RONALDOEVANGELISTA


Dez coisas sobre Roberto Carlos



Em matéria que escrevi para a revista Bizz em 2007. Setenta outonos não é todo dia. Parabéns, meu rei.

(Mas, secundando Inácio, que sentido tem proibir biografias, além de prejudicar o conhecimento de uma época?)

Marcadores: , , ,

Eles estão surdos!










Em 1969, Roberto Carlos estava em plena fase soul: ouvia James Brown, gravava Tim Maia, aprendia a cantar temperando a doçura com agressividade e tinha planos de compor uma música chamada "Eu Queria Ser Negro". Pela mesma época, começava a descobrir a fé como inspiração: compôs "Jesus Cristo", tão deslavadamente gospel que só funcionou na gravação quando chamaram para o piano Dom Salvador, depois de muitos outros tentarem e não atingirem o ponto certo de ebulição. Não era coincidência: pouco depois Salvador estaria dando um tempo no samba-jazz pra montar a Banda Abolição, primeira grande formação de consciência negra na música brasileira pop setentista.

Roberto também continuou interessado naquele som, e em como a catarse do funk atingia outros níveis ligado à força da fé. Em seu disco de 1971, lançou sua segunda - e ainda melhor - música funk-gospel, "Todos Estão Surdos". Sem precisar citar o nome do protagonista, que já tinha sido título e refrão na homenagem anterior, o discurso mistura o sonho de John Lennon e os cachos de Caetano, o hippiesmo zen de Erasmo e o fervor religioso do negro gospel americano pra dizer uma simples verdade universal: todo homem traz a paz dentro de si, mas poucos olham pra ela.

Universal não é só modo de dizer: no play acima, duas versões estrangeiras de "Todos Estão Surdos": pelo cantor porto-riquenho Danny Rivera, que aliás também gravou "Jesus Cristo", e pela banda de estúdio francesa April Orchestra, library music. Enquanto o primeiro faz versão fiel, em castelhano, até da parte falada, a segunda exclui as palavras e os autores e adiciona coro feminino e ainda assina a autoria nos créditos do LP.

Marcadores: , ,

Em Ritmo de Aventura



Alucinante! Psicodélico! Ingênuo! Pop! Metalingüístico! Moderno! Yes, nós temos Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, 1967, de Roberto Farias. Com o RC-7: Bruno (baixo), Dedé (bateria), Gato (guitarra), Maguinho (trompete), Nestico (sax), Raulzinho (trombone) e Antonio Wanderley (piano).













Marcadores: , , , ,

Karatê na solidão



Como todo mundo a partir de sua geração, Erasmo e Roberto piravam grande em João Gilberto. Com suas formações desintelectualizadas de roqueiro da Tijuca e crooner capixaba, já misturavam bem todas as influências quando os Beatles estouraram mundialmente e reinventaram os paradigmas, em 1964. Os roquinhos anos 50 e a música brasileira de boate eram igualmente entendidas e preteridas em lugar daquele pop com linguagem atual e a modernidade da bossa nova.

Ingênuos eram os tempos; a Jovem Guarda era conceitualmente rasa por limitações de marketing e musicalmente pobre por limitações culturais, mas Roberto e Erasmo de cedo mostravam a amplitude de suas intenções e sensibilidades, algo como Lennon e McCartney pós-Dylan e marijuana e Gil e Caetano pós-Lennon e McCartney.

Com a força emocional e inteligência instintiva de suas músicas, conquistaram Deus e o mundo e ensinaram o abecedário pop pra geral, nem que pela negação. Nessas de imaginário, congelaram suas imagens, muito pelo culto desde lá e até hoje a Roberto. Mas ali, enquanto tantos perdiam tempo separando Beatles e João Gilberto em gavetas diferentes, Erasmo e Roberto marotamente divertiam-se com todos os pops que pudessem.

Chapas de Jorge Ben (com quem Erasmo dividiu uma casa no Brooklin, em São Paulo, em 1966), Roberto já ali em 63 lançava música jovem de gosto samba-jazz com solo de trombone e Erasmo, em especial, vivia fazendo músicas, pra mulher do Lafayette, pros Golden Boys, Originais do Samba, Célia, tocando violão com Luiz Carlos. Enquanto Lennon e McCartney garantiam o sucesso dos Rolling Stones dando pra eles "I Wanna Be Your Man" em 1965, Erasmo e Roberto presenteavam os amigos com sambinhas.

Varrendo os discos com canções deles, ligando os pontos, contando essa história, evitando os óbvios (vai atrás de "Coqueiro Verde" e "Maria, Carnaval e Cinzas"), compilei, play abaixo ou baixe AQUI, sambas compostos por Erasmo e/ou Roberto, em sua melhor época.



