RONALDOEVANGELISTA


palaver, him dey find




Quando o gato dorme, o rato morde o rabo dele. Quando o problema dorme, alguém vai acordá-lo. A melhor música de Fela Kuti? Duas versões, dica de Carlos Moore.

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a empregada arranjou outro patrão, o sapato já furou, o vestido envelheceu



Não há nada igual às interpretações de Aracy de Almeida nos anos 30 e 40 de sambas de Wilson Batista, Noel Rosa, Geraldo Pereira, Babaú, Bucy Moreira, Ataulfo Alves. § Vivendo o imaginário do(a) sambista brasileiro(a), cantando a tristeza sensual, o suingue altamente dolente, choranda a cada sílaba, Aracy, grande Aracy, interpretando brilhantemente como uma nossa Billie, Piaf, incomparável. § De Wilson Batista, com seu parceiro imbatível Marino Pinto, "Oh! Dona Inês", sublime, play aqui.

eu já mandei bilhete, eu já mandei recado
até meu samba serviu-me de advogado
sempre a mesma resposta que até já sei de cor
ele mandou me dizer oh dona inês viver sozinho é melhor

quatro meses já passaram que eu não vejo meu joão
a empregada foi embora, arranjou outro patrão
meu sapato já furou, meu vestido envelheceu
ele não sabe até hoje o amor que perdeu

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Aricia Mess canta Clariô (com Leo Cavalcanti)



Eram passos cansados de dançar a mesma dança, de repente Gal Costa gravou o delicioso "Clariô", de Péricles Cavalcanti, em 1977. E aí Arícia Mess em seu último disco sacou o som, secou o reggae e chamou para levar junto sua bela voz Leo Cavalcanti, filho aliás do autor. Para o vídeo, imagens da época de Péricles em Londres, começo dos 70, de quando Portobello Road era centro e tema de músicos brasileiros por lá.

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Luisa Maita canta A Vontade



Grande prova de uma música é ganhar gravações diferentes e só crescer como canção, grande prova de um intérprete é cantar o que já existe e acrescentar sua magia própria. Groove legal o de Luisa Maita nessa versão que tem feito de "A Vontade", superstar-título do recente disco de Bruno Morais. A vontade, destino e senhor, sem medo e sem crase.

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Mariana Aydar canta Galope Rasante



Que "Galope Rasante" é uma música poderosíssima você já sabia. Mas que rendia uma versão boa assim hoje em dia, seria no máximo esperançoso. Em sua versão original na voz de Amelinha, em 79, a composição de Zé Ramalho já tinha no mínimo um intensidade hipnótica e a melhor bateria do mundo. Nessa nova versão na voz de Mariana Aydar (com Gui Held, Serginho Carvalho, Duani, Guilherme Ribeiro), ganhou uma autocombustão extra nas dinâmicas, botando um gosto afrobeat no sertão. É noite que vai chegar, é claro, é de manhã.

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Noturno em azul e ouro

Com suas improvisações e arranjos urbanos e sofisticados, cool e intensos, eruditos e melódicos, o Nouvelle Cuisine (depois só Nouvelle) foi a grande banda de jazz paulista do fim dos anos 80/começo dos 90. Luca Raele, Guga Stroeter, Mauricio Tagliari, Carlos Fernando (e Flávio Mancini), então jovens virtuosi de alto apuro, tocando o mais fino e elegante do jazz acústico, em eras pós-fusion de experimentações mil.

O primeiro disco, de 1988 (pela Warner, produzido pelo Pena), tinha um capricho tão grande que trazia longas notas sobre cada faixa (provavelmente escritas por Carlos Fernando), explicando as referências, influências, intenções, história por trás da interpretação de cada composição. Como a contemplativa "Chelsea Bridge", de Billy Strayhorn, famoso parceiro de Duke Ellington, pelo Nouvelle em versão Tonalista de alto calibre, de scat singing mais orquestra; inspiração pro original, trecho das notas e play abaixo.





Se Debussy tratava a Música como arte visual, havia um pintor, americano, que compunha imagens e concebia a Pintura como Música: James Abbott McNeill Whistler (1834 . 1903). Ambos, aliás, admiravam-se mutuamente.

Uma certa vista do Tâmisa, pintada por ele ("Noturno em azul e ouro") viria, 76 anos depois, a causar profunda impressão em Billy Strayhorn, que nela se basearia para compor "Chelsea Bridge". Houve um engano no título, apenas, quanto à ponte que figura no quadro (Old Battersea Bridge), talvez devido ao fato de Whistler ter sido tão ligado ao bairro londrino de Chelsea, onde viveu.

