No tempo da Jovem Guarda, você costumava ser classificado como o pior cantor do Brasil. No fundo você não concordava com isso?
Havia outros bem piores [risos]. Além disso, eu sempre tive confiança em mim. Principalmente porque não me propunha - como nunca me propus - a ser cantor. Sou apenas um intérprete. É que, naquele tempo, ainda havia a obrigação de os caras terem um vozeirão. Foi o João Gilberto, com aquela voz pequena mas supercolocada, superafinada, que quebrou essa tradição. Ele foi definitivo na minha maneira de interpretar.
Por que a implicância dos críticos a seu respeito?
Não sei, só sei que eles passaram anos me dando três meses de vida... Como você vê, todos que escreveram isso dançaram...
Por que eles não gostavam de você e do resto da Jovem Guarda?
Talvez porque a Jovem Guarda fosse um movimento de ginasianos, sem formação universitária, política, etc. Eu, por exemplo, terminei o ginásio e entrei para o primeiro ano de contabilidade, mas fiz quatro meses só. Nessa altura desisti, para transar música. As primeiras pessoas sérias que nos consideraram foram os baianos, principalmente o Caetano Veloso e o Gilberto Gil. Eles nos impuseram ao resto, dizendo para todo mundo: "Não, vocês estão por fora. Vocês têm que ouvir direito as letras do Roberto e do Erasmo Carlos. Elas são maravilhosas". Então os outros começaram a dizer: "É mesmo. Realmente tem alguma coisa ali". A partir daí. 1968. a coisa foi crescendo, foi mudando toda a opinião a nosso respeito, outros cantores começaram a gravar as nossas músicas e só então nós começamos a ter prestígio, além daquele puta sucesso.
Então foram os baianos que deram legitimidade à Jovem Guarda?
Foram. Eles nos abriram muitas portas. O curioso é que as portas da Jovem Guarda sempre estiveram abertas para todos. Nós gostávamos de samba, de tango, de rock - o importante é que fosse bom, não importava o ritmo. Ninguém era reacionário na Jovem Guarda. Reacionários eram os outros. Em 1966, nós levamos o Jorge Ben, que era do Fino da Bossa, ao nosso programa Jovem Guarda. Só por causa disso ele não pôde mais cantar no Fino da Bossa. Então ficou conosco no Jovem Guarda.
Havia realmente uma rivalidade com o pessoal do Fino da Bossa?
De nossa parte, nenhuma. Mas o Fino da Bossa era uma constelação de narcisistas, cada qual querendo ser mais estrelo do que o outro. Para você ter uma idéia de como a barra era pesada para nós naquele tempo, aqui no Rio algumas pessoas faziam reuniões em apartamentos, a portas fechadas, para discutir os caminhos da música popular. E quais eram esses caminhos? Era bolar um jeito de silenciar nossas guitarras, nossas músicas, nossas propostas. E a gente sem saber de nada, apenas transando a nossa vida, compondo adoidado, encarando shows em cinemas do interior ou em ginásios com três mil pessoas. Eles chegaram ao ponto de fazer passeatas, em São Paulo , contra a guitarra elétrica. Imagine o risco: eu indo à cidade fazer compras e me envolvendo sem querer numa passeata dessas. Se me vissem, eram capazes de cair em cima de mim. me crucificar, e olha eu morrendo sem saber por quê...
Você deve ter passado por situações parecidas, embora mais agradáveis. Como era a sua transa com o assédio das fãs, no tempo da Jovem Guarda?
Era uma loucura, bicho! Um dos motivos da minha calvície, inclusive, foram os vários chumaços de cabelo que as meninas arrancaram. Porque elas pegam firme mesmo, pegam pra valer, pra arrancar pedaço. Quando isso acontecia eu largava a mão nelas, para me livrar. Porque dói, sabe? É claro que elas só são perigosas em grupo. Até três juntas, dá pra encarar, elas só querem beijar, abraçar, é gostoso. Mas, no que passou de dez, ficam selvagens, te pisoteiam, podem até te matar. Mas tudo bem, foi a minha fase de Cinderelo...
Já aconteceu de você voltar para o hotel, depois de um show em qualquer cidade, e encontrar uma fã nua no quarto?
Não, comigo não [risos]. Mas não digo que não possa acontecer, entende? Porque elas usam de todos os artifícios para desfrutar aquele momento com o artista. Só que isso é um perigo. Vamos que o artista encare, feche a porta e mande ver. Uma mulher dessas pode aprontar uma terrível pró cara.
O que você faria numa situação dessas?
Eu mandaria ela se vestir, poria pra fora do quarto, mandaria que ela batesse à porta, deixaria entrar e só depois tirar a roupa...
Nos últimos dez anos você foi substituindo a sua antiga imagem de machão pela do homem sensível e romântico. Como foi isso?
Foi acontecendo, né? Eu acho que todos os brasileiros são machões, porque são criados numa sociedade machista. O cara é criado pelo pai para comer todas as meninas. Ao mesmo tempo, em casa, ele vê a própria mãe subjugada pelo pai. Um dia ele cresce, começa a observar as coisas, muda os seus valores, mas. por mais que se esforce, sempre continua um pouquinho machista . No meu caso, eu percebi que não havia igualdade de condições nas relações entre homens e mulheres e achei um despropósito , mas foi uma transformação lenta ate chegar ao que sou hoje . Hoje por exemplo , sou um cara que divide as tarefas de casa com a mulher – e não tenho nada contra , entende ? Na cama eu fico por baixo as vezes . Não tem essas coisas...
Você é quem lava as fraldas?
Lavo os pratos , troco fralda de criança, faço qualquer negócio [rindo]. Sou confidente da minha mulher. Sou feminino pra ela quando acho que ela sente necessidade de ser masculina pra mim. Mesmo assim, tem vezes que eu me confronto com o meu próprio machismo e digo pra mim: "Qual é, bicho? Toma jeito na vida, pô!" Então, eu luto comigo mesmo pra vencer certos preconceitos. Posso não me livrar de todos, mas de pelo menos oitenta por cento estou salvo.