Os Sambas de Erasmo & Roberto 63-74

Roberto Carlos - É preciso ser assim (63)
Conjunto CBS - Menino do sertão (65)
Dina Lúcia - Matando a miséria a pau (65)
Jorge Eduardo & Banzo Trio - Timbó (65)
Golden Boys - Toque balanço, moço! (65)
Luiz Carlos - Samba na palma da mão (65)
Lafayette - O menino e a rosa (65)
Originais do Samba - Eu queria era ficar sambando (70)
Célia - A hora é essa (72)
Elza Soares - Rainha de roda (72)
Trio Mocotó - Samba da preguiça (73)
Wanderlea - Mané João (74)
Erasmo Carlos - Cachaça Mecânica (74)

Marcadores: , ,

Boca cheia de formiga



Falando no Mug, pode a simpática foto acima do Chico Buarque com seu amigo Mug ser causa de imbroglio em um livro sobre Simonal?

Pode:

Uma foto que gera muito problema entre os editores é uma imagem de Chico Buarque segurando o boneco MUG na mão. Assim como Simonal, Chico fez propagando do tal boneco que, dizia-se, dava sorte. Era na verdade o mascote de uma grife de roupas da MPB em sua empreitada combativa contra as roupas da Jovem Guarda. A grife da MPB acabou não sendo lançada mas da Jovem Guarda virou alvo dos criticos da ditadura identificados com o samba e a resistencia. As roupas da Jovem Guarda, jaqueta do Tremendão, a roupa da Ternurinha, etc., essas sempre lembradas pro aqueles que acusam o movimento de Roberto Carlos e cia de "mercadológico". Chico também fez propaganda, assim como vários artistas da MPB pois também estava envolvido na defesa da "musica brasileira" frente a "alienação importada" da Jovem Guarda.

Diz Gustavo Alonso Ferreira, do livro Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga, de um mestrado sobre o Simonal, programado e eternamente adiado pela editora Record. A foto acima, e outras de Chico em propagandas de banco, sandália e máquina de costura, foram vetadas no caderno de fotos da biografia.

Gustavo explica:

O argumento da editora para tal autocensura (desculpe mas não há outro nome) é que o compositor não permitiria sua publicação e se o fizéssemos mesmo assim isso poderia acarretar um processo. Mas estas imagens são fotos já publicadas em revistas e jornais, ou seja, já foram publicadas alguma vez. São, enfim, documentos historicos, fontes abertas a todos. Em tese só precisariamos da liberação do fotografo, o que não é dificil de conseguir. Mas o medo do processo inviabiliza,na pratica, qualquer publicação porque entende que o sujeito que aparece na foto tem que autoriza-la! Imagina se formos pedir autorização ao Lula por toda foto que ele aparece? Imagina fazer isso em época de foto digital e internet? Seria melhor, caso o Chico Buarque realmente se importasse de fato muito com sua memoria, que ele acusasse o uso do Photoshop para deturpá-lo, ou de um simples "Paintbrush" para desgastá-lo... o que não foi o caso, obviamente, mas em tempos de virtualidade e simulacros, tudo pode vir a convercer. Ou quase tudo.

Mais dano colateral da indigna censura de Roberto Carlos à biografia de Paulo César de Araújo, em 2007.

Marcadores: , , , , ,

Hoje é um dia especial na sua vida

Ou pelo menos todos deveriam ser.

Se você está precisando de ajuda pra viver momentos bonitos e se divertir até cansar, tá fácil.



Hoje, sete da noite, Galeria Olido, vai rolar a conclusão do projeto Conexões, com todos nós humildemente reapresentando os melhores momentos do mês: Tatá Aeroplano, Karina Buhr, Leo Cavalcanti e Tulipa Ruiz voltam à vitrine da avenida São João para cantar, respectivamente, Roberto&Erasmo, Rita Lee, Gil&Caetano e Gal.

Última chance de ver mágica acontecendo, Tatá se entregando à emoção de cantar Roberto e ainda mostrando relações entre seus sons e o de Erasmo; Tulipa parando o tempo pra arrepiar os ouvintes, cantando Dê um rolê como se não houvesse amanhã; Karina pescando na memória histórias e canções, somando e subvertendo o senso de humor de Rita Lee com seu próprio; Leo cantando Lamento sertanejo com aquele arranjo, naquele lugar, com aquele clima e aquele encontro de pessoas. Não existe época de ouro, a vida é de ouro.

Fazendo tudo acontecer, a Banda dos Contentes, com Mauricio Fleury, Pedro Falcão e Demétrius Carvalho, hoje com Régis Damasceno e Gui Held aparecendo pro goodbye.



Depois, comemorando o fim de mês, os shows, a amizade, a vida, o amor e a falta e vergonha de ser hippie, VENENO especial música brasileira, de graça e gudiváibe, anti-hype e carão-free no Astronete.

Só chegar e ser feliz.

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

sou forte mas não chego aos seus pés




Centro dois, Paulista zero: saca a galera trincando no Tatá cantando Erasmo e Roberto na Olido. "E viva nós", ri a senhora oriental de batom vermelho, depois de "Mulher". E do começo ao fim de "Amada Amante" dança o senhor de boné vermelho e pulôver sobre os ombros. // Ambos vídeos por Paulo Fluxus.

