RONALDOEVANGELISTA


Arthur Verocai, Sesc Pinheiros, Abril de 2011


Imagem daqui.

O disco de Arthur Verocai, 1972, é especial por muitos motivos. A criatividade em estado bruto, as letras que falam de coisas grandes da vida de maneira muito própria, suas harmonias e melodias particulares, beats sem limite, cordas em estado de graça, intimidade com suas afirmações, pegadas, instrumentos, efeitos, sons inéditos em sua originalidade até hoje, quase 40 anos depois de seu lançamento. Verocai é sua própria categoria.

Originalmente gravado para a gravadora Continental, esquecido em arquivos e algumas poucas coleções durante décadas, o disco encontrou brilhante redescoberta na última década, base de samples para inúmeros produtores, reedição em LP em 2004 e apoetótico show na Califórnia, dentro da série Timeless, em 2009.

Comemoremos, então, agora, o primeiro show ever no Brasil, próximos dias 9 e 10 de abril, no Sesc Pinheiros, com orquestra de cordas, alguns dos protagonistas originais e novas e emocionante conexões: Célia, Carlos Dafé, Robertinho Silva, Luiz Alves, Nivaldo Ornelas, Marcelo Jeneci, Guilherme Held, Nuts. Experiência para saborear e dizer que viu.

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TIMELESS no Brasil



Primeiro, foram três shows de responsa em 2009 na Califórnia, dedicados a três compositores/arranjadores tão geniais quanto diferentes entre si: o etíope Mulatu Astatké, que apresentou clássicos e novidades de seu sofisticado repertório afro-latino; um concerto com arranjos do violista Miguel Atwood-Ferguson vestindo beats criados pelo falecido rapper estadunidense J. Dilla; e a correção histórica de colocar o brasileiro Arthur Verocai à frente de uma orquestra para apresentar com pompa os temas de seu disco de 1972. Seriam quatro, e é emocionante só imaginar como teria sido a apresentação do mestre do jazz-funk-psicodélico David Axelrod se ele não tivesse cancelado na última hora.

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The Sounds of VTech / Timeless: Brasil Trailer



Segundo, o processo foi todo registrado e os shows captados pelo fotógrafo/filmador (e produtor) B+, aka Brian Cross, bróder. Parte do plano: em 2010 os shows foram lançados em DVD (e álbuns) com o maior capricho, em um box com ainda de bônus uma mix da carreira de Verocai pelo DJ Nuts e o set africano de Quantic quando do show do Mulatu. Mas não são só os shows, são filmes com olhar especial sobre músicos sem época fazendo sons elevados, buscando, instigando e registrando momentos de inspiração.

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The Sounds of VTech / JRocc's Timeless Performance at SXSW



Ao longo de 2010 rolaram exibições do filme em sessões especiais em Nova York, Los Angeles, San Francisco, Chicago etc. Agora, próximos dias 9 a 11 de fevereiro, no Espaço Unibanco de Cinema, o Timeless é exibido no Brasil e com uma transa interessante: J. Rocc vem junto e manda uma videotecagem, jogando os três filmes no computador e mixando como vinis no Serato, colando e brincando com trechos de imagens e sons. Show, filme e happening, cinema, orquestra e DJ, Brasil, EUA e Etiópia, jazz latino, funk brasileiro e concerto hip-hop.

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Marcelo Jeneci & Arthur Verocai



Jeneci é o cara que mais tem capricho e busca o melhor e vai no alvo, em timbres, melodias, letras, formação, dedicação. Não tinha como ser diferente no show de lançamento do primeiro disco, "Feito Pra Acabar": cem por cento em todos os sentidos, do começo ao fim. Para os arranjos do disco e para apresentar ao vivo, foi direto ao ponto e chamou Arthur Verocai, que colocou a orquestra no palco e pontuou as canções com momentos de roubar o fôlego. Enquadrados no vídeo acima, Jeneci à esquerda ao piano, maestro Verocai ao fundo à direita na batuta, momento sublime com "Quarto de dormir".