Apesar disso, quando se pensa no protótipo do machão brasileiro, três nomes surgem imediatamente à cabeça: Jece Valadão, Carlos Imperial e Erasmo Carlos. Por que você continua a ser confundido?
Eu sempre fui muito enganador, sabe? Por trás dessa minha aparência de muro , de pistoleiro cruel, de Hulk, sempre se escondeu um cara doce, amável, carinhoso. Mas a verdade é que na época da Jovem Guarda, eu fui muito mulherengo , só queria saber da quantidade e não sosseguei enquanto não tive uma agenda cheia de meninas em Belo Horizonte , outra em Brasília, outra em Salvador e por aí afora. Aos poucos, fui vendo que não era nada disso e que a qualidade é que importava. É por isso que, hoje, eu não quero ser comparado ao Imperial, porque ele é um cara que ainda planta essa imagem de machão - o que eu não sou mais.
Nas suas primeiras músicas, como Minha Fama de Mau, você tratava as mulheres com prepotência. Isso acontecia também na vida real?
Acontecia, mas não exatamente da forma como eu mostrava nas músicas. Eu sempre consegui tudo das mulheres, mas na base do jeitinho, nunca da prepotência. Eu tive, sei lá, mais de mil mulheres na minha vida. Fazer bacanal, ficar com três mulheres ao mesmo tempo, essas coisas todas eu já fiz. Talvez por isso eu seja hoje um cara tão pacato, tão legal em casa - porque já vivi muito e não sinto falta dessas coisas. Por isso sou capaz de fazer até uma música comno Macho, cantada pelas Frenéticas, e que é contrária a Fama de Mau.
Fale um pouco sobre a sua carreira de conquistador?
Bem , eu comecei atacando as empregadinhas na Tijuca . Era aquele negócio: às 2 da manhã passava uma delas, eu chegava, dizia boa-noite, escolhia uma árvore no escurinho e tinha de ser ali mesmo [risos]. Depois teve a fase das escadas dos edifícios, mas que era meio perigosa porque, no melhor da festa, BLEIN!, abria-se uma porta no segundo andar e a gente tinha que se ajeitar depressa. Foi então que a televisão começou a levar aquela novela, O Direito de Nascer, e eu sabia que naquele horário era barra-limpa. porque as pessoas não se levantavam da poltrona nem para mijar. Escada de edifício era ótimo também porque, como eu sempre fui muito alto, a menina podia ficar um ou dois degraus acima e dava uma prensa legal...
Quando foi que você notou que as coisas estavam mudando e as garotas estavam ficando mais permissivas?
Olha, bicho, aqui no Rio todas as minhas namoradinhas eram moças da minha idade - 18, 19 anos - que topavam sacanagem, aquela coisa toda. mas que raramente chegavam às vias de fato. Quando me mudei para São Paulo, com 20 anos em 1961, é que comecei a ter mulheres que antes eu só via nas fotografias. Eram mulheres de 25 anos para cima, algumas casadas, mas todas maravilhosas e a fim. E eu, que jamais esperei na vida disputar grandes mulheres, fiquei deslumbrado.
A que você atribui isso? Ao fato de ser diferente em São Paulo ou de estar havendo uma mudança nos costumes?
Não sei... Só sei que foi em São Paulo que eu comecei a frequentai os lugares, a transar com as pessoas... Então, poxa!... Além disso, sempre fui muito amigo de bichas, entende? Eu amo eles, porque eles sempre me apresentaram, me encheram de mulheres e aquilo foi virando uma bola de neve. Quem nunca comeu melado, né? Eu amo ter passado por essa fase.
É possível mesmo que. tendo levado essa vida. o sujeito fique em casa, doméstico e casadinho numa boa. como você?
É sim. Eu vivi bastante, minha mulher viveu bastante, então a gente se ama, se curte, se respeita, não se castra, entende? Nós tentamos ser abertos para as coisas, mas procuramos manter algumas coisas da nossa criação, das quais não conseguimos e não queremos nos libertar.
Por exemplo?
Bem, swinging, por exemplo, é uma coisa que a gente nunca vai fazer, porque não é do nosso feitio. Inclusive, temos opinião formada sobre isso e achamos que, cedo ou tarde, todo swinger acaba se apaixonando pelo outro. Não temos nada contra quem faz, mas não sentimos nenhuma necessidade de fazer.
O que você acha da infidelidade feminina?
Olha, bicho, o dia em que minha mulher sentir necessidade de transar, eu não posso fazer nada, porque eu não mando nela. O dia em que eu sentir necessidade de transar, eu vou transar e depois assumo as conseqüências. Quem faz isto ou aquilo é porque realmente deve estar precisando muito. E isso é sinal de que alguma coisa não está correndo bem na relação dele.
Você acha possível que o homem brasileiro se liberte de todas as suas camadas de machismo a ponto de achar natural a infidelidade da mulher?
Acho difícil. Na minha época, por exemplo, nunca ouvi falar que existissem bordéis ou casas de massagens para mulheres. Porra! Por que não tem? Devia ter! Mas o sistema dá a impressão de que a mulher não sente necessidade dessas coisas, entende? E eu acho que sente. Pelo menos, ela deveria ter essa opção - se precisasse. Poxa, aqui não tem nem revistas de nus masculinos, como nos Estados Unidos e em outros países. As pessoas que decidem essas coisas no Brasil têm a mania de achar que somos todos uns ignorantes. Eu sentia uma grande humilhação quando não podia assistir a filmes como Laranja Mecânica, Ultimo Tango, Emmanuelle, aqueles que a censura proibia. Eu dizia: "Poxa, por que não posso? Será porque sou burro, sou subdesenvolvido, sou tudo que eles querem que eu seja?" Eu me sentia afrontado, desrespeitado e sofria com isso.
