RONALDOEVANGELISTA


Futurível



Gil, intuitivamente (porque nunca ouviu nada do Macaco Bong antes), declarou depois do ensaio que o resultado sonoro era algo nem exatamente Gilberto Gil nem exatamente Macaco Bong. Acertou na mosca. A soma das partes está dando numa terceira coisa. “Cérebro Eletrônico” e “Essa É Pra Tocar No Rádio”, se não é sacrilégio dizer isso, estão saindo redescobertas e revalorizadas. E “Palco” ainda deve ganhar um saxofone (do saxofonista Marcelo Monteiro da banda deo DJ Tudo).

Alex Antunes comenta um momento do encontro de Gilberto Gil com Macaco Bong, mais aqui. No palco, o resultado desse ensaio hoje, Auditório Ibirapuera, sete da noite.

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Gilbertália



Maior legal esse Expresso 2222, coletânea de textos centrada no Gil (já na capa de tranças e atrás de um piano elétrico desfocado), mais ou menos no molde em que o poeta Waly Salomão organizou, pela editora Pedra Q Ronca, a Caetanave Alegria, Alegria. // Abaixo, só um trecho de entrevista a Vicente Tardin, Alfredo Herkenhoff e Paulo Macedo, em 1978, com Gil comentando Cassiano ("entre João Donato e João Gilberto"), explicando a cena Black Rio e a estética negro é lindo, contando que descobriu Bob Marley pela Melody Maker e considerando os sincronismos espaço-culturais, coincidências de necessidade histórica.

Voltando à música, muita gente tem falado - Caetano e Gal Costa, inclusive - de uma certa renovação na música brasileira por parte de Cassiano, que seria um compositor black, na falta de outra definição.

Eu falo também. Adoro. Assim como João Gilberto, Cassiano é um artista importante pela sua reclusão, pela sua especificidade e especialidade. É um cara difícil, isso tudo nele é um pouco misterioso e aureolado por uma coisa de grandeza. Sabe que sonha com algo impossível, mas não abre mão desse sonho, de um cantar magnífico.

Ele lembra um pouco o Stevie Wonder.

É claro. Cassiano quer introduzir na alma brasileira o cantar de um pássaro de lá, desse pássaro soul. Tanto que o disco dele chama-se Cuban Soul. Cassiano está João Donato e João Gilberto. É aquele encontro entre o samba de João e a rumba de João Donato, ele quer ser o encontro. Isso sou eu quem digo. Cassiano não deve nem cogitar dessas coisas. Talvez não saiba o que o Donato faz, o João Gilberto com certeza ele sabe. Ele quer trazer esse universo de Caribe e Harlem para a escola de samba, para o Brasil, para o Rio de Janeiro.

É meio impossível, não?

É o sonho. Tanto não é impossível que ele faz as músicas, canta desse jeito e acaba sendo isso, criando uma geração de discípulos como Dafé, Lady Zu, Melodia, tanta gente...

O Luís Melodia também?

É sim, embora também possa nem estar ligado. Tim Maia, Melodia, todo mundo nasce desse inconsciente coletivo do qual Cassiano representa a consciência. São esse tais sincronismos espaço-culturais, históricos. De repente tem sincronia. Eu me lembro de quando o Caetano na época deixou os cabelos crescerem, e passou a assumir todas aquelas atitudes ditas rebeldes, tudo parecia muito com Dylan, Beatles e tudo mais. No entanto, a informação que Caetano tinha desses fenômenos lá fora era muito pouca, era tudo coincidência de necessidade histórica, manifestação, avatarização, você esta entendendo? Coisas assim como por que uma pirâmide no Egito e outra no México? Por que cacau? Essas migrações difíceis da história. A germinação que é feita pelo fluxo das águas e dos raios solares. Por que tem cacau na África? Por que tem essas coisas lá e cá? As tais migrações culturais do planeta. Hoje em dia então, facilitados por todo o jogo de correntes do visual, do auditivo e do psiquismo, né? Mas na época tudo aquilo em Caetano aparecia como reflexo desse sincronismo, contemporaneamente às coisas de lá, com a mesma necessidade da época.

