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Duas versões de Noel




"Filosofia", com Lucas Santtana, e "Pela primeira vez", com Amarante de crooner na Orquestra Imperial. Como pode um cara que passou pelo planeta por 26 anos, entre as décadas de 10 e 30 do século passado, ainda fazer tanto sentido hoje? Nas vozes e versões de Lucas e Amarante, então, essas do Noel Rosa parecem compostas ontem. O Som Brasil às vezes é uma lambança difícil de acompanhar o contexto, mas nuns de repentes acerta.

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TRIO SURDINA






A emissão suave, a pronúncia coloquial, a sensação de perto do ouvido, a leveza e atualidade do som, o arranjo com poucos instrumentos e muitas dinâmicas. Quase dois anos antes de Chet Baker começar a cantar, pelo menos cinco antes de João Gilberto lançar sua batida cristalizada de violão-e-voz, doze depois do encontro de Django Reinhardt e Stephane Grappelli no Hot Club da França, o Trio Surdina vivia seu momento cheio de revoluções silenciosas: o violinista (e vocalista e assobiador) Fafá Lemos, o violonista Garoto e o sanfoneiro Chiquinho do Acordeom, músicos e estrelas da Rádio Nacional e em suas próprias carreiras.






Em quatro sessões entre os últimos dias de 1952 e os primeiros de 1953, nos estúdios da própria Nacional, o trio gravou um punhado de músicas com concepção assombrosamente moderna, arranjos de tirar o fôlego, malandragem, senso de humor e romantismo e criação em processo máximo de inventividade, unindo características muito particulares e complementares de cada músico. Um violinista assobiador cantando como João Gilberto seis anos antes da Bossa Nova? Um violonista com tanta clareza de toque e evolução de idéias? Um acordeão criando esses sons inéditos e em fusão com os outros instrumentos? Um trio inspirado em jazz e samba de breque? O nome perfeito, cheio de sentidos adequados, vinha do programa em que os três se encontravam com frequência e sucesso no formato: Música em Surdina, de Paulo Tapajós, circa 1952. Os Três Mosqueteiros da Bossa era um dos epítetos delegados a eles no ar em suas condições de ases e modernistas.






Fafá vindo do sucesso nacional de "Vingança", de Lupicínio Rodrigues, na voz de Linda Batista e com seu violino, e já às vésperas de ir aos Estados Unidos tocar com Carmen Miranda e gravar seu primeiro disco - com orquestra e clima Exótica, contemporâneo de Les Baxter e precursor de Martin Denny e Esquivel. Garoto, já revolucionário do choro, paradigma do seu instrumento, ousando nos acordes, invertendo ritmos, inventando andamentos, brincando com bordões e dedilhados. Chiquinho soando seu acordeão como órgão ou palheta, piano ou orquestra, fazendo cama ou solando, segurando ou soltando o groove, dialogando no registro agudo com o violino ou criando riffs em uníssono com o violão, lírico e criativo.





Os três juntos, em melhores momentos e disposições, alimentando-se da criatividade extra necessária para um trio de violino-violão-acordeão criar e preencher sons e espaços e o inevitável senso de diversão despretensiosa que nasce como consequência. Tangos, foxes, beguines, baiões em pegada entre o improviso do jazz de salão e a roda de morro. O samba de bossa de Noel Rosa, a beleza de Dorival Caymmi, a aristocracia de Ary Barroso. O arrepiante violão de Garoto a um passo de João Gilberto e além, os impressionantes timbres do acordeão de Chiquinho e o lindo tratamento das melodias por Fafá, glissandos, rubatos, pizzicatos, vocal ultra-cool e solos de assobio. Vinte e oito músicas, uma hora e vinte minutos preciosos: toda sua obra oficial em três LPs e meio de dez polegadas pela gravadora Musidisc, os dois primeiros, respectivamente, em vinil amarelo e verde.

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choro nem vela



A compulsão de caçar discos, buscar faixas, dissecar fichas técnicas tem sua cota de recompensas, mas é de se emocionar ouvir uma música assim, de Noel, com um arranjo desses, de Vadico, cantada desse jeito, pela Aracy. Se existe alma, se há outra encarnação, eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão. De um dez polegadas de arrepiar, escavado em Pinheiros. Volume dois daquele que você conhece, com capa do Di Cavalcanti. "Fita Amarela", de Noel Rosa, com Aracy de Almeida, arranjo de Vadico; play logo abaixo ou versão nuvem, aqui.