Bem, o fato é que hoje existem revistas masculinas, topless, institutos de massagens, pornochanchadas, permissividade, etc. De certa forma, habitamos um universo muito mais erótico do que em 1960, quando você tinha 19 anos. Em qual época se pensava mais em sexo?
Seguramente naquela época, bicho. Hoje todo mundo tem acesso a quase tudo, mas, naquele tempo, era tudo escondido. A mulher se escondia muito. Não tinha, por exemplo, esse negócio de mulher andar sem sutiã. E não era só o sutiã; era uma porção de roupa, que dava o maior trabalho pra tirar. Então, aquilo já servia como um aquecimento erótico, porque a roupa era uma etapa que o cara tinha de vencer. Muito melhor do que hoje. em que a menina já está sem sutiã e é só levantar a blusa, entende? As mulheres perderam também aqueles milhões de preconceitos e, com isso, ficou tudo muito fácil, sem nenhuma novidade.
Ao mesmo tempo, foi isso que permitiu a você adquirir essa fama de grande comedor.
Não sei se eu era um grande comedor. Se era grande quem podia dizer são as mulheres.
Pelo menos em quantidade, não há dúvida.
Em quantidade sim.
O fato é que ao contrário do Roberto Carlos, que sempre escondeu o jogo, você nunca negou a sua fama. Isso pode atrapalhar ou ajudar a imagem do artista?
Aí eu não sei, bicho. Eu respeito muito a proposta das pessoas, não tenho nada com isso. Agora, a minha proposta é não esconder as coisas, porque não vejo nada demais em passar as minhas vivências para outras pessoas, inclusive numa entrevista. Acho que pode até ajudar, como eu já fui ajudado muitas vezes. Há pessoas que simplesmente vivem e outras que também observam. Eu me ponho entre aquelas que observam a vida. A minha consciência é mutante.
Então vejamos. Você foi talvez o primeiro cantor brasileiro, em todos os tempos, a fazer sucesso com uma imagem de machão, de grande comedor. Numa entrevista antiga, você declarou: "Meu negócio é mulher, adoro mulher'. Não se vêem muitos colegas seus admitindo isso por aí.
É. realmente a gente não vê, não. Talvez seja uma filosofia do cara, a de achar que a sua vida íntima não tem nada a ver com a sua vida profissional. Respeito isso. acho legal, mas não tenho motivo para esconder nada. Por exemplo, a minha gravadora na época, a RGE, não queria que eu casasse. Achava que iria atrapalhar a minha imagem de comedor, essa coisa toda, e queria que eu me limitasse às putas, porque puta você paga e vai embora. Mas, no que eu dei uma virada na minha cabeça, eu casei mesmo e mudei de gravadora.
O seu casamento contribuiu também para que você trocasse a imagem do machão pela do romântico?
Não sei, talvez eu sempre tenha sido um cara que, mesmo inconscientemente, desejava o casamento, filhos, tranqüilidade, sabe? A roda-viva é que não deixava que eu me desse pras pessoas. Não concordo quando dizem que o casamento é uma instituição falida. O meu não é. Agora, tem pessoas que não fazem a mínima força para ser felizes. Elas devem pensar que a felicidade cai cair do céu. porra! E preciso perfácil para mim viver inventando coisas para fugir da rotina.
O que você faz, por exemplo?
Quer saber mesmo? Bem, eu fiz um motel no meu quarto. Um quarto perfeito de motel, com espelho pra todo lado. banheiro, geladeirinha e vídeo-cassete onde eu passo filme erótico. Agora, não é porque eu tenho um motel em casa que eu vou ficar a vida inteira sem sair do quarto, entende?
O que mais você faz?
A gente viaja. Há uns tempos aí, fomos a Pousadas do Rio Quente, em Goiás, onde tem um lago, com cachoeirinha. mas tudo de água quente. São umas águas vulcânicas, sei lá. Então nós passamos uns três dias lá, naquela farra, e. de repente, estou eu fazendo amor com a minha mulher dentro da água quente, numa boa, quando somos flagrados pelo vigia! Deu um escândalo, saiu até no jornal. Mas são coisas bonitas de fazer, bicho - fazer amor com a sua mulher num lago de água quente é uma delícia! Fazer amor na lama ou então na praia, à milanesa, e depois saírem correndo, os dois pelados, e se jogarem na água. Tudo isso são coisas diferentes, que a gente vive procurando. Eu não vivo sem mulher, sabe? Então tenho que conservar a minha.
Voltando ao seu tempo de solteiro, você não levou um susto na primeira vez em que uma mulher tomou a iniciativa de te levar para a cama?
Não, bicho. Tem mulheres ousadas, né? Mas eu sempre achei isso normal, sempre gostei que a mulher fizesse as coisas. Por que o homem é obrigado a fazer tudo? Às vezes o cara é tímido ou tem medo de não ser aceito. Então, se a mulher toma a iniciativa, acaba aquele desentendimento.
Você não parece tímido.
Mas sou. Sempre fui muito tímido. Agora, tem muitas mulheres que gostam desse tipo e, aí, a timidez passa a ser o charme do cara.
Sendo tão tímido como diz, você não se sentia meio violentado sendo obrigado a representar o papel do machão agressivo, do "Tremendão"?
Não, eu gostava, bicho. Eu sabia que não era propriamente assim, aquilo era só uma imagem física. Eu sou um cara grande, com traços até brutos, e não me importava que usassem essa imagem para outros fins.
Mas, se as mulheres se interessavam por você a partir da sua imagem, não ficavam surpresas quando descobriam que não era nada disso.