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Feito pra lançar



Os relatos do primeiro dia já foram de máxima ressonância emocional, ontem, com Arnaldo Antunes. Hoje, Jeneci lança seu primeiro disco, no Sesc Vila Mariana, com orquestra, Arthur Verocai, Marcelo Camelo, Tulipa Ruiz, Laura Lavieri e grande elenco de bambas.

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Sylvia



Semana passada na Califórnia para um show de lançamento do sensacional box do Timeless, Verocai aproveitou pra passar no estúdio da KCRW - cordas, flauta e grande elenco a tiracolo - e iluminar a vida dos ouvintes com, no mínimo, versão de "Sylvia", vídeo acima. A harmonia é inspiradora, a melodia é perfeita em sua simplicidade, pelo um minuto e quinze as cordas já atingem o sublime, o flautista começa te seduzindo e desenvolve solo lindíssimo. (E a competição era forte: no disco original, o solo é de Oberdan.) A composição do Verocai, o arranjo de cordas, tudo ainda mais brilhante tocado quente assim.

// Emocionante ver agora o grande momento de amor de e por um cara que criou uma obra totalmente inesperada, inexplicável, particular e genial como seu disco de 72, por tanto tempo ignorado e achando que tinha viajado. Parabéns, Arthur.

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Arthur Verocai, a mix by DJ Nuts



Nuts, maior conhecedor vivo da obra do Arthur Verocai (que aliás fez o cover spread e me deu altas dicas na matéria que fiz pra Wax Poetics), tirou o tempo e fez uma mix, 77 minutos só de músicas com arranjos e/ou composições do maestro. Cavou fundo e mixou com perfeição, o flow correndo com Célia, Johnny Alf, Anamaria e Mauricio, Tim Maia, Gal Costa, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Luiz Melodia - só pra não sair da ponta do iceberg. A capa, outtake sensacional da sessão de fotos pra capa do Fernando Bergamaschi, lembro de ver no negativo na casa do Verocai.

Baixe e mais info aqui; ouvir, no play abaixo:



O tracklisting, thanks Soul Strut.

(0:00) Intro - MF Doom/Egon a presenta Arthur Verocai
(0:48) Elis Regina - Um Novo Rumo
(2:33) Beth Carvalho - Domingo Antigo
(3:10) Leny Andrade - Olhando O Mar
(5:18) Magda - Madrugada
(6:40) Quarteto 004 - Saudade Demais
(9:00) Milton Banana Trio - Um Novo Rumo
(10:51) Taiguara - Um Novo Rumo
(12:39) Werther - Catavento
(14.44) Maysa - Catavento
(16:32) Eduardo Conde - Minha Estrada
(18:19) Golden Boys - A Menina E A Fonte
(20:50) Celia - No Clarão Da Lua Cheia
(21:55) Erasmo Carlos - Cica Cecilla
(23:19) Ivan Lins - Tanaue ou Se um indio fosse consumido pela civilização moderna
(23:41) Ana Maria E Mauricio - Mandato
(24:54) Ana Maria E Mauricio - Marina Eu Vou
(26:00) Ana Maria E Mauricio - Eu Quero Ver
(27:08) Reginaldo Bessa - Voce Vai Ter Que Me Aturar
(29:09) Fabio - Bloco dos Naufragos
(29:42) Jorge Ben - Porque E Proibido Pisar Na Grama
(31:58) Arnaud Rodrigues - Conscacha Fimara (Magnifico)
(33:19) Luiz Melodia - Pra Aquietar
(34:09) Gal Costa - Pontos De Luz
(35:56) Quinteto Ternura - Baby
(36:31) Burnier & Cartier - Europanema
(37:47) Ivan Lins - Deixa Eu Dizer
(39:24) Lucinha Lins - Esse Passaro Chamado Tempo
(41:43) Johnny Alf - Um Gosto De Fim
(44:04) Leny Andrade - Nao Tem Perdao
(45:48) Tim Maia - The Dance Is Over
(48:05) Paulinho e Dorinha - Vivencias
(49:31) Paulinho Tapajos - Clara
(50:48) Som Imaginario - Armina (Vinheta 3)
(51:33) Marlene - Beco Do Mota
(53:40) Ana Lucia - Anuncio
(55:10) MPB 4 - Quem Vem De La
(56:45) Celia - Na Boca Do Sol
(58:54) Arthur Verocai - Cabolco
(1:01:28) Ivan Lins - Deixa O Trem Seguir
(1:03:11) O Terco - Imagem
(1:05:52) Karma - Blusa De Linho
(1:07:08) Karma - Depois Do Portao
(1:10:07) ? - Catavento
(1:12:35) Feliz Anniversario Nuts; Arthur Verocai - Flying To LA.