Marcadores: , , , ,

bom mesmo é ser feliz e mais nada



Tatá Aeroplano canta "Se Você Pensa", Roberto & Gal, em sensacional arranjo cheio de groove de Mauricio Fleury e A Banda dos Contentes, com Demétrius Carvalho e Pedro Falcão. // Filmado pela Nina Cavalcanti, na vitrine da Galeria Olido, primeiro de julho de dois mil e nove.

Marcadores: , , ,

meu bem, meu bem

Expressão e afirmação da juventude brasileira



O Estado de São Paulo, com 9 milhões de habitantes de menos de 25 anos de idade, é um dos centros de expressão e afirmação da juventude brasileira. Compositores populares, cantores, diretores e intérpretes de teatro e de cinema, escritores e artistas plásticos, projetam o seu nome por todo o país. E conquistam acesso aos meios de comunicação de massa, representados por uma rêde de nove estações de tevê, de noventa e uma estações de rádio, além de centenas de jornais e revistas. Quer se dediquem ao estudo, às técnicas de produção e aos diversos ramos da ciência moderna, quer se apliquem às atividades artísticas, os moços encontram em São Paulo um ambiente estimulante e pronto a absorver os que se distinguem por talentos ou capacidades especiais. Êles estão procurando ajudar São Paulo a dar o grande salto para a frente.

*

Os Mutantes, Gil, Nara, Roberto, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, uma escada e vários bambas em uma antiga edição da Realidade.

Marcadores: , , , , , , , ,

Esplendor de clareza e precisão



Assim como todos nós que gostam muito e conhecem algo da obra de Roberto e Erasmo, Caetano também se pega pensando em quem escreveu o quê em qual música:

"Fera ferida" é muito Roberto na minha cabeça. Não gosto de me intrometer na questão do que é mesmo de Roberto e Erasmo (ou de Lennon e McCartney). Mas tenho curiosidade e alguma idéia sobre as individualidades envolvidas. Há coisas de rima em "Fera ferida" que eu atribuiria a Erasmo (com seu talento para os versos rimados e seu amor por essa forma, como atestam o uso que ele fez do poeminha de Ghiaroni e as letras do disco do "Coqueiro verde" - sem falar em "Sentado à beira do caminho", um esplendor de clareza e precisão), mas o tema de "Fera ferida" é Roberto puro. O que impacta nessa canção é o tom de confissão íntima de Roberto, tom que fica reforçado pelo fato de a música ter sido lançada em sua voz. Mas Erasmo é tudo o que eu disse em "Verdade tropical" e muito mais. Lendo o livro de Midani (que tem algumas lembranças que não coincidem com as minhas mas é mesmo um ótimo livro), vi voltar a imagem forte de Erasmo, sua personalidade rock. José Agrippino de Paula também gostava mais de Erasmo do que de Roberto (como Midani) e eu sempre entendi por quê.

Do blog Obra em Progresso.

Marcadores: , ,

Larger than life



Uns três ou quatro fins de semana atrás, fui pro Rio. Lá, encontrei não só Capitão Presença criador e criatura, como bebi com Arnaldo e Liv, fui na Soul Baby Soul, conheci a La Cucaracha. E a tarde de sábado passei em São Conrado, na casa de Luis Carlos Miéle. Encomenda da Trip, que chegou nas bancas agora com matéria minha, resultado do sensacional papo com Miéle.



Pleno fim de tarde de um sábado de sol e Luiz Carlos Miéle está impecavelmente vestido de smoking e gravata-borboleta, sapato brilhante, chapéu de palha na mão. É seu visual mais famoso, reminiscente de antigos musicais americanos, sutilmente adaptado à malandragem brasileira. Batendo levemente o pé no chão em movimentos elementares de sapateado, ele aguarda o sinal do fotógrafo avisando que vai bater nova chapa. De repente, na hora certa, entrega um sorriso exato e poses ensaiadas, com perfeita naturalidade. Miéle conhece os passos de dança do pop.

Pela sua casa no bairro carioca de São Conrado, nas paredes, em mesas, sobre estantes, há todo tipo de coisa: uma Marilyn de Andy Warhol, uma espada samurai, um espelho no qual está escrito “happy birthday” com batom (daqueles fakes, com o batom de plástico grudado no pé do Y), elefantes de porcelana, um gato persa chamado Garfield, cachorros, montes de fotos que parecem não ser olhadas há tempo, com Miéle ao lado de Liza Minnelli, Pelé e dezenas de pessoas com pinta de importantes. E o melhor de tudo: ao lado da piscina, no deck de madeira, uma estátua em tamanho real dele mesmo em pose bon-vivant.

Mementos de 70 anos e quatro meses de uma vida bem vivida; espetáculos, programas, noites, amigos, mulheres, drinques e histórias uma após a outra. Miéle é figura em extinção, daquelas essenciais para a existência da boemia, do bom humor, da cultura pop brasileira, da qual é espécie de sobrevivente. O que faz de Miéle, quase seis décadas de vida profissional, uma figura que vive até hoje no imaginário popular?