Olha, bicho, a única vez em que eu fiquei realmente sem saber o que fazer foi com uma mulher que eu conheci assim que cheguei a SP . Mal a gente entrou no quarto e tirou a roupa , ela me tacou uma tremenda bolacha , sem mais nem menos . Eu fiquei assustado com aquilo , porque não tinha feito nada . Ai tentei argumentar , perguntar o que estava havendo e, no meio disso, levei outra bolacha. Antes que eu abrisse a boca. ela pulou em mim, me arranhando, dando soco e pontapé. Então o sangue me subiu à cabeça e eu comecei a dar bolacha, soco e pontapé nela também. Aí é que ela gostou. Ela me provocou para ter o que gostava, entende? Eu nunca tinha visto aquilo, mas não demorei a me comportar como era preciso. É claro que o caso com ela não durou, porque eu não gosto desse tipo de mulher, de sadismo. masoquismo.
Foi a sua única experiência sadomasoquista?
De que eu participasse, sim. Mas, quando vou aos Estados Unidos, à Europa, eu vejo tudo isso em filme. Eles usam chicotes, correntes, essas coisas todas. Mas eu não curto mesmo. O que eu curto é ato sexual ao vivo, como eu vi na Holanda em 1974, ou aqueles objetos eróticos que a gente vê nas revistas americanas.
Você costuma ler as revistas masculinas?
Eu leio, bicho, para saber o que está acontecendo no terreno do sexo, do comportamento. Isso faz parte da minha formação, tanto quanto ler no jornal a respeito do Carter, do aiatolá, da fome, da miséria, do furacão. A cultura da vida é tudo.
Você nunca teve problema com uma mulher?
Já. é claro. Eu já brochei, não uma, mas algumas vezes. A primeira vez foi com uma ninfomaníaca com quem eu dei seis numa noite - porque esse foi o meu recorde, nunca mais dei seis numa noite. Mas. nas noites seguintes, ela foi querendo sempre mais e eu dando cada vez menos. Até chegar a urna noite em que eu dei a primeira, não consegui dar a segunda e ela me deixou. Teve uma outra mulher também com quem eu não consegui dar nem a primeira. Eu tentava, tentava, tentava, ela me ajudava - e nada. Aí eu inventei uma desculpa, fui para a cozinha e comecei a brigar com o meu pau: "Como é que você me faz uma coisa dessas, rapaz? Você não pode me deixar nessa situação agora!" E tome peteleco e sopapo nele - e nada. O pau só faltou dizer: "Não adianta, bicho. Eu sou eu" Foi o 13 de maio dele.
Você sempre se preocupou muito com a performance na cama?
Já me preocupei, mas hoje eu tenho a consciência de que a performance não é a quantidade. O importante é dar uma bem dada, de modo que também dê muito prazer à mulher. Passou a fazer pane da minha realização a realização da mulher . Antigamente , para mim , tanto fazia a mulher gozar como não gozar , eu não queria nem saber , estava pouco ligando .
Você acha que o prazer do homem é mais mecânico, e o da mulher depende muito da competência do homem?
É. Tem mulheres difíceis, nê? Tem mulheres que não demonstram se gostam mais de uma coisa do que de outra. Era um pouco difícil para o iniciante que eu era saber o que dava prazer a elas. Além disso, não era importante para mim. O importante era o meu egoísmo, entende? Então eu chegava e tinha de abater logo aquela mulher, porque dali a três horas ia me encontrar com outra. O tempo é que foi me ensinando a dar valor à mulher sexualmente. Hoje eu acredito que o homem só atinge a sua maturidade sexual aos 40 anos. E a mulher aos 30.
Você era daqueles que viravam para o canto depois do orgasmo?
Era. Só com o tempo eu vim sacando a importância do depois. No princípio, me dava uma sensação de satisfação tão grande que eu não queria saber de nada. nem de carinho. Hoje eu sei que é naquele momento em que se está plenamente satisfeito que se deve manter mais ainda o carinho com a pessoa.
Entre as mil mulheres que você transou, você se lembra de muitas que não tinham grande conhecimento do próprio corpo?
Teve muitas, sim. Porque há mulheres que precisam de muita coisa para chegar à excitação. Só que elas não contribuem a mínima para isso, ficam esperando que o homem resolva e faça tudo que sabe. E, se não sabe, tinha mais é de saber, pô! Mas. felizmente, tem mulheres que conhecem os seus pontos erógenos e. antes que você descubra, elas já encurtam o caminho, pegam a sua mão e mandam você fazer o que elas gostam. Há mulheres que sentem prazer no corpo todo - e há outras com quem você esbanja toda a sua sabedoria e elas continuam olhando pró teto. Não tenho nada contra nenhuma forma de sexo - anal, oral, normal, e outros ais
Que outros? Você esgotou todos...
Sei lá. De repente mulher inventa aí'sexo orelhal , narizal , umbigal ... O que eu acho é que , entre quatro paredes , olha ai , quatro paredes é uma maneira de falar , porque sexo vc pode ser feito em qualquer lugar . Mas enfim , havendo respeito e entendimento , ninguém forçando ninguém a fazer o que não quer. tudo é permitido e deve ser feito para tornar essa coisa mais maravilhosa ainda.
Você foi muito atacado por homossexuais?
Muito. Quando eu era rapaz, né? Teve um que me viu na rua e queria me levar para jogar basquete no Botafogo, do qual ele era diretor. Me deu um cartão com endereço, telefone e mandou que eu o procurasse. Eu não queria ir. mas a turma com quem eu andava na Tijuca me obrigou a ir e foi junto comigo. Nós éramos uns quinze. A gente chegou lá, bandalhou a casa do cara e, quando a coisa começou a ficar preta, eu me mandei. Quem quis ficar, ficou, transando com ele. Mas eu nunca tive nada, a não ser um aperto de mão e abraços... O outro foi o diretor de uma gravadora que me estranhou, deu em cima de mim e, quando viu que eu não era disso, chegou a me pedir desculpas. Depois disso, o nosso relacionamento foi puramente profissional.
Você foi um dos primeiros no Brasil a usar cabelo grande, bota, anéis, blusões de couro, camisa vermelha, não?