Eu lembro quando trancei o cabelo, há dois anos, eu tinha visto a capa de um disco do Stevie Wonder, onde ele tinha os cabelos trançados de uma maneira muito parecida com o jeito nagô de trançar o cabelo, aquelas coisas da África. Mas eu fiz minhas tranças mais soltas. E eu não sabia de nada. Quando estava em Curitiba, já na excursão dos Doces Bárbaros, uma semana antes de ser preso em Florianópolis, o Chiquinho comprou aquele jornal inglês Melody Maker, que tinha uma reportagem com o Bob Marley. Foi aí que eu fiquei sabendo: eu não conhecia o Bob Marley até então e nem sabia que eles usavam o cabelo daquela forma, os rastas. Então, fiquei pensando: veja que coisa estranha, de repente me dá na cabeça de trançar os cabelos aqui, não sei bem porque, por causa da oportunidade oferecida pelos Doces Bárbaros, um espaço aberto à liberdade de experimentar um tipo ou outro de roupa, coisas deste tipo. E eles lá, começando a fazer sucesso e por acaso usando o cabelo de forma parecida, ou com a mesma intenção lúdica de partir para outro enfoque, buscar uma outra estética pro chamado negro é lindo, por aí. Então essas sincronias no mundo contemporâneo se tornam cada vez mais interessantes porque se dão quase ao mesmo instante em todo lugar. Ao mesmo tempo o inconsciente ainda tem sua atuação. Não é tudo dado pela informação fria e gerada.

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organizando o movimento



Parece bem massa esse documentário sobre a final do III Festival da Record, o de "Alegria, Alegria", "Domingo no Parque", "Roda Viva", "Ponteio", o violão quebrado de Sérgio Ricardo, Roberto Carlos cantando samba, Caetano com os Beat Boys, Gil com os Mutantes. Partindo de um projeto de documentar toda a era dos festivais, o filme é Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, sobre momento de criação e cristalização de idéias ricas e clichês do que conhecemos hoje como música brasileira e de todo nosso comportamento cultural. A premiére é na abertura do É Tudo Verdade, na sexta, depois passa sábado e quinta que vem, entra em cartaz daqui uns meses.

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tudo é perigoso, divino, maravilhoso



Naquela época convivia com todo o ambiente tropicalista. Só falávamos dos movimentos novos que surgiam no mundo. Gil ouvia Hendrix o dia inteiro. Janis Joplin não saia da minha cabeça. Aquele som, aquele rasgo de voz foi me tomando de uma forma que criou em mim uma necessidade de fazer alguma coisa diferente do que eu acreditava, de tudo o que já fizera e de como eu entendia a música até então. Eu era muito radical, gostava de pouquíssima coisa. João era meu ídolo e nada, quase nada passava pela minha peneira. Não gostava de iê iê iê, nem da jovem guarda, de nada. Precisava fazer alguma coisa para me expressar, botar pra fora o que eu sentia, com força, atitude, e que, falando francamente, chamasse a atenção sobre mim.

Gil e Caetano, envolveram-se de corpo e alma com essas novas experiências da música popular brasileira. E dentre essas pesquisas me deparei com Divino Maravilhoso, uma canção que mexeu comigo. Caetano convidou-me para cantá-la no Festival da Record e Gil se propôs fazer o arranjo. Ele foi tão perspicaz que me perguntou como é que eu queria cantá-la. Expliquei que queria cantar de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira. Queria mostrar uma outra mulher que há em mim. Uma outra Gal além daquela que cantava quietinha num banquinho a bossa nova. Queria cantar explosivamente. Para fora. Gil fez então o arranjo para o Divino Maravilhoso.

Quando Caetano me viu pisar o palco cheia de penduricalhos e espelhinhos pendurados no meu pescoço, aquela cabeleira afro armada por Dedé, quase morreu de susto. Ele não sabia de nada. Não tinha escutado o arranjo do Gil, nada, nada. Cantei com toda a fúria e força que haviam em mim. Metade da platéia se levantou para vaiar. A outra metade aplaudiu ferozmente. Um homem na minha frente berrava insultos. Foi então que me veio ainda uma força maior que me atirou contra ele. Cantava diretamente para ele: É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte! Cantava com tanta força e tanta violência que o homenzinho foi se aquietando, se encolhendo, e sumiu dentro de si mesmo. Foi a primeira vez que senti o que era dominar uma platéia. E uma platéia enfurecida. Naquele tempo de polarização política, a música era a única forma de expressão. Despertava paixões, verdadeiras guerras. Saí do Divino Maravilhoso fortalecida, crescida. Acho que naquela noite entrei no palco adolescente, menina, e saí mulher. Sofrida, arrebentada, mas vitoriosa.


*

Gal, em 68 no Festival da Record, e aqui.

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Atenção para o refrão!



Em 1970, Gal dubla com chinfra e charme descabelado sem tempo de temer a morte. Hoje à noite, Leo canta com a Banda dos Contentes no penúltimo show do Conexões na Olido. "Divino, Maravilhoso", música de Gil&Caetano.