“Recentemente fui a um evento e encontrei vários amigos de outros tempos. Muitos sentadinhos, de bengala, a perigo. E vi dois ou três bandidos em plena forma! Então me convenci de que o pecado favorece a preservação da juventude.”

Ele está brincando, mas não muito: Miéle sempre foi um vigoroso adepto de uma boa dose de irresponsabilidade – ou pelo menos uma saudável anarquia. Há alguns anos, caiu da varanda de sua casa. Cinco metros de altura, hospital, pontos na cabeça, rótula fraturada. Lição aprendida? Uísque faz mal à rótula. Miéle achou o segredo do sucesso e a fonte da juventude: dar certo é importante, mas essencial é se divertir.

E ele se divertiu. Homem da noite, humorista, contador de histórias, diretor de espetáculos e de programas de TV e, até, cantor e ator. Reuniões? As melhores conversas aconteceram em madrugadas. Escritório? As melhores idéias vieram nas mesas do bar. Profissionais? Os melhores trabalhos foram feitos com amigos – que, não coincidentemente, eram os melhores profissionais disponíveis.

NA HORA CERTA
O talento de Miéle de viver o momento certo na hora certa, e melhorar o momento um pouquinho mais, começou em casa, filho que era de uma cantora e atriz da rádio Excelsior, em São Paulo. “Foi tudo meio acidental”, vaga ele pelas memórias. “Eu era péssimo aluno e minha mãe queria que eu fizesse algo. Um dia, ela me levou pra participar de um programa na rádio, porque o garoto que ia fazer o papel medrou. Eu tinha 11 pra 12 anos e era cara-de-pau, já era engraçado ou pretendia ser. Depois minha mãe foi contratada pela rádio Tupi e me levou junto e aí chegou a televisão.”

Naquele novo formato de linguagem que era a TV, foi fazendo de tudo: assistente, locutor, diretor. “Não havia escola, ninguém abriu um livro pra ler como é que faz. Ninguém aprendeu televisão no Brasil a não ser fazendo”, diz. Numa dessas, conheceu Ronaldo Bôscoli, figura-chave da bossa nova. “Eu trabalhava na TV Continental e o chamei pra primeira entrevista com o pessoal da bossa que houve na TV”, conta Miéle, orgulhoso. “Depois ele me chamou pra ajudar em um dos primeiros shows de bossa nova, a Noite do Amor, do Sorriso e da Flor. Mas eu não cheguei a tempo de dar a força, só fui lá e entrei no meio pra assistir.”

Entre um primo diretor de teatro que o viciou em cinema, uma prima jornalista que o viciou em jazz e o intensivo de bossa nova de Bôscoli, Miéle descobriu mais uma vocação: diretor de programas musicais na TV e de espetáculos na noite. Ele conta: “Um dia eu e o Ronaldo fomos parar no Beco das Garrafas, onde tocavam os principais músicos, pra dirigir o primeiro show da vida da gente, que era o Sergio Mendes”.

Do Beco, foram subindo as apostas e os ganhos acompanharam: em pouco tempo dirigiam espetáculos dos maiores pop stars brasileiros, de Roberto Carlos a Elis Regina e Wilson Simonal. Na televisão, criavam programas de arte, inspirados nos melhores filmes americanos. “O que eu via no cinema tentava aplicar na TV”, contextualiza. “Quando comecei a dirigir, tentei contar histórias com a câmera, e acho que consegui. Eu e o Bôscoli fizemos programas muito diferenciados pra época, muitas vezes ganhamos prêmios. Éramos considerados os garotos espertos com umas idéias novas. A gente se divertia muito.”



O PEIDADOR
Quando abriu, na década de 70, no Rio, uma casa noturna com Bôscoli, o nome sugerido por Nelson Motta foi alegre e empolgadamente aceito: Monsieur Pujol. Homenagem ao artista francês de fins do século 19 que, conta a lenda, fazia grandes performances no palco utilizando-se de seu principal instrumento: o fiofó. Sempre de calça com um furo nos fundi- lhos, expelindo gases que nasceram para o sucesso, Pujol interpretava músicas, fazia imitações, levava o público ao delírio.

Boa metáfora para a produção da dupla Miéle & Bôscoli: sempre havia quem achasse genial, sempre havia quem se sentisse ofendido, mas ninguém nunca duvidou da ousadia, criatividade e facilidade para atrair as atenções. Juntos, Miéle & Bôscoli vestiram Roberto Carlos de palhaço, fizeram Elis Regina sapatear, assustaram a tradição com programas de TV modernistas, colocaram em movimento alguns dos maiores músicos de seu tempo, ajudaram a inventar a noite brasileira e o formato dos grandes espetáculos musicais como os conhecemos hoje.

Mas, antes, tiveram que se virar nos 30: “Os primeiros shows no Beco das Garrafas, para 50 ou 60 pessoas, nós iluminávamos com lâmpada de 100 velas. Fazíamos um tubo de luz com uma cartolina e colocávamos o interruptor em uma caixa de sapatos. Se o artista se mexesse muito, a gente iluminava com uma lanterna. Em um show do Simonal com a Darlene Glória, eu coloquei uma cadeira de juiz de tênis num canto pra ela sentar em uma cena. Como a gente fazia espetáculo naquela época com prego e cartolina? Tinha que fazer”.

Como todo mundo sabe, o perrengue é o melhor amigo da criatividade. Quarenta anos depois, temos sound designers, light designers, roadies, técnicos de som vindos do Japão e toalhas brancas a granel. Miéle foi vivendo as mudanças: dos 50 lugares do Beco aos milhares nas grandes casas; de novatos a estrelas; do 78 rotações pro LP, do LP pro CD, à morte do CD.

“Um dia quis comprar um disco do Frank Sinatra e fui à Hi-Fi da rua Augusta, que era uma loja importante”, exemplifica com mais um causo. “Quando eu disse que queria ver uns discos do Sinatra, o vendedor fez uma cara de dó pra mim, como quem diz: ‘Coitado, ele ainda não sabe o que aconteceu’. Eu fiquei puto com o desdém do cara, ‘vai dizer que não existe mais disco do Frank Sinatra?’. E ele explicou: ‘Não, Miéle, é que não existe mais disco’. Saí de São Paulo pra fazer show numa sexta-feira, na segunda não tinha mais vinil. Impressionante a mudança das coisas, acho curioso passar por isso por causa da minha idade.”

Em algumas horas de papo, é o terceiro ou quarto comentário sobre idade. Então, depois de tanta história, insisto no assunto: O que o mantém aqui até hoje? “Gosto de lembrar de tudo que já fiz, mas faço questão de sempre falar sobre o que ainda vou fazer”, dá a letra. “Isso é rejuvenescedor, uma forma de não me entregar à idade. Quero saber o que vou fazer daqui pra frente.”

Entre planos de atuar mais (novos episódios da série Mandrake, em que ele fez parte do elenco, começam a ser filmados no ano que vem) e fazer mais shows (com Roberto Menescal e Wanda Sá, com Simoninha e participando do cruzeiro de Roberto Carlos), ele fala ainda em reinaugurar o Beco das Garrafas, criar novas séries na TV e organizar nova montagem da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Tom Jobim e Billy Blanco.

Agora, tanto já feito e por fazer, do que mais se orgulha em tudo o que fez? “Provavelmente de não ter feito muitos inimigos”, sem hesitar. “A amizade parece um animal em extinção no mundo de hoje.”

E aí, enquanto educadamente põe jornalista e gravador pra fora, ainda comenta: “Pena que tenho jantar marcado para hoje à noite, senão abriríamos uma garrafa e continuaríamos o papo”. Naturalmente, estava apenas sendo educado. Mas, enquanto ainda penso em descobrir o segredo de tanto tempo fazendo coisas divertidas ao lado de gente legal, me pego pensando: pena mesmo.

Marcadores: , , , , , , ,

1972 na música brasileira


Chico Buarque * Quando o carnaval chegar [dl aqui]
Ironias com o rock, arranjos de coreto, clima de carnaval de filme do Nelson Pereira dos Santos, canções rebuscadas e aquela delicadeza e melancolia que ganham a ala feminina: é o disco que inventa não só Marcelo Camelo, mas também toda a cena de samba universitário da Vila Madalena em São Paulo.


Caetano Veloso * Transa [dl aqui]
O disco favorito de todo fã do Caetano, o disco "mas esse é bom" de todo detrator do Caetano, o disco favorito do próprio Caetano e boa dose de inspiração pra atual "fase roqueira" dele. Gravado em Londres, com Caetano deprimido e inspirado e com a banda liderada por Jards Macalé tocando ao vivo no estúdio, criando camadas de sons, canções, emoções.


Elis Regina * Elis [dl aqui]
Elis Regina não era cantora de bossa nova nem de jazz, não era hippie nem tropicalista. Era tão idiossincraticamente pessoal que tiveram que inventar um rótulo o mais genérico possível - simplesmente "música popular brasileira" - pra dar conta de generalizar discos como esse. Muito por culpa de Cesar Camargo Mariano, recém-vindo da banda de Wilson Simonal.


Tom Zé * Tom Zé [dl aqui]
Foi ali, por volta de 1972, que Tom Zé teve que encarar de vez a dura realidade: ele não fazia parte da elite da música brasileira. Provavelmente não era nem tropicalista. Livre da responsabilidade e encarando sua própria genialidade, criou seu primeiro grande clássico - de uma série que ao mesmo tempo o jogou no esquecimento e o tirou de lá 20 anos depois.