Camisa vermelha era coisa de bicha na minha época. Eu saía à rua e alguém gritava: "Bicha!" Pô, quantas vezes eu briguei!
Quantas?
Eu tenho horas de briga, bicho! Assim como um piloto tem que ter horas de vôo para ganhar brevê, eu sou milionário de briga. Algumas foram muito feias, essas em que você enfrenta trinta, leva cadeirada, correntada, fica todo roxo, com costelas quebradas. Como essas brigas eram sempre de madrugada, eu tinha de acordar o dono da farmácia do bairro pra comprar arnica.
Você batia mais do que apanhava ou vice-versa?
Eu sempre dei sorte, bicho. Nunca fui de apanhar muito. Chute no saco, por exemplo, graças a Deus nunca levei. Talvez a minha altura e disposição amedrontassem um pouco o adversário.
Por que a maioria dessas brigas?
Toda briga é por causa de mulher, não? Principalmente as do tempo da Jovem Guarda. A gente chegava pra tocar no interior, fazia o show, notava as menininhas na platéia todas ligadas na nossa, e os namorados delas também notavam. Então eles se reuniam em patota, esperavam a gente sair e daí a pouco já começava a maior porrada. Houve uma briga séria em Sorocaba, em que um cara me seguiu na estrada e deu seis tiros no meu carro. Felizmente não pegou nenhum em mim.
Era constante esse tipo de agressão?
Era constante bicho. A gente chegava na cidade com aqueles cabelos diferentes , as roupas cheias de nove horas , guitarras incríveis , cantando rock – as menininhas começavam a suspirar e os caras ficavam putos da vida. Na saída, tinha aquela de os caras fecharem os nossos carros e começarem a dizer gracinhas. Quando isso acontecia, não dava outra: a gente saía dos carros e jantava os caras. Teve um deles que eu deixei nu em plena rua da Consolação, em São Paulo , na saída de um programa Jovem Guarda. Tirei o sujeito do carro, peguei-o pelo cós e abri a calça dele até embaixo. Teve outra ocasião em que eu saltei do carro e fui de revólver atrás dos caras.
Você andava armado naquela época?
Tinha de andar, bicho. Era o único jeito de enfrentar as barras daquele tempo. Não tinha esse luxo de empresário, de pagamento em cheque. Acabado o show numa cidade daquelas, o dono do cinema pegava a bilheteria, metia aquelas notas de l, 2 e 5 cruzeiros num pacote e dava pra gente. Para enfrentar uma estrada com aquele dinheiro precisava de arma, não?
O sucesso aconteceu rapidamente para você?
Não, bicho, eu galguei todos os degraus que um artista completo deve galgar. Eu não vim da elite, vim do proletariado urbano, nasci na Zona Norte do Rio. Há muitos que têm pai rico, fazem música por hobby e, quando a coisa dá certo, deixam de ser arquitetos para se dedicar à música. Eu, não. Eu cantei em circo, cantei em propaganda de candidato a vereador na Baixada Fluminense, cantei em caminhão, já fui em avião de carga para cantar no Piauí. Já cantei em cinema sem microfone - um cara Ficava do meu lado segurando o megafone. Onde pintava uma grana eu ia buscar. Fui crooner do Renato e Seus Blue Caps, o que me possibilitou fazer bailes, com rodadas de samba, bolero, rock. Tudo isso foi aprendizado, sabe, bicho? Eu vim do popular. Há artistas hoje em dia que gravam disco, vivem do disco e nunca entraram numa estação de rádio.
Passaram do zero para o sucesso absoluto, não? Não foi mais ou menos o que aconteceu com a Jovem Guarda?
A Jovem Guarda aconteceu de repente, mas antes teve essa batalha toda.
Está certo, você roeu o osso. No que pintou a Jovem Guarda, no entanto, era como se fosse um filé no prato. Aquilo não te deslumbrou?
Se eu fiquei deslumbrado? Eu não tinha tempo nem para pensar se estava gostando ou não, bicho. Eram milhares de compromissos de uma hora para outra, shows para todo lado, convite para isso, convite para aquilo, fora a grana, as mulheres e os carros.
Fale dos carros.
Foi uma época em que todos os artistas da TV Record disputavam para ver quem comprava o carro mais bonito. Era Mercedes, era Camaro, era BMW. Um dia, um cara me procurou e me ofereceu um Rolls-Royce que tinha pertencido ao Getúlio Vargas, ao Adhemar de Barros, à rainha Ehzabeth quando ela esteve aqui, enfim, foi me dizendo o currículo todo do bicho. Aí eu disse: "Opa! É nesse que eu vou!" Então comprei, né? E era mesmo um carro incrível, pela força do nome, mas não era caríssimo. Havia outros mais caros. Para mim, ter um Rolls-Royce era só curtição. Eu andava nele de chapéu de caubói e um vira-lata que eu tinha. Na época dos concursos de Miss Brasil , eu emprestava o carro para as moças fazerem compras na rua Augusta, mas sempre com outros interesses por trás, lógico. Para ser convidado a jantar com elas, para estar com elas, essas coisas. Um dia, me enchi e vendi o Rolls-Royce para um milionário que precisava dar um presente para a mulher. O cara pagou o carro, embrulhou-o inteirinho em papel celofane, com fita e tudo, e deu para a mulher dele.
As grã-fïnas davam em cima de você naquele tempo?
Davam demais. Mas tudo escondido, porque elas não desfilavamcomigo, para não serem alvo da chacota das amigas delas. Era chique convidar o pessoal da Jovem Guarda para as festas. Uma dizia pra outra: "Sabe quem vem? O Erasmo Carlos. E vai cantar pra gente!" A outra dizia "Oh!" E lá ia eu. Era só chegar, dizer boa-noite e já me punham um violão na mão. Depois de cantar, eu me interessava por uma ou , por outra, mas já não servia mais. As mães delas diziam: "Ponha-se no seu lugar. Você tem fortuna para estar querendo disputar a minha filha?