Procuramos também partir da pintura, para captar o "clima" fluído e misterioso do tema e dar-lhe a moldura perfeita.

Certa vez, Whistler reuniu seus amigos (e inimigos) para uma famosa palestra, em que expôs seus conceitos estéticos. Num trecho ele dizia:

"E quando a névoa noturna veste de poesia as margens do rio, como um véu, e os pobres prédios se abandonam ao céu sombrio, as altas chaminés tornam-se campanários e os depósitos são palácios na noite, e toda a cidade está suspensa no ar: uma terra encantada diante de nós; aí o transeunte se apressa de volta ao lar. O operário e o homem culto, o sábio e o ocioso cessam de compreender - como cessaram de ver - e a Natureza, que, por uma vez, cantou no tom, canta sua primorosa canção para o artista apenas, seu filho e seu mestre. Seu filho, pois a ama, seu mestre, pois a conhece."

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Esteja cá já



As ondas do mar, a praia, o vôo dos pássaros. Silêncio e som, solidão e companhia, tudo é tanto amor. Caetano Veloso empresta a composição, o andamento e clima, segunda do lado B do primeiro disco de Fafá de Belém, 1976, arranjo de Wagner Tiso. A descrição contemplativa da natureza e dos reflexos sensíveis interiores dimensionam o horizonte dos sons de violão, baixo, bateria, oboé, violoncelos, pulos de compassos, passeios por tons, beleza quase etérea mas com os pés sentindo o chão. Não muito longe das vozes de hoje de Céu com Beto Villares, Cibelle, Mariana Aydar. "Cá já", música de suspiro, música do tamanho do mundo de fora e de dentro, definitivamente a melhor música do mundo, praticamente um doce de cajá.



Vejo que areia linda brilhando cada grão
Graças do sol ainda vibram pelo chão
Vejo que a água deixa as cores de outra cor
Volta pra si sem queixa, tudo é tanto amor

Esteja cá já
Pedra, vida, flor, seja cá já
Esteja cá já
Tempo, bicho, doce, jaca já
Doce já cá já
Jandaia aqui agora

Ouço que tempo imenso dentro de cada som
Música que não penso, pássaro tão bom
Ouço que vento, vento, ondas, asas, capim
Momento, movimento, sempre agora em mim

Esteja cá já
Pedra, vida, flor, seja cá já
Esteja cá já
Tempo, bicho, doce, jaca já
Doce já cá já
Jandaia aqui agora

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desengano da vista é ver de perto





As coisas especiais vivem como que suspensas em seu próprio tempo e espaço. A força das grandes ideias e expressões artísticas é passar a existir, independente de. Em 1968, produzido por Hélcio Milito, baterista do Tamba Trio, Pedro Santos, Sorongo, mergulhou nos pensamentos e sons que tinha dentro de si e criou a obra-prima Krishnanda - única em seu estilo, gênero, abordagem, musicalidade, sonoridade, espiritualidade, filosofia. Em 2010, a galera inspirada do Bixiga 70 mergulhou em Pedro Santos e recuperou "Desengano da vista", em profundo arranjo afro. Plays acima, versão original Krishnanda 68 e Bixiga ao vivo duas vezes semana passada: sábado na Voodood Hop, prédio do antigo Masp, e quarta no Astronete, em versão redux. Vaidade, todo mundo tem.

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tendo isso tudo eu não preciso de mais nada, é claro



Em 1955, Johnny Alf gravou um 78 RPM com seu trio e provocou uma pequena comoção entre alguns bem aventurados: "Rapaz de bem", um samba descolado tocado como se fosse o King Cole Trio, com melodia muito particular e interpretação à Sarah Vaughan, como um Dick Farney menos almofadinha, com a sensibilidade à flor da pele, endiabrado mas suave. A letra, esperta e com o leve hedonismo jovem dos antigos sambas de Noel, Custódio, Geraldo, Carmen, somado com a sofisticação consciente de Gershwin e do jazz dos anos 50. Aquilo invadiu o inconsciente coletivo de toda a bossa nova e foi essencial na equação construída sobre as bases de Tom e João mas, como eles e Donato, existe à parte.



você bem sabe eu sou um rapaz de bem
e a minha onda é do vai e vem
pois com as pessoas que eu bem tratar
eu qualquer dia posso me arrumar
vê se mora

no meu preparo intelectual
é o trabalho a pior moral
não sendo a minha apresentação
o meu dinheiro só de arrumação

eu tenho casa, tenho comida
não passo fome, graças a Deus
e no esporte eu sou de morte
tendo isso tudo eu não preciso de mais nada
é claro

se a luz do sol vem me trazer calor
e a luz da lua vem trazer amor
tudo de graça a natureza dá
pra que que eu quero trabalhar?