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Entrevista com Arthur Verocai na Wax Poetics



Já tinha comentado aqui de uma conversa que tive com o brilhante e pouco conhecido arranjador Arthur Verocai, no Rio, há um tempo, pra uma revista preza. Pois saiu, na gringa, uns meses atrás, WAX POETICS 36. Só recebi e vi agora, mas bateu a alegria: cacei o Fernando Bergamaschi, fotógrafo da capa e das sessões de gravação do incrível disco de 1972 do Verocai, e rolou das fotos ilustrarem lindamente a matéria. Agilizei com o Nuts (que tem tudo de tudo) uma discografia, com as capas praquele cover spread, e voilá. Maior honra escrever na melhor revista do mundo de discos, sons, histórias e imagens - ainda mais sobre o Verocai. Dizaê se não ficou classe.







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por detrás dessa blusa de lã



Falando no Verocai, mais um vídeo do sensacional Timeless, quando eles recriaram o disco ao vivo em LA. Saca o Dafé cantando melhor do que nunca e o Veroca regendo tudo. // Logo mais, o show todo em DVD.

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ponho um disco pra ouvir, eu sei lá



A base é um funk tranqüilo, que se parece simples é pela contemporaneidade absoluta do som - de resto, sofisticadíssimo em referências, timbres, elementos e na própria criatividade do resultado final. A breve introdução em uníssono de baixo e guitarra logo revela um arranjo delicado e pesado, com piano melancólico, percussão inventada, groove de batera e baixo, e coro vocal - e a letra triste, de despedida, logo cede vozes a solo jazzístico. Logo em seguida, o que já andava incrível se torna sublime - exatamente aos dois minutos e vinte e três segundos, quando o sax entrega a melodia para um vocalise de partir o coração. Sob tudo, segue a base, em sua eloqüência de poucas notas, melodias, acordes, cordas-lágrimas e letra e muita expressão. "Dedicada a ela", do disco do Verocai, feito em 1972 e existindo até hoje em um tempo próprio (talvez culpa do seu piano mágico).

ficou vazio o meu quarto
a cama e o meu cobertor
não sei se falo às paredes
ponho um disco pra ouvir
eu sei lá

quem sabe eu deite na rede
ou leia um livro talvez
saia pra ver os amigos
pra não ter que pensar
em você

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Season Finale



Se você estivesse em LA domingo passado, podia ter visto o Arthur Verocai tocar ao vivo seu impressionante disco de 1972, com orquestra e vários participantes da gravação original. De lambuja, na mesma noite, ainda ouvia discotecagens do Nuts e Madlib. // Parte do Timeless, evento bem classe do B+, só com shows responsa, que teve ainda Mulatu Astatke e um concerto para Ma Dukes, mãe do J Dilla. O último seria apoteótico, mês que vem, com o David Axelrod - mas ele tristemente acaba de cancelar.

Sente o clima do show do Veroca, com ele regendo a orquestra, no vídeo aí em cima, de "Seriado".

*

Um tempo atrás eu fui pro Rio e colei no apartamento do Verocai para um longo papo que sai publicado logo mais em uma revista foda. Dou o toque quando sair, mas antes disso saca esse momento dele falando sobre seu som:

Na época você sentia parte de algum movimento, se identificava com algum outro artista?