Você passou muitas vezes por essa humilhação?
Passei, bicho. É por isso que hoje eu evito ir a reuniões desse tipo, porque sei a caretice que elas são. Não curto, fiquei anti-social mesmo. Passei a detestar esses artistas que se tornaram a versão moderna do bobo da corte. Fiquei com um trauma tão grande que fiz aquela música pra Gal Costa, Meu Nome é Gal, onde eu digo que "Pra se amar não precisa sobrenome /Porque é o amor que faz o homem". Sofri humilhações, mas aprendi a lição.
Foi uma das maneiras pelas quais você foi usado, não? A comercialização em cima da Jovem Guarda não terá sido a mesma coisa?
Sem dúvida, bicho. Fomos todos comercializados. Havia uma firma chamada Jovem Guarda que cuidava da condução da nossa imagem a partir da nossa proposta física. O Roberto tinha a cara de bonzinho, era o genro que as mães gostariam de ter, despertava nas mulheres um sentimento maternal. Eu era o contrário, o durão, o amante. E a Wanderléa era a menininha linda, desprotegida, exposta aos Perigos de Paulina [seriado de cinema de enorme sucesso na década de 10] para que um herói vencesse monstros e dragões de sete cabeças para salvá-la. Mas no resto era tudo igual. Nós passamos a lançar botas, chapéus, calças - lembra da calça "Tremendão"? -, coletes, chaveiros, lapiseiras, porta-cadernos, tudo. Fora a parte fotográfica, né? Nos jornaleiros você podia comprar a foto da dona Laura, mãe do Roberto, ou da dona Diva, minha mãe. Não tinham nem a consideração de botar o nome. Era assim: "Mãe do Roberto Carlos" ou "Mãe do Erasmo Carlos".
Vocês foram os primeiros artistas brasileiros a serem comercializados desse jeito. Esse turbilhão de negócios não chegou a atrapalhar a produção musical de vocês?
Bem, vamos admitir que sim, porque sem esse tumulto nós teríamos mais tempo para compor, com mais cuidado. Mas a gente viajava a semana inteira, segunda-feira em Salvador, terça em Porto Alegre , quarta não sei onde, e tudo isso de carro, ida e volta, distâncias enormes. E por isso que vivíamos cantando as mesmas coisas, até saturar. Mas nós não lutávamos contra nada disso e até achávamos ótimo, porque era a nossa maneira de ter grana, mulheres, carros, fama. A gente ia numa boate e ninguém cobrava. Ia comprar cueca, mandava descer tudo e, na hora de pagar, o cara dizia: "É presente". Enquanto isso, já estavam nos chamando na loja ao lado, para também nos abarrotar de calças, chapéus, tudo grátis. Quer dizer, era uma loucura e a gente curtia muito.
Você não ficava grilado pelo fato de estar faturando mais com essa comercialização do que com a própria música?
Não. E por um motivo muito simples: eu nunca vi um tostão desse dinheiro. Nenhum tostão de um chaveirinho! Não sei o que aconteceu, porque eu nunca entendi de negócios, mas me disseram que a firma Jovem Guarda, que patrocinava o programa Jovem Guarda, não conduziu bem as coisas. De repente, resolveu patrocinar o programa do Ronnie Von, contratou a Elis Regina, a Hebe Camargo, o Agnaldo Rayol - enfim, quis abraçar o mundo com as pernas. Resultado: em 1967 caiu tudo, igualzinho à Apple, que cuidava dos Beatles. Fiquei sem nada.
Mas, e o dinheiro dos discos, dos shows?
Esse era o dinheiro que eu reservava para os carros, o uísque e tudo o mais. Gastava uma grana enorme vivendo e não me arrependo. Mas era com o dinheiro da firma que eu estava contando para comprar um teto para mim, outro para minha mãe. Quando a firma faliu, foi um golpe duro, porque eu não tinha nada, nem mesmo para receber. Uma coisa que poderia ter dado ótimos resultados financeiros se tivessem trabalhado só com a gente... Mas foi bom, porque aí eu aprendi muito.
Como assim?
Porque, a partir daí, comecei a me sentir um ser humano descartável. Entendi finalmente o que era a máquina. Foi aí que chegou a minha meia-noite de Cinderelo e acabou o encanto. Ninguém mais me recebia nem sequer com cafezinho na sala. E por quê? Porque eu já tinha rendido, tinha esgotado a minha imagem, já tinham tirado tudo que eu poderia dar. "Não serve mais? Joga ele fora!" Tiraram o chão debaixo do meu pé, bicho, e eu comecei a pirar. Desempregado. Sem crédito. Arrasado pela crítica. Sem um tostão. Completamente desacreditado. Me convidavam a participar de programas e, na hora de pagar, diziam: "Pagar o cacete! Não vale nada!" Ao mesmo tempo, estava pintando o tropicalismo e eu descobri que já ; havia cabeludos mais cabeludos do que eu, gente que usava roupas mais extravagantes que as minhas, rebeldes mais ousados do que eu - porque eu era rebelde, mas não era ousado.
O que aconteceu então com você?
Entrei num círculo vicioso. Comecei a beber às pampas. Ficava nas boates até de madrugada, ia dormir com alguém e só ia ver com quem quando acordava às 5 horas da tarde do dia seguinte. Às vezes tomava até susto quando via a cara da mulher. Aí, acordava, tomava banho, já estava escuro, comia alguma coisa e tome boate de novo. Todos os dias a mesma coisa. Já não compunha mais, não me apresentava em lugar nenhum , inguém queria saber de mim. Foi um período difícil, mas foi maravilhoso porque eu tirei partido dessa lição. Aprendi a ter sempre um pé atrás em relação à máquina, a usá-la sem , deixar que ela me use.
Como foi que você saiu daquela?