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Baseado





No começo de tudo era o choro. Não somente pelas primeiras acusações de influência do jazz a Pixinguinha, mas simplesmente porque o choro era por excelência e apuração a linguagem de improvisação brasileira - enquanto o jazz de orquestras, pré-bebop, era apenas um gênero. Algumas das melhores faixas dos discos de orquestras brasileiras nos anos 50 são os choros, como em discos da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, de Recife. Ou Moacir Santos, que em 1953 escreveu o choro "É você, Kuntz?", em homenagem ao clarinetista e saxofonista Kuntz Naegelle, maestro e mestre dos instrumentos, vindo das orquestras de cassinos cariocas nos anos 40 até o auge do samba-jazz paulista nos 60. Em 1947, logo após o fim dos cassinos, Kuntz criou ao lado do irmão também saxofonista Quincas a pequena grande orquestra Os Copacabana, que se orgulhava dos big sons que tirava com apenas oito músicos, formação ideal para boites. No LP de dez polegadas que Os Copacabana lançaram em 1955, com capa estilosa à jazz em tom vermelho, Vadico ao piano e já imbuindo no inconsciente a idéia do bairro carioca como meca de modernos instrumentistas brasileiros, talvez o ponto alto seja o choro "Baseado" (de Kuntz e Edison Marinho), levado por clarinete lírico e piano expressionista. É fato, até a bossa nova abrir a porteira conceitual para uma música brasileira auto-consciente e deliberadamente pra frente, os melhores momentos de desenvolvimento de arranjos, performance pessoal, interação musical estavam nos choros dos discos de orquestras.

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Cigano no Baião



Alguém por favor mostra isso pro Andrew Bird. Fafá Lemos é o cara.

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bambo que nem mulambo



Ary Barroso, Sergio Porto, Aurélio Buarque de Holanda são três que notoriamente se emocionaram com a voz de beleza sobrenatural e profundidade barítona de José Tobias - cantor pernambucano que entre 1950 e 1961 fez o percurso das rádios Jornal do Commercio, no Recife, Tupi, no Rio de Janeiro, e Record, em São Paulo, onde fixou residência pelo resto da década. Em 1963 e 1965 lançou seus álbuns mais famosos - mas ainda bem raros -, pela Audio Fidelity e sua sucessora, Som/Maior. Antes disso, 61 ou 62, entrou no estúdio da Magisom (de jingles como "Quem bate? É o frio"), na Galeria Califórnia, na Barão de Itapetininga, para gravar o samba-jongo afro-brasileiro "Cafuné" (lançado originalmente por Aracy de Almeida, 78 rpm, 1955), de Denis Brean e Gilberto Martins, arranjo do maestro Hector Lagna Fietta, play abaixo.



Quero um copo d’água, nega, e um café
Quero que você me faça um cafuné

Sinto uma saudade louca de você
Quero nos seus braços, nega, adormecer

O seu jeitinho de fazer carinho, nega, me faz enlouquecer de prazer
E me deixa ficar todo bambo, todo bambo bambo bambo que nem mulambo

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Eles estão surdos!










Em 1969, Roberto Carlos estava em plena fase soul: ouvia James Brown, gravava Tim Maia, aprendia a cantar temperando a doçura com agressividade e tinha planos de compor uma música chamada "Eu Queria Ser Negro". Pela mesma época, começava a descobrir a fé como inspiração: compôs "Jesus Cristo", tão deslavadamente gospel que só funcionou na gravação quando chamaram para o piano Dom Salvador, depois de muitos outros tentarem e não atingirem o ponto certo de ebulição. Não era coincidência: pouco depois Salvador estaria dando um tempo no samba-jazz pra montar a Banda Abolição, primeira grande formação de consciência negra na música brasileira pop setentista.

Roberto também continuou interessado naquele som, e em como a catarse do funk atingia outros níveis ligado à força da fé. Em seu disco de 1971, lançou sua segunda - e ainda melhor - música funk-gospel, "Todos Estão Surdos". Sem precisar citar o nome do protagonista, que já tinha sido título e refrão na homenagem anterior, o discurso mistura o sonho de John Lennon e os cachos de Caetano, o hippiesmo zen de Erasmo e o fervor religioso do negro gospel americano pra dizer uma simples verdade universal: todo homem traz a paz dentro de si, mas poucos olham pra ela.