Eu já sentia que o que tinha feito era diferente de todo mundo, disso eu não tinha dúvida. Eu tinha um piano lá em casa que já soava diferente. Esse piano era mágico. Quando eu sentava naquele piano mudava tudo, tinha uma energia. Era um troço que me envolvia, me levava por um caminho, as coisas soavam nele de maneira totalmente diferente. E acho que esse piano me influenciou no estilo do que eu estava fazendo, saltou dele um lado harmônico que eu ainda não tinha pesquisado. Ele me mostrou um lado que eu não tinha visto ainda. Tinha muitos artistas que eu admirava, artistas fantásticos, compositores maravilhosos. Mas era música mais dentro do que as pessoas queriam ouvir. Não sei explicar. Era música mais fácil de ser entendida. Coisas bem feitas, geniais, mas o que eu fiz é uma coisa mais louca. O meu salto foi um pouco mais profundo em alguma coisa. Não sei dizer direito o que é isso, mas realmente não é parecido com nada.

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1972 na música brasileira


Chico Buarque * Quando o carnaval chegar [dl aqui]
Ironias com o rock, arranjos de coreto, clima de carnaval de filme do Nelson Pereira dos Santos, canções rebuscadas e aquela delicadeza e melancolia que ganham a ala feminina: é o disco que inventa não só Marcelo Camelo, mas também toda a cena de samba universitário da Vila Madalena em São Paulo.


Caetano Veloso * Transa [dl aqui]
O disco favorito de todo fã do Caetano, o disco "mas esse é bom" de todo detrator do Caetano, o disco favorito do próprio Caetano e boa dose de inspiração pra atual "fase roqueira" dele. Gravado em Londres, com Caetano deprimido e inspirado e com a banda liderada por Jards Macalé tocando ao vivo no estúdio, criando camadas de sons, canções, emoções.


Elis Regina * Elis [dl aqui]
Elis Regina não era cantora de bossa nova nem de jazz, não era hippie nem tropicalista. Era tão idiossincraticamente pessoal que tiveram que inventar um rótulo o mais genérico possível - simplesmente "música popular brasileira" - pra dar conta de generalizar discos como esse. Muito por culpa de Cesar Camargo Mariano, recém-vindo da banda de Wilson Simonal.


Tom Zé * Tom Zé [dl aqui]
Foi ali, por volta de 1972, que Tom Zé teve que encarar de vez a dura realidade: ele não fazia parte da elite da música brasileira. Provavelmente não era nem tropicalista. Livre da responsabilidade e encarando sua própria genialidade, criou seu primeiro grande clássico - de uma série que ao mesmo tempo o jogou no esquecimento e o tirou de lá 20 anos depois.


Tim Maia * Tim Maia [dl aqui]
Tim Maia era movido a emoções fortes. E deve ter tido poucas mais fortes que a fossa e dor de corno que sentia quanto compôs e gravou esse disco, esbanjando conhecimento de causa em funksoul e transbordando despeito e desamor. Pelo menos em termos de à-flor-da-pele, o grande disco do recente biografado pela assinatura Nelson Motta.


Erasmo Carlos * Sonhos e Memórias [dl aqui]
Depois de ir gradativamente ampliando seus horizontes a cada disco desde fins dos anos 60, foi em 1972 que Erasmo assumiu que queria mesmo era ser hippie. Esqueceu aquele papo de jovem guarda, trocou de gravadora, casou e foi pro mato. Nessas, renasceu um grande compositor: agora a inspiração vinha em sambinhas, baladas folk, soul, desabafos e declarações.


Jards Macalé * Jards Macalé [dl aqui]
Animado como compositor pelo Vapor Barato da Gal e como bandleader pelo Transa do Caetano, em 1972 Jards respirou fundo e colocou tudo no seu primeiro disco: sua voz, seu violão, sua excentricidade, sua sensibilidade, a poesia de Waly Salomão e o som de Lanny Gordin e Tutty Moreno.


Gilberto Gil * Expresso 2222 [dl link]
Gil, eufórico de alegria de estar de volta ao Brasil depois de dois anos no exílio, faz um disco mais brasileiro que nunca - mas, sob a influência do primeiromundismo roqueiro britânico, também mais roqueiro do que nunca, com a pegada de Lanny e Tutty já virando assinatura.


Maria Bethânia * Drama - Anjo Exterminado [dl aqui]
Caminhando a passos largos em direção ao desbunde baiano sem limites da década de 70, mas ainda com a criatividade aguçada, Bethânia estava ligada nas coisas: chamou o irmão recém-chegado de Londres com aquelas idéias novas pra produzir um disco dela. Long story short, Drama está pra Bethânia como Transa pro Caetano.