Depois de quase dois anos nessa batida, eu me questionei muito e comecei a mudar os meus valores. Eu disse para mim mesmo: "Pó , estou sem estrutura nenhuma. Tenho de começar do zero, porra! O que eu tenho? Tenho minha cabeça, braços, pernas e saúde. Mas eu vou conseguir".
Quem te ajudou nessa época?
Roberto Carlos. Ele sempre acreditou em mim. Minha mãe, que sempre esteve do meu lado. E André Midani, que me levou para a Polygram, me deu plena liberdade e disse para mim: "Você vai gravar o que quiser, com quem quiser, da forma que quiser. Faça o que você quiser, mas faça É importante qualquer coisa que você crie". Nelsinho Motta também me deu muita força. E minha mulher, que na época ainda era minha noiva. Então eu voltei definitivamente para o Rio e comecei a trabalhar.
Essa crise que te pegou naquela época pegou o Roberto também?
Pegou o Roberto também. Mas ele não era arrasado pela crítica. Era muito considerado e, quando começaram a ensaiar umas criticas negativas, ele tapou a boca de todo mundo ganhando o festival de San Remo. Então fiquei pastando sozinho por aí, com meus problemas, mas também consegui me reafirmar. Um dos começos foi Coqueiro Verde, em que eu falava da Na rinha, minha noiva, do Pasquim, da Leila Diniz.
Quando você sentiu que tinha dado definitivamente a volta por cima?
Foi durante o primeiro show da Elis Regina no Canecão, em 1970. Fui com o André Midani, era uma mesa grande, com um monte de pessoas, e ninguém entendeu por que eu chorei quando ela começou a cantar As Curvas da Estrada de Santos .Pranto convulsivo , chorei adoidado mesmo. Para mim, era a volta por cima, era o começo do reconhecimento. Mas era também o fim de mágoas antigas, o começo de uma nova proposta, de um novo tempo, de amizade entre intérpretes e compositores das mais variadas tendências. O Roberto não estava presente, mas eu chorei por ele porque sei que ele também choraria se estivesse lá. Eu pensava assim: "A gente é legal, porra! Taí a prova de que nós somos legais!" A partir daí, as pessoas pararam de implicar com rock, com guitarra elétrica na MPB.
De fato, não se vê tantos puristas na praça como antigamente...
Graças a Deus, porque eu fico feliz de saber que estava certo, entende? Hoje em dia, eu acho uma maravilha a música popular brasileira, com todo mundo integrado, se respeitando, transando numa boa. As pessoas gravam umas com as outras, sem estrelismo, sem frescura, ninguém cobrando raízes. Música é universal e não tem de obedecer fronteiras. Porque foram os homens que fizeram as fronteiras, e música tem a ver é com Deus, pô Daí essa maravilhosa bacanal de ritmos que está havendo hoje, integrando o mundo inteiro.
Você se sente interiormente realizado com isso?
Ainda não, porque hoje há novas barreiras a serem vencidas, não é? O que já foi novo é comum hoje em dia. E ainda há milhões de preconceitos por aí. E por isso que, na medida do meu alcance, eu dou força a tudo que significar mudança, desde que com liberdade, respeitando o próximo. Então, por exemplo, eu estou do lado de qualquer movimemo gay, porque cada pessoa é dona do próprio corpo e do próprio amor. Todo mundo tem o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo. Então, se quer abortar, que aborte, de acordo com a sua consciência. Não cabe a nenhuma instituição vir dizer o que é certo ou errado. Roupas, também. Sabe há quantos anos eu não visto uma calça que não seja jeans? Há uns catorze ou quinze anos. Se eu for a uma festa, por mais sofisticada, eu estarei de paletó e de jeans. Não deixo que ninguém imponha moda pra mim; eu me visto como eu sou.
Você sempre foi rebelde?
Sempre. Naquele tempo, fins da década de 50, a gente era chamado de "juventude transviada". Havia turmas na Zona Sul do Rio que entravam com trinta, quarenta motocicletas dentro do cinema. Em São Paulo , os caras despejavam barris de óleo na rua Augusta para ver os carros dançarem quando desciam. Isso nós não fazíamos na Tijuca, porque não tínhamos as motocicletas nem os barris de óleo. Se tivéssemos, faríamos também. O máximo que a gente fazia era realizar pequenos furtos, tipo assaltar velhinhas, e mudar os letreiros do cinema Madrid, de madrugada, para que formassem um palavrão. Então, o cara passava de bonde pela porta do cinema, bem cedinho, a caminho do trabalho, e via anunciado: "Hoje: Puta que Pariu". Era uma farra, né? Assim como era uma farra jogar ovo na cara do John Gavin quando ele vinha ao Rio de Janeiro para lançar aqueles filmes lacrimejantes que ele fazia, tipo Tammy a Flor do Pântano. O cara vinha de terninho, com o cabelo aparado, todo bonitinho, e eu não aceitava muito aquilo, não.
Quem você aceitava?
James Dean, Marlon Brando. Foi a primeira vez que eu me vi no espelho. Eu disse: "Eu quero essas roupas, eu quero esse comportamento para mim". Eu ouvi o som de Elvis Preslev, Bill Haley, Chuck Berry e Little Richard e fiquei louco. Foi uma identificação natural e instantânea, o que eu sempre imaginei para o meu gosto, embora nunca tivesse visto nem ouvido nada daquilo antes. Mas era difícil, porque não havia nada no Brasil ainda. As botas, a gente tinha que roubar do exército. Os blusões, era a mãe da gente quem fazia. E os preconceitos? O Tim Maia, que era da nossa turma na Tijuca, andou sendo proibido de namorar certas meninas porque usava sapatos sem meia!
Você, às vezes, não se sente contemporâneo dos pterodáctilos?
Às vezes sim, bicho. Só não tenho asa, mas me sinto nu e de tacape, comendo carne crua. A diferença é que eu não fui um rebelde. Eu continuo sendo.
Como é que você vê hoje o problema das drogas?