Universal não é só modo de dizer: no play acima, duas versões estrangeiras de "Todos Estão Surdos": pelo cantor porto-riquenho Danny Rivera, que aliás também gravou "Jesus Cristo", e pela banda de estúdio francesa April Orchestra, library music. Enquanto o primeiro faz versão fiel, em castelhano, até da parte falada, a segunda exclui as palavras e os autores e adiciona coro feminino e ainda assina a autoria nos créditos do LP.

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like the waves go crushing in the sea

"Sonho de lugar" em 1966 no disco da Eliana Pittman, "She told me, she told me" em 1967 no álbum americano do Marcos Valle, autor. A letra meio besta, ingenuamente ufanista e superficialmente social do irmão, Paulo Sergio, dá lugar a um poeminha em inglês igualmente besta mas de grande singeleza de Ray Gilbert, com encaixe especial à melodia fluida de Marcos e perfeito para os vocais em contraponto com sua então esposa Anamaria. O solo de marimba do arranjo original de Ivan Paulo no disco da Eliana cede lugar ao som cheio de um piano no arranjo de Eumir Deodato no disco de Marcos, mas ainda com a mesma delicadeza.

"Samba '68", do Marcos Valle, pela Verve, lançado agora pela primeira vez em edição nacional, em CD, da Dubas. "She told me" é o melhor momento, mas não é a única pérola: "Chup chup, I got away" ("Gente") e "Crickets sing for Anamaria" ("Os Grilos") têm charme extra nas letras em inglês, "The Face I Love" ("Seu encanto") é especialmente doce e "The Answer" ("A resposta") ganha ao falar de amor ao invés de justificar alienação.






Quem só conhece e que mora na beira do mar
E que tem sempre sol, sempre luz
Nem liga pra nada mais, não sabe do mal que faz

Nem todo mundo é somente essa gente
Que anda queimada de sol e de sal
É isso que eu vou mostrar cantando o que vou contar

Eu nasci num sonho de lugar
Para crer só mesmo indo lá
Tem um trem que passa devagar
Com um sino tocando, segue o trem apitando

E se é domingo a gente namora na praça
só vendo a luz do luar
Enquanto num violão alguém faz da paz canção






Somebody told me she loves me, she loves me, she told me
She told me and that's how I know
Just wait till you see her face, I'll bet even yours will glow

I could say bela or say que beleza to praise her
But tell me what good will it do
Just wait till you see her smile, you just won't believe it's true

Like the sound of thunder in the sky
Like the waves go crushing in the sea
That's the way her love affected me
And you'd feel as I do if you knew what I know

Somebody told me she loves me, she loves me, she told me
She told me, how lucky for me
To look at delicious you and know that it's all for me

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Eliana Pittman - Maria Joana



Bem mais alta que a pôça na rua que reflete a imagem da lua, Eliana Pittman faz apologia a Erasmo Carlos logo na seqüência do clássico Carlos, Erasmo, de onde vinha a original dessa "Maria Joana", sobre a companheira de todas as horas das melhores fases hippies. De um compacto da Odeon, 1971 no selo, 1972 na capa.



Só ela me trás beleza nesse mundo de incerteza
Eu quero fugir mas não posso, esse mundo inteirinho é só nosso
Eu quero Maria Joana, eu quero Maria Joana

Eu vejo a imagem da Lua refletida na poça da rua
E penso da minha janela, eu estou bem mais alto que ela
Eu quero Maria Joana, eu quero Maria Joana

Eu sei que na vida tudo passa
O amor vem como nuvem de fumaça

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sina viageira

Exceção citada no título do clássico disco "Onze Sambas e Uma Capoeira", a "Capoeira do Arnaldo" é obra-prima entre obras-primas de Paulo Vanzolini, zoólogo, sambista, paulista. Talvez o que mais seduza no sambas (e capoeira) bem construídos, diretos e bem-humorados, sensíveis e espertos, afirmativos mas doces de Vanzolini seja a mesma concentração, detalhismo, paixão e dedicação que pressupõe-se necessitar para estudar a biologia de répteis. Perfeita é a construção, melodia, cadência, o humor, as rimas e epifanias da história em primeira pessoa de Arnaldo, cantada por Luiz Carlos Paraná, exceção do título do clássico disco etc.