Roberto Carlos * Roberto Carlos [dl aqui]
Em 1972 Roberto não precisava provar mais nada a ninguém. Já era há tempos o maior popstar do Brasil, já tinha sido justificado pela intelectualidade através do tropicalismo, já tinha superado tudo isso e entrado no olimpo popular com Detalhes. Então, fez a única coisa que lhe restava: inventou todo um estilo musical, hoje conhecido como "brega".


Novos Baianos * Acabou Chorare [dl aqui]
Depois de uma estréia subtropicalista, os Novos Baianos tiveram um intensivão direto na fonte de todas as revoluções: João Gilberto, que apareceu na comunidade hippie deles, dividiu o banza e os ensinou a graça de Assis Valente. Some à epifania cool de Moraes, Baby e Paulinho o virtuosismo empírico dos jovens gênios Pepeu, Dadi e Jorginho e pronto: obra-prima.


Wanderlea * Maravilhosa [dl aqui]
Entediada com a música e com a persona em que a haviam metido nos anos 60 - música e persona que ajudaram a libertar em público o inconsciente de incontáveis adolescentes brasileiras, mas já pareciam a essa altura coisa da década passada -, em 1972 Wanderlea desbundou maravilhosa: de black power loiro na capa, cantava o feminismo, Hyldon, Gil e Jorge Mautner (com direito a trejeitos bicha e tudo).


Leno e Lilian * Leno e Lilian [dl aqui]
Dois discos, sucesso, Devolva-me & Pobre Menina e quatro anos de carreiras solo depois, Leno e Lilian reencontraram-se para reinventarem-se de jovemguardistas naif a roqueiros-folkeiros setentistas melancólicos e semibregas, sob a batuta do então produtor Raul Seixas. E não é que as vozes sacarinas em uníssono funcionam na nova roupagem e o disco se torna um clássico esquecido do folk-pop brasileiro?


Arthur Verocai * Arthur Verocai [dl aqui]
Garoto prodígio da turma dos festivais que vinha se transformando em um dos arranjadores de ouro de sua geração, em 1972 Verocai ganhou passe livre da gravadora Continental para fazer um disco todo só seu, do jeito que quisesse. Com a experiência de diretor musical de um Ivan Lins imitando Tim Maia em começo de carreira e sob a influência de suas amizades mineiras, pirou total: solos jazzísticos, pegada funk, letras hippie de tom contemplativo e o primeiro sintetizador usado em um disco brasileiro. Demorou só 30 anos para as pessoas entenderem.

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Eu insisto procurando amor



De um especial de TV do começo dos anos 70, Elis canta com Dom Salvador e a Banda Abolição um dos maiores hits do cânone black nacional, "Uma Vida". A Abolição de Salvador foi a primeira formação musical brasileira notória dentro da onda de orgulho negro - conceitual e musical - que pegava o mundo pelo colarinho nessa época. Então, saca a manha do Luis Carlos (que pela mesma época cantou no disco do Verocai e alguns anos depois fundou a Black Rio com Oberdan) tocando bateria e mandando um proto-rap no começo da música, repara bem nos cabelos, roupas, instrumentos e estilões e me diz se a Abolição ficava devendo qualquer coisa a Sly & the Family Stone, Isley Brothers, Watts 103rd Street Rhythm Band e afins.

uma vida
uma vida não é nada
se não tem nenhum amor

um sorriso não é um riso
um sorriso não é preciso
se não tem amor

uma casa é tão fria
apenas, apenas uma moradia
sem amor

eu persigo o meu destino
meu futuro inseguro
levando sempre, sempre a minha dor

não descanso, não, eu não desisto
eu insisto
eu insisto procurando amor

alegria, alegria
é manhã de um novo dia

vou andar onde o amor levar
vou descobrir a vida
vou construir meu lar
eu vou sair de mim
eu quero me encontrar
sei que vou ser feliz
meu dia chegará

alegria, alegria
é manhã de um novo dia

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