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que canta como que pra ninguém

Expressão e afirmação da juventude brasileira



O Estado de São Paulo, com 9 milhões de habitantes de menos de 25 anos de idade, é um dos centros de expressão e afirmação da juventude brasileira. Compositores populares, cantores, diretores e intérpretes de teatro e de cinema, escritores e artistas plásticos, projetam o seu nome por todo o país. E conquistam acesso aos meios de comunicação de massa, representados por uma rêde de nove estações de tevê, de noventa e uma estações de rádio, além de centenas de jornais e revistas. Quer se dediquem ao estudo, às técnicas de produção e aos diversos ramos da ciência moderna, quer se apliquem às atividades artísticas, os moços encontram em São Paulo um ambiente estimulante e pronto a absorver os que se distinguem por talentos ou capacidades especiais. Êles estão procurando ajudar São Paulo a dar o grande salto para a frente.

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Os Mutantes, Gil, Nara, Roberto, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, uma escada e vários bambas em uma antiga edição da Realidade.

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Gil-Chico-Veloso



Boa, xará! (trabalhar com êsse cara é uma tranqüilidade, hem, Mané?). O xará Gauss, nessa mesa de Cabo Kennedy, enriquece o tropicalismo. E a Claudete bolou bem essa do Veloso de Holanda (disco bacana, mundo complicado, mil idéias, trecos vários...

Pata, Pedro (pedreiro), Pedro, pata! Domingô de um summer que não is gone, donde sei gudebai às canzones psico-idílicas; vesti Ludwig de azul (porta aberta!), magnólias e margaridas: Hip (pie)! Hip (pie)! Hurraaaaaaa! Rei da Roda (velas mortas): Viva!

E o bacana foi o côro de quatro maestros (no Domingou) com o Gil regendo (Medaglia, Gregori, Cozzella e eu).

Pela aí, rollin monkacos beatolados.

Salve, lindo sapato branco e panamá!

Viva (em pó) tôdas as mini (inclusive a Claudete)!!!

Rogério Duprat


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Do Gil-Chico-Veloso, da Claudete, arranjo e regência do Duprat.

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1972 na música brasileira


Chico Buarque * Quando o carnaval chegar [dl aqui]
Ironias com o rock, arranjos de coreto, clima de carnaval de filme do Nelson Pereira dos Santos, canções rebuscadas e aquela delicadeza e melancolia que ganham a ala feminina: é o disco que inventa não só Marcelo Camelo, mas também toda a cena de samba universitário da Vila Madalena em São Paulo.


Caetano Veloso * Transa [dl aqui]
O disco favorito de todo fã do Caetano, o disco "mas esse é bom" de todo detrator do Caetano, o disco favorito do próprio Caetano e boa dose de inspiração pra atual "fase roqueira" dele. Gravado em Londres, com Caetano deprimido e inspirado e com a banda liderada por Jards Macalé tocando ao vivo no estúdio, criando camadas de sons, canções, emoções.


Elis Regina * Elis [dl aqui]
Elis Regina não era cantora de bossa nova nem de jazz, não era hippie nem tropicalista. Era tão idiossincraticamente pessoal que tiveram que inventar um rótulo o mais genérico possível - simplesmente "música popular brasileira" - pra dar conta de generalizar discos como esse. Muito por culpa de Cesar Camargo Mariano, recém-vindo da banda de Wilson Simonal.


Tom Zé * Tom Zé [dl aqui]
Foi ali, por volta de 1972, que Tom Zé teve que encarar de vez a dura realidade: ele não fazia parte da elite da música brasileira. Provavelmente não era nem tropicalista. Livre da responsabilidade e encarando sua própria genialidade, criou seu primeiro grande clássico - de uma série que ao mesmo tempo o jogou no esquecimento e o tirou de lá 20 anos depois.


Tim Maia * Tim Maia [dl aqui]
Tim Maia era movido a emoções fortes. E deve ter tido poucas mais fortes que a fossa e dor de corno que sentia quanto compôs e gravou esse disco, esbanjando conhecimento de causa em funksoul e transbordando despeito e desamor. Pelo menos em termos de à-flor-da-pele, o grande disco do recente biografado pela assinatura Nelson Motta.


Erasmo Carlos * Sonhos e Memórias [dl aqui]
Depois de ir gradativamente ampliando seus horizontes a cada disco desde fins dos anos 60, foi em 1972 que Erasmo assumiu que queria mesmo era ser hippie. Esqueceu aquele papo de jovem guarda, trocou de gravadora, casou e foi pro mato. Nessas, renasceu um grande compositor: agora a inspiração vinha em sambinhas, baladas folk, soul, desabafos e declarações.