Tim Maia * Tim Maia [dl aqui]
Tim Maia era movido a emoções fortes. E deve ter tido poucas mais fortes que a fossa e dor de corno que sentia quanto compôs e gravou esse disco, esbanjando conhecimento de causa em funksoul e transbordando despeito e desamor. Pelo menos em termos de à-flor-da-pele, o grande disco do recente biografado pela assinatura Nelson Motta.


Erasmo Carlos * Sonhos e Memórias [dl aqui]
Depois de ir gradativamente ampliando seus horizontes a cada disco desde fins dos anos 60, foi em 1972 que Erasmo assumiu que queria mesmo era ser hippie. Esqueceu aquele papo de jovem guarda, trocou de gravadora, casou e foi pro mato. Nessas, renasceu um grande compositor: agora a inspiração vinha em sambinhas, baladas folk, soul, desabafos e declarações.


Jards Macalé * Jards Macalé [dl aqui]
Animado como compositor pelo Vapor Barato da Gal e como bandleader pelo Transa do Caetano, em 1972 Jards respirou fundo e colocou tudo no seu primeiro disco: sua voz, seu violão, sua excentricidade, sua sensibilidade, a poesia de Waly Salomão e o som de Lanny Gordin e Tutty Moreno.


Gilberto Gil * Expresso 2222 [dl link]
Gil, eufórico de alegria de estar de volta ao Brasil depois de dois anos no exílio, faz um disco mais brasileiro que nunca - mas, sob a influência do primeiromundismo roqueiro britânico, também mais roqueiro do que nunca, com a pegada de Lanny e Tutty já virando assinatura.


Maria Bethânia * Drama - Anjo Exterminado [dl aqui]
Caminhando a passos largos em direção ao desbunde baiano sem limites da década de 70, mas ainda com a criatividade aguçada, Bethânia estava ligada nas coisas: chamou o irmão recém-chegado de Londres com aquelas idéias novas pra produzir um disco dela. Long story short, Drama está pra Bethânia como Transa pro Caetano.


Roberto Carlos * Roberto Carlos [dl aqui]
Em 1972 Roberto não precisava provar mais nada a ninguém. Já era há tempos o maior popstar do Brasil, já tinha sido justificado pela intelectualidade através do tropicalismo, já tinha superado tudo isso e entrado no olimpo popular com Detalhes. Então, fez a única coisa que lhe restava: inventou todo um estilo musical, hoje conhecido como "brega".


Novos Baianos * Acabou Chorare [dl aqui]
Depois de uma estréia subtropicalista, os Novos Baianos tiveram um intensivão direto na fonte de todas as revoluções: João Gilberto, que apareceu na comunidade hippie deles, dividiu o banza e os ensinou a graça de Assis Valente. Some à epifania cool de Moraes, Baby e Paulinho o virtuosismo empírico dos jovens gênios Pepeu, Dadi e Jorginho e pronto: obra-prima.


Wanderlea * Maravilhosa [dl aqui]
Entediada com a música e com a persona em que a haviam metido nos anos 60 - música e persona que ajudaram a libertar em público o inconsciente de incontáveis adolescentes brasileiras, mas já pareciam a essa altura coisa da década passada -, em 1972 Wanderlea desbundou maravilhosa: de black power loiro na capa, cantava o feminismo, Hyldon, Gil e Jorge Mautner (com direito a trejeitos bicha e tudo).


Leno e Lilian * Leno e Lilian [dl aqui]
Dois discos, sucesso, Devolva-me & Pobre Menina e quatro anos de carreiras solo depois, Leno e Lilian reencontraram-se para reinventarem-se de jovemguardistas naif a roqueiros-folkeiros setentistas melancólicos e semibregas, sob a batuta do então produtor Raul Seixas. E não é que as vozes sacarinas em uníssono funcionam na nova roupagem e o disco se torna um clássico esquecido do folk-pop brasileiro?


Arthur Verocai * Arthur Verocai [dl aqui]
Garoto prodígio da turma dos festivais que vinha se transformando em um dos arranjadores de ouro de sua geração, em 1972 Verocai ganhou passe livre da gravadora Continental para fazer um disco todo só seu, do jeito que quisesse. Com a experiência de diretor musical de um Ivan Lins imitando Tim Maia em começo de carreira e sob a influência de suas amizades mineiras, pirou total: solos jazzísticos, pegada funk, letras hippie de tom contemplativo e o primeiro sintetizador usado em um disco brasileiro. Demorou só 30 anos para as pessoas entenderem.

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

Entrevista: Paulo Cesar de Araújo



Duas semanas atrás Paulo Cesar de Araújo, autor do censurado Roberto Carlos em Detalhes, comemorou.

Como você certamente se lembra, há pouco mais de um ano Roberto entrou com dois processos criminais e um civil contra Paulo Cesar e a Editora Planeta porque não gostou de ver lançado o livro, que saiu no dia primeiro de dezembro de 2006. Em uma "audiência conciliatória" entre o cantor e seus advogados e Paulo Cesar e os advogados da Editora Planeta, o livro saiu proibido por um acordo em comum - ou foi o que pensamos na época. Pouco depois, Paulo Cesar contou: a audiência havia sido um show de horror, com o juiz fazendo ameaças a ele e tietagens pra cima de Roberto.

E agora, um ano depois, Paulo Cesar teve sua primeira pequena vitória nessa briga de Davi contra Golias: na vara cível, a juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros tirou a razão de Roberto Carlos. Eu aproveitei a história toda para conversar com Paulo Cesar, descobrir mais detalhes e saber em que pé anda tudo.

O que significa, na prática, essa nova sentença da juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros? Há chances do livro voltar às lojas? A Planeta está disposta a comprar a briga?

O livro continua proibido, mas a juíza deu mais munição para eu continuar na luta porque afirmou que Roberto Carlos não tem razão nesse processo. Invasão de privacidade, uso indevido de imagem, exploração comercial de seu nome – de nada disso pode ser acusado o livro "Roberto Carlos em Detalhes". Ao contrário de juizes anteriores, que se valeram de regras gerais para julgar um caso especifico, a magistrada analisou esta biografia na sua especificidade. Ela argumentou, por exemplo, que a "obsessão compulsiva de tudo controlar sobre si mesmo" não pode se sobrepor ao "direito democrático constitucional de informação", especialmente "se a pessoa é pública e a informação verdadeira". Enfim, ficou claro agora que o livro está amparado pela legislação do país. Isto, inclusive, já tinha sido enfatizado por juristas e advogados como, por exemplo, o ex-ministro Saulo Ramos. Mas desta vez é a palavra de uma juíza titular que trabalhou no caso, analisou os autos e proferiu a sentença. Por tudo isso, vou continuar lutando para trazer o livro de volta. Já a Editora Planeta não quer saber de briga com Roberto Carlos. Portanto, estou agora sozinho nesta luta.

Como você se lembra hoje da audiência de reconciliação em abril de 2007 em que o juiz e compositor Tércio Pires entregou um CD a Roberto Carlos, na qual o "contexto era desfavorável" a vocês e da qual o livro saiu proibido?

Aquele foi talvez o pior momento da minha vida. Vi um trabalho de quinze anos ser destruído numa reunião de cinco horas. O mais grave não foi o juiz dar o CD a Roberto e depois tirar fotos com ele. O pior foram as ameaças. Por duas vezes o juiz disse que poderia mandar fechar a Editora Planeta. Isto assustou os diretores da empresa. O juiz e os promotores também enfatizaram os riscos de carregarmos um processo criminal nas costas. Enfim, o que seria uma "audiência de conciliação" acabou se tornando uma "audiência de condenação".

A propósito, você acha que Roberto ouviu o CD do juiz cantor?

Acho que Roberto Carlos ouviu sim e depois deve ter manifestado sua opinião ao juiz, pois ele fez este pedido ao cantor. "Roberto, por favor, ouça este disco e dê a sua opinião sincera. Este é o meu primeiro CD, já estou gravando agora um segundo, e gostaria muito de ouvir a sua opinião".

Você sente que o comportamento do juiz foi pontual ou é representativo da justiça brasileira?

O comportamento deste juiz foi apenas mais um exemplo do que freqüentemente acontece no Brasil. A lei é para todos, mas a interpretação que a Justiça faz da lei é, na maioria das vezes, favorável aos mais poderosos e influentes.

Olhando em retrospecto hoje todas as reportagens, opiniões, colunas, editoriais e notas sobre a censura do livro, considera que a imprensa tratou bem toda a história?

De maneira geral o tratamento foi bom, pois houve uma ênfase no direito à liberdade de expressão. A lamentar o fato de que a maioria daqueles que escreveram sobre o caso não leu o livro e enfatizou apenas aquilo que seriam as reclamações de Roberto Carlos: o caso Maysa, a morte de Maria Rita, o acidente na infância. Isto deu ao público a falsa impressão de que o livro fala somente da vida pessoal do artista. Entretanto, como você observou bem na crítica que escreveu na Folha, "Roberto Carlos em detalhes" é muito mais do que isso. O livro traz milhares de informações sobre Roberto Carlos e a música brasileira, redimensiona a obra do cantor, situando-o em momentos cruciais, tais como na era do rádio, na eclosão da bossa nova e depois no tropicalismo.

Depois de todo o auê - positivo e negativo - da novela Roberto Carlos em Detalhes, futuras biografias correm risco, Roberto abriu precedentes perigosos?

