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Ensaio com Gal Costa e Som Imaginário, TV Tupi, 1970

Mil novecentos e setenta, Gal Costa lançava seu terceiro disco, Legal (de "Love, Try and Die" e "Falsa Baiana") e o Som Imaginário lançava o seu incrível disco de estréia, homônimo. Ela, aliviando um pouco de segurar sozinha a onda do tropicalismo de elite, vindo do estridente álbum de 69 para o azul de 70, toda absolutamente linda e sorridente e prestes a embarcar na intensa viagem Fa-Tal. Eles, a união dos jovens e explodindo criatividade Zé Rodrix no órgão, flauta e onde fizer a diferença, Robertinho Silva na bateria, Wagner Tiso no órgão, Fredera aka Frederyko na guitarra, Tavito no violão de 12, Luiz Alves no baixo - todos com extenso currículo posterior e genialidade à flor da pele.

Daí que Fernando Faro juntou Gal e Som Imaginário na TV Tupi e gravou um Ensaio, como sempre obra-prima de sensibilidade, imagens, ângulos, enquadramentos, momentos, iluminação, preto-e-branco, sons, olhares, falas e espontaneidades.


O Som Imaginário abre o programa em quadro perfeito numa nuvem de algodão, entre estrelas abrindo o coração, com Frederyko cantando "Sábado" de guizos nos sapatos e farrapos coloridos. Zé Rodrix segue no pífano, Wagner e Tavito fazem os backings celestiais e Robertinho e Luiz Alves garantem o ritmo (os dois últimos, aliás, hoje em dia e já há anos dois terços do Trio do Donato).


No estúdio, ela fez com Lanny e Jards. Aqui, o Som Imaginário segura o pique em "Love, try and die" e põe Gal em Ebulição. Do momento em que aparecem seus dedos dos pés, você já sabe que não adianta resistir: ela vai fazer você se apaixonar. Ah, Gal.


Dona Mariah, pura ternura, dá tilt no silêncio do Faro e faz o momento ainda mais íntimo enquanto conversa com a filha. Que música gosta mais? Todas do Caetano, compositor popular favorito, mas Gal Sugere.


Robertinho sai tocando, Zé Rodrix puxa a escola de samba no apito e a banda afiada no arranjo. No ano seguinte ela vai gravar no maravilhoso compacto, mesmo de "Vapor Barato", "Sua estupidez", "Zoilógico", mas aqui ainda mais crua e sensual e significativa, "Você não entende nada" é jóia pura.


A banda vai na genialidade e Gal brilha de tanto brilho no baião levado pro mato selva e pra eletricidade, "Acauã", um-dois-três-.


Falando nisso, "Assum preto", Luiz Gonzaga, quase à capela, com o som ambiente Imaginário.


Uma faca me rasgando, um mundo se acabando. É sempre surpreendente, como a vida se partindo, se começando, se acabando. Gal Costa sempre me trata com choques elétricos. Gal Costa é muito maravilhosa, nos diz por nós, dando bobeira na área, Tom Zé. Se há alguma dúvida, "Sua Estupidez", só no violão e na sombra do chapéu.


Toquinho dá as caras pra contar e provar que Gal é cantora que sabe das coisas e manda um Synval Silva, só no violão, Gal revelando e desvelando joaogilbertianamente "Ao voltar do samba".


A partir da estranheza e beleza da composição de Jards e Duda, Gal embeleza o mundo, sente tudo e canta "The Archaic Lonely Star Blues" daquele jeito que parece ter esquecido: entrando sob nossas peles.


Sem precisar nomear o desconhecido, mostrando Gal bebendo coca-cola como pop arte, Faro faz sua declaração de admiração ao magnetismo de Gal e seu engrandecimento versus os monstros de suas inseguranças e do clima opressor que já e ainda mantinha seus amigos e parceiros a continentes de distância.


Gal vai no violão (em momento pré-Fa-Tal total) e a banda segue pianinho total, no clima pra fechar lá em casa, na afirmação da devoção à João - que aliás regravaria essa mesma "Falsa baiana" daqui três anos.


Robertinho manda o groove, o Som Imaginário segura no hard-prog-hippie-psicodélico e Zé Rodrix assume o microfone pra banda fechar o programa na pegada, "Feira Moderna".

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1 Responses to “Ensaio com Gal Costa e Som Imaginário, TV Tupi, 1970”

  1. # Anonymous Eduardo

    Sensacional esse post, Ronaldo. Valeu!  

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