RONALDOEVANGELISTA


Teatro Bandeirantes, 1974

Mil novecentos e sessenta e oito, os programas musicais são o Faustão e Gugu de seu tempo. A TV Record tem o Teatro Record, a Tupi aluga o Cine Ritz, ambos na rua da Consolação. Bombam na audiência programas de auditório, especiais ao vivo, Jovem Guarda, Fino da Bossa. A TV Bandeirantes, inaugurada um ano antes, não quer ficar pra trás e compra o Cine Arlequim, na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, para acolher a música popular brasileira. Seis anos depois, 1974, quando naquele lugar o Teatro Bandeirantes é finalmente inaugurado, as coisas já não as mesmas. Os jovens artistas dos programas de TV já são superstars, a sigla-gênero MPB já virou commodity, todas as gravadoras, empresários, teatros, tevês já aprenderam a ganhar dinheiro e capitalizar tatuando os artistas no status quo.

Aí, seguindo de leve o modelo do mega-happening Phono 73, organizado 15 meses antes pela Phonogram (ex-Philips, futura Universal), a Bandeirantes organiza um supershow de inauguração de seu novo teatro, no dia 12 de agosto de 74, com apresentações de Rita Lee, Tim Maia, Elis Regina, Chico Buarque e Maria Bethânia, tudo na seqüência devidamente transformado em especial de TV. Exibido, arquivado e nunca lançado comercialmente - mas pirateado já em VHSs entre interessados, desde muito antes da internet.

Hoje o Teatro Bandeirantes virou igreja evangélica, os artistas ainda vivos viraram uns chatos e todas as redes de TV brasileiras se afogam na própria caretice.

Pelo menos temos o YouTube.



Depois da apresentação de dois minutos, Rita Lee surge toda glam no palco escuro para cantar "Mamãe Natureza" acompanhada do Tutti-Frutti e, entre solos de guitarra, até toca um clavinete.



Ainda na frente do clavinete, Rita saca uma flauta e manda ver num solo, antes de dar o boa-noite e voltar a atacar as teclas e o microfone em "Pé de meia". (Outra do maravilhoso "Atrás do Porto Tem uma Cidade", primeiro disco seu com o Tutti-Frutti, do mesmo ano do show.)



Os riffs marcados, o clavinete nervoso, os solos intensos, o visu estáile: é Rita cantando "De pés no chão" toda ruiva no cabelo e na boca. Ela nem curtia Bowie, diz aí.



Saem os riffs, entram os grooves; sai Rita, entra Tim. Acompanhado da Seroma Band, esbanjando estilo no seu terno preto e camisa rosa de cetim, Tim Maia inventa o funk brasileiro e canta "Réu confesso", vai emendando improvs em inglês e já tira da cartola "Primavera". Sem perder o fôlego, ainda manda um "Azul da cor do mar".



Só se for agora. Tim, em seu melhor momento, apresenta a banda, dividida em quatro partes (teclados, cordas, ritmo e sopro), antes de transarem uma música inédita sobre um livro que ele anda lendo, chamado "Universo em Desencanto". É "Que beleza", já obra-prima, cinco meses antes de ser lançada no primeiro Tim Maia Racional. Pra completar o momento, ainda vem um "Gostava tanto de você". Muito obrigado, estamos aí.



Sentindo cada palavra de cada frase de cada música, como lhe era habitual, Elis Regina sobe ao palco acompanhada do quinteto do genial pianista Cesar Camargo Mariano (com quem se casou no mesmo 1974), e canta "Conversando no bar". Ao mesmo tempo, vai inventando o comportamento e o gosto de toda uma geração (e mais) de artistas e mulheres brasileiras.



Como para Elis emoção pouca é bobagem, ela já emenda "Travessia" com tudo que tem no peito e na voz, acompanhada de Cesar Mariano, seu piano elétrico, seu bigode e arranjo épico. Depois de aplausos e mais aplausos, muito justo, ainda leva o sambinha "Feiticeiro Negro".



Em ritmo de dança, coração batendo mais que bongô, Elis canta "Dois pra lá, dois pra cá", com trechinho do bolero "La puerta" no final. E manda na seqüência um Tom Jobim, "Triste", compositor que até outro dia ela rejeitava grandemente - mas com quem neste 1974 dividiu disco histórico.



Sem deixar cair, outro Tom Jobim: "Só tinha de ser com você", com timbre lindo de piano elétrico e Elis com sua famosa voz-de-sorriso. E pra quem ainda não chorou ou morreu de emoção na platéia, Elis dá outra chance e oferece "Pois é", de Tom com Chico Buarque - que no final chega de mansinho e canta lindamente, observado por ela.



Agora dominando o palco com seus amigos do MPB4 em momento cheio de arranjos elétricos incríveis, Chico já sai assobiando contra a ditadura, antes de mandar "Cotidiano" e "Baioque", thank you. Clave, piano elétrico, violão, microfonia e o estamos seguindo em "Você vai me seguir".



Hoje com a função extra de ativar a memória de todo mundo que tanto ouviu a gravação ao vivo de "Jorge Maravilha", Chico canta a canção pra todas as filhas e ainda conta marotamente a história tão-verdadeira-que-é-falsa do compositor Julinho da Adelaide e sua vida no morro da Rocinha, com sua companheira Jurema. Pro arremate, manda a sempre linda "Tatuagem".



Todo setenta de calça marrom e jaqueta jeans, Chico convida as donzelas para um pecado safado debaixo do cobertor, em "Não existe pecado ao sul do Equador". No fundo um sentimental, ele ameaça um "Cala a boca, Bárbara", mas vai mesmo é de "Tira as mãos de mim". Ou melhor, Maria Bethânia vai, surgindo no palco de surpresa e intensamente, pra cantar com voz de trovão sentimental.

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2 Responses to “Teatro Bandeirantes, 1974”

  1. # Blogger Fernanda Couto

    lindos os vídeos.temos que armar um show desses um dia com todos nossos cantores e cantoras lindos e talentosos. tipo no auditório ibirapuera. imagina? vamo armá?  

  2. # Blogger thiago

    Oi Ronaldo. Esses seus posts são fenomenais. Organizar tudo isso na barafunda do youtube... parabéns!

    E faço uma correção. não existe o samba 'feiticeiro negro'. O nome da canção é mestre sala dos mares, do joão bosco.  

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