É um precedente perigosíssimo, porque se valer para os outros o que está valendo para Roberto Carlos ninguém mais poderá escrever a história do Brasil. Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, é um personagem da nossa história e também poderá impedir que alguém escreva sobre ele usando os mesmos argumentos de Roberto Carlos: "Minha história é um patrimônio meu, eu é que tenho que escrever a minha biografia, não autorizei o uso de imagem, estão invadindo a minha privacidade...". Por outro lado, este caso foi tão absurdo que chamou a atenção para as brechas da lei que dão respaldo a isso. O deputado Antônio Palocci apresentou agora no Congresso Nacional um projeto de lei favorável a publicação de biografias não-autorizadas no Brasil. E estou otimista porque este é um projeto apoiado pelo poder econômico, as editoras. Não acredito na formação de uma bancada antibiografias. Ou seja, de precedente perigosíssimo, esta minha polêmica com Roberto Carlos poderá resultar numa mudança da lei que favoreça a liberdade de expressão e o direito à informação.

E, afinal, até agora você chegou a ouvir algo diretamente do Roberto? Sabe se ele leu o livro ou se continua sabendo de tudo apenas pelos resumos adulterados do advogado Marco Antonio Bezerra Campos?

Se Roberto Carlos tivesse lido meu livro jamais teria me processado. Mas como analiso naquele capítulo "Roberto Carlos e a política", ele não tem mesmo o hábito de ler; prefere ver televisão, especialmente novelas e programas tipo Big Brother. O próprio advogado dele, Marco Antônio Campos, confirmou numa entrevista, dias depois do acordo, que o cantor não leu o livro. "Nas primeiras reuniões, fizemos um resumo para ele. Depois ele leu alguns trechos, só".

Marcadores: , ,

Emilinha ou Marlene?


Continuando a série Achando Vídeos Inacreditáveis no YouTube, mais um momento incrível da música brasileira em imagens: Roberto e Caetano conversando sobre as músicas que mais gostavam quando crianças e cantando juntos uma das canções mais lindas que Caetano já escreveu e que Roberto já cantou: "Como dois e dois". Música que o Caetano fez doída quando ainda estava no exílio e deu pro Roberto e pra Gal cantarem em seus discos de 1971, igualmente clássicos - este e este. E música que Caetano recuperou recentemente pros seus shows, na mesma onda de descolização que gerou o .

quando você me ouvir cantar
venha, não creia, eu não corro perigo
digo, não digo, não ligo, deixo no ar
eu sigo apenas porque eu gosto de cantar

tudo vai mal, tudo
tudo é igual quando eu canto e sou mudo
mas eu não minto, não minto, estou longe e perto
sinto alegrias tristezas e brinco

meu amor
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

quando você me ouvir chorar
tente, não cante, não conte, não cante comigo
falo, não calo, não falo, deixo sangrar
algumas lágrimas bastam pra consolar

tudo vai mal, tudo
tudo mudou não me iludo e contudo
é mesma porta sem trinco, o mesmo teto
e a mesma lua a furar nosso zinco

meu amor
tudo em volta está deserto, tudo certo
tudo certo como dois e dois são cinco

Marcadores: , , ,

Isso não, Roberto



Já leu esse texto que saiu ontem no JB sobre o Robertão e a censura e Deus, escrito pelo cientista político Carlos Sávio Teixeira?

A rigor, se ninguém pudesse contar a história do outro, a Bíblia jamais teria sido possível. Mateus, Marcos, Lucas e João, por exemplo, não teriam escrito os Evangelhos, pois não consta que Cristo tenha lhes dado autorização. A história de Jesus Cristo é talvez a maior biografia não autorizada até hoje já escrita.

Entretanto, mais realista do que o próprio Deus, o rei não tolerou a existência de Roberto Carlos em Detalhes e, sem ao menos ter lido, pediu sua proibição.


*

De minha parte, devo dizer que ainda penso exatamente como escrevi nessa matéria na Folha no fim de 2006: o que falta a Roberto é a humildade e o senso de realidade que só um "não" pode trazer.


Roberto Carlos não é um artista sofisticado. Com seu enorme talento pop, ele sabe, sim, utilizar sofisticação para criar canções, assim como também não hesita em recorrer ao mais deslavadamente popularesco.

Sua voz, sua interpretação, seus trejeitos, sua personalidade, sua persona já viraram uma marca maior do que ele mesmo, maior que a vida. Tradições viraram rotina, rotinas viraram costumes, costumes viraram manias. Fugir disso é risco -e riscos são riscos, afinal. Mas são também crescimento artístico.

É inevitável a qualquer artista de seu porte estar cercado de assessores, amigos, fãs, músicos, críticos que só lhe dizem "sim". A responsabilidade de dizer "isso não, Roberto" só cabe a ele mesmo e à sua consciência.

Qual seria o efeito de alguém contar a ele que dizer que Jota Quest é "a grande banda de rock do Brasil" e cantar "Além do Horizonte" com a ponte alterada da negativa para a afirmativa é algo tremendamente constrangedor? Ou avisar a ele que repetir demais palavras como "emoção", "alegria", "amigos" e "ternura" fazem as palavras perderem o efeito e se tornarem apenas bordões vazios?

Marcadores: ,


Busca


[All your base are belong to us]

Evangelista Jornalista
Investigações Artísticas

*Anos Vinte







@evansoundsystem



Feed!



© 2001-2010 Ronaldo Evangelista