Jards Macalé * Jards Macalé [dl aqui]
Animado como compositor pelo Vapor Barato da Gal e como bandleader pelo Transa do Caetano, em 1972 Jards respirou fundo e colocou tudo no seu primeiro disco: sua voz, seu violão, sua excentricidade, sua sensibilidade, a poesia de Waly Salomão e o som de Lanny Gordin e Tutty Moreno.


Gilberto Gil * Expresso 2222 [dl link]
Gil, eufórico de alegria de estar de volta ao Brasil depois de dois anos no exílio, faz um disco mais brasileiro que nunca - mas, sob a influência do primeiromundismo roqueiro britânico, também mais roqueiro do que nunca, com a pegada de Lanny e Tutty já virando assinatura.


Maria Bethânia * Drama - Anjo Exterminado [dl aqui]
Caminhando a passos largos em direção ao desbunde baiano sem limites da década de 70, mas ainda com a criatividade aguçada, Bethânia estava ligada nas coisas: chamou o irmão recém-chegado de Londres com aquelas idéias novas pra produzir um disco dela. Long story short, Drama está pra Bethânia como Transa pro Caetano.


Roberto Carlos * Roberto Carlos [dl aqui]
Em 1972 Roberto não precisava provar mais nada a ninguém. Já era há tempos o maior popstar do Brasil, já tinha sido justificado pela intelectualidade através do tropicalismo, já tinha superado tudo isso e entrado no olimpo popular com Detalhes. Então, fez a única coisa que lhe restava: inventou todo um estilo musical, hoje conhecido como "brega".


Novos Baianos * Acabou Chorare [dl aqui]
Depois de uma estréia subtropicalista, os Novos Baianos tiveram um intensivão direto na fonte de todas as revoluções: João Gilberto, que apareceu na comunidade hippie deles, dividiu o banza e os ensinou a graça de Assis Valente. Some à epifania cool de Moraes, Baby e Paulinho o virtuosismo empírico dos jovens gênios Pepeu, Dadi e Jorginho e pronto: obra-prima.


Wanderlea * Maravilhosa [dl aqui]
Entediada com a música e com a persona em que a haviam metido nos anos 60 - música e persona que ajudaram a libertar em público o inconsciente de incontáveis adolescentes brasileiras, mas já pareciam a essa altura coisa da década passada -, em 1972 Wanderlea desbundou maravilhosa: de black power loiro na capa, cantava o feminismo, Hyldon, Gil e Jorge Mautner (com direito a trejeitos bicha e tudo).


Leno e Lilian * Leno e Lilian [dl aqui]
Dois discos, sucesso, Devolva-me & Pobre Menina e quatro anos de carreiras solo depois, Leno e Lilian reencontraram-se para reinventarem-se de jovemguardistas naif a roqueiros-folkeiros setentistas melancólicos e semibregas, sob a batuta do então produtor Raul Seixas. E não é que as vozes sacarinas em uníssono funcionam na nova roupagem e o disco se torna um clássico esquecido do folk-pop brasileiro?


Arthur Verocai * Arthur Verocai [dl aqui]
Garoto prodígio da turma dos festivais que vinha se transformando em um dos arranjadores de ouro de sua geração, em 1972 Verocai ganhou passe livre da gravadora Continental para fazer um disco todo só seu, do jeito que quisesse. Com a experiência de diretor musical de um Ivan Lins imitando Tim Maia em começo de carreira e sob a influência de suas amizades mineiras, pirou total: solos jazzísticos, pegada funk, letras hippie de tom contemplativo e o primeiro sintetizador usado em um disco brasileiro. Demorou só 30 anos para as pessoas entenderem.

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Introspecção mística



Fumar maconha nunca me fez mal em termos absolutos, em termos do que se pode julgar como mal, e nunca me levou a fazer mal. Isso é o que eu posso testemunhar como experimentador da coisa. Como homem que fez e faz a experiência de fumar. Eu acho que é importante, é uma coisa que foi culturalmente discutida em níveis profundos no mundo inteiro. Por que não no Brasil? Por que manter esse obscurantismo todo, esse medo da modernidade, esse medo da atualidade, esse medo de estar no mundo de hoje? Eu acho que eu sou mesmo um exemplo disso. Quer dizer, se você relaciona, faz a relação homem-maconha, mente-maconha, trabalho-maconha, criação-maconha, comportamento-maconha etc e assim por diante, e você busca todo esse relacionamento numa pessoa como eu, vê o quadro estatístico da minha produção, do meu comportamento e de tudo, você não pode a partir disso continuar imputando à maconha a maldição que ela tem.

O vídeo é trecho desse filme. A fala é dessa entrevista. E boa sorte pra ele na nova velha vida.

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