Eu sou contra qualquer dependência, qualquer coisa que anule o íntimo e a vontade da pessoa. Mas eu acho que o homem tem obrigação de experimentar, para saber como é, para saber reagir no caso de um filho chegar drogado em casa e você poder orientar, sem aquela ditadura toda em cima da criança. Eu tenho um filho de 17 anos e por isso experimentei várias coisas nos Estados Unidos, em 1972, para tomar conhecimento.
O que você transou?
Eu transei fumo, ácido e cocaína lá, entende? Não gostei de ácido, nem de cocaína. Foi uma bad trip. O fumo abre os sentidos, para a música principalmente, mas, de todas as coisas, preferi ficar mesmo com a minha birita.
Como você se sente aos 39 anos, depois de ter sido um ídolo da juventude?
Eu continuo ligadão na juventude, bicho. Confio muito nela e estou com os ouvidos bem abertos, os olhos aguçados e a cabeça na maior, pronta em banho-maria, na expectativa de novas propostas e à espera de ser chamado. Ainda há outras guerras para serem vencidas. A minha música amadureceu, mas a juventude também. Hoje é outra consciência, outra transação. O que eu ponho agora nas letras e nas músicas interessa a pessoas de 15, 25, 35 anos. Todo mundo tem problemas existenciais em qualquer idade.
É verdade que há algumas divergências entre você e o Roberto na escolha de certas palavras? Por exemplo: você querendo usar a palavra cama e o Roberto preferindo leito?
Não, o que há é uma preocupação em narrar as coisas de uma forma digna, sem grossura, para que não nos acusem de falta de imaginação. Nesse caso, tanto faz cama ou leito, depende da situação. Cavalgada, por exemplo, é a narração de um ato sexual e nós temos consciência de que fomos muito felizes na escolha das palavras. Em vez de dizer "Vou trepar nessa mulher a noite inteira, vou dar porrada nela", nós fizemos uma coisa de bom gosto para dizer a mesma coisa.
Por que as músicas que você faz com o Roberto e para Roberto são meio puxadas a bolero?
Porque ele sente assim, né? E é ele quem interpreta. Mas a gente faz a música harmonicamente; o ritmo só é posto na hora da gravação. Esse ritmo tanto pode ser de rock, como de bolero ou samba-canção. Além disso, nós não temos nada contra o bolero, que é um ritmo maravilhoso e que nós cansamos de dançar na nossa adolescência, com muito bate-coxa ao som do Bienvenido Granda [risos].
Quem faz bom rock no Brasil, hoje?
Eu faço de vez em quando uns rockões brabos, a Rita Lee faz, o Zé Rodrix faz alguns muito bons. Tem o Pepeu com a Babv Consuelo, tem A Cor do Som, enfim, muita gente. Mas, hoje, a integração é tão grande que é tudo rock, tudo elétrico, mesmo com batida de samba ou de baião, é tudo rock.
Dos três que fizeram a Jovem Guarda, Roberto Carlos ainda é o rei e você está na sua fase de maior prestígio. E a Wanderléa?
Como todas as pessoas com sede de vida e ânsia de saber, a Wanderléa também teve as experiências dela, procurou os seus próprios caminhos, sofreu diversas influências e agora voltou a se encontrar com a gente. Vamos inclusive produzir o próximo disco dela.
Você, de certa forma, é uma pessoa bem mais livre do que o Roberto, sem tantos compromissos. Você se sente mais feliz do que ele?
Eu me sinto bastante ocupado com os meus compromissos. Agora, se você pergunta se eu gostaria de ter os compromissos dele, eu diria que não, porque a direção que eu dou à minha vida é completamente diferente. Eu não me realizo no palco, nunca gostei de fazer shows, embora tenha feito milhares. Já o Roberto se realiza e, quando as pessoas vêm dizer para mim "Coitado do Roberto! Tem uma vida assim e assado", eu penso que coitado é quem tem pena dele, porque ele está muito feliz.
Por que essa diferença entre vocês?
Porque eu sou carioca, ele é capixaba; eu sou geminiano, ele é Aries; eu sou uma pessoa, ele é outra.
Te incomoda ser perguntado sobre ele?
Às vezes incomoda, principalmente quando a entrevista é minha.
Mas, se a entrevista fosse com o Roberto, você não seria inevitavelmente citado por ele?
Certo. Não tenho nada contra, nem posso deixar de falar dele, porque ele faz parte da minha vida. Mas também não gosto de falar muito, porque aí já é entrevista por tabela. E me procuram muito para isso. É um saco!
Você realmente não sente mais falta das fãs?
Não. Eu hoje tenho uma liberdade muito grande de locomoção. Vou ao Maracanã ver o Vasco, vou ao cinema, vou ao teatro, vou à praia, vou a restaurantes, e não tem mais essa coisa de tremeliques, de assaltos de fãs. O que tem muito é respeito. As pessoas se ctucam quando eu entro e quando se dirigem a mim, é com um carinho muito grande. Isso me deixa feliz, bicho.
Quem você convidaria hoje para uma nova Festa de Arromba?
Primeiro eu levaria todos que levei da outra vez - Ronnie Cord, Prini Lorez, Wanderléa, Rosemarv, Trio Esperança, Golden Boys, Roberto Carlos, Zé Ricardo, Demetrius, Renato e Seus Blue Caps, The Clevers, The Jordans, Ed Wilson. Não esqueci ninguém?
E os de hoje?
Eu levaria Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Rita Lee. Cal Costa, Tim Maia, Nara Leão, Chia Buarque, Jorge Ben, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga Jr., As Frenéticas. Djavan, A Cor do Som, Clara Nunes, Maninho da Vila, Beth Carvalho, Jair Rodrigues e muitas outras pessoas. Eu gosto de todas as pessoas, e gosto de algumas músicas de todas as pessoas, porque não sou radical. Mas se há duas pessoas que eu não me canso de ouvir, e não vou me cansar nunca, são Elvis Presley e João Gilberto.
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