Quando eu vim da minha terra passei na enchente nadando
Passei frio, passei fome, passei dez dias chorando
Por saber que de tua vida pra sempre estava passando
Nos passo desse calvário tinha ninguém me ajudando
Tava como um passarinho perdido fora do bando

Vamo-nos embora ê ê, vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora ê ê, presse mundo afora, camará

Quando eu vim da minha terra, veja o que eu deixei pra trás
Cinco noivas sem marido, sete crianças sem pai
Doze santos sem milagre, quinze suspiros sem ai
Trinta marido contente me perguntando, "já vai?"
E o padre dizendo às beata, "milagre custa, mas sai"

Vamo-nos embora ê ê, vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora ê ê, presse mundo afora, camará

Quando eu vim da minha terra num sabia o que é sobrosso
Sabença de burro velho, coragem de tigre moço
Oração de fechar corpo pendurada no pescoço
Rifle do papo-amarelo, peixeira cabo de osso
Medalha de Padre Ciço e rosário de caroço
Pra me alisar pêlo fino e arrepiar pêlo grosso
Que eu saí da minha terra sem cisma, susto ou sobrosso

Vamo-nos embora ê ê, vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora ê ê, presse mundo afora, camará

Quando eu vim da minha terra, vim fazendo tropelia
Nos lugar onde eu passava estrada ficava vazia
Quem vinha vindo, voltava, quem ia indo, não ia
Quem tinha negócio urgente deixava pro outro dia
Padre largava da missa, onça largava da cria
E os pai de moça donzela mudava de freguesia
Mas tinha que fazer força porque as moça num queria

Vamo-nos embora ê ê, vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora ê ê, presse mundo afora, camará

Eu saí da minha terra por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem eu vivi uma vida inteira
Saí bravo, cheguei manso, macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra, me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito e nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo quem paga é segunda-feira

Vamo-nos embora ê ê, vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora ê ê, presse mundo afora, camará

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choro nem vela



A compulsão de caçar discos, buscar faixas, dissecar fichas técnicas tem sua cota de recompensas, mas é de se emocionar ouvir uma música assim, de Noel, com um arranjo desses, de Vadico, cantada desse jeito, pela Aracy. Se existe alma, se há outra encarnação, eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão. De um dez polegadas de arrepiar, escavado em Pinheiros. Volume dois daquele que você conhece, com capa do Di Cavalcanti. "Fita Amarela", de Noel Rosa, com Aracy de Almeida, arranjo de Vadico; play logo abaixo ou versão nuvem, aqui.



Quando eu morrer não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei nada a ninguém

Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim

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jogo de Angola



Tirando uma prateleira com seleção nem tão boa, todo o andar de cima daquele sebo em Pinheiros estava com discos a um real. Tinha uma hora e meia a perder, fui fuçando e saí feliz: um Santana tocando Coltrane, orquestra tango old school, Kris e Cristina, Armando no solovox, Tarancón com capa do Julio Cesar e pelo menos dois com encartes que dão quadros lindos.

Mas de cara, sacando a capa modernista do LP A Enluarada Elizeth, senti que o dia era dele. Já gosto da Eizeth quando ela canta toda velha guarda, mas assim, toda cool, delícia de surpresa. E já gosto do Gaya quando nem gosto tanto, mas com esses arranjos de sopro ousados, puxados pro afro-samba-jazz, Lindolfo subiu no conceito.

Chamou atenção ela cantar o afro-samba "Canto de Pedra Preta", de Baden e Vinicius, "Demais", do Tom Jobim, à capela, e duas do Pixinguinha com participação do próprio. Mas a melhor música do mundo é a primeira do lado B, "Capoeira Três", canto de capoeira com participação do canto e do violão senhorial e cheio de ancestralidades do Mestre Codó da Bahia, mais o ataque de 5 saxofones, 3 pistons, 3 trombones, contrabaixo e ritmo, arranjados por Gaya, play abaixo:



joga o lenço, camará
tá na hora de brincar
berimbau está tocando
quero ver quem vai brigar

gente de bem não vai
se jogar capoeira, cai
gente de bem não vai
e se jogar capoeira, cai
cai, cai

nesse jogo de malandro
tem perigo, confusão
berimbau bem afinado
tem o som de violão

capoeira toma sentido
caboclo malandro no chão
nesse jogo de Angola quero ver quem é brigão
pegar lenço com a boca para ser o campeão

biriba é pau, é pau
é pau de fazer berimbau
biriba é pau
é pau de fazer berimbau

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Tabelou, driblou dois zagueiros



Muito hit essa versão da Tânia Maria pro "Fio Maravilha" do Jorge Ben, com inacreditável groove de piano e batera, voz, pegada de funk moderno.

Aqui, dá pra baixar coleta com faixas dos dois volumes Via Brasil, discos de 75/76, o primeiro com ela, play abaixo:

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Domingo Menino



E esse disco do Dominguinhos, 1976, Quem é Quem dele?

Saca o groove da sanfona do Domingo Menino Dominguinhos com Wagner Tiso no piano elétrico, Gil no violão, Toninho Horta na guitarra, Jackson do Pandeiro na percussão, et al, "Baião Violado", no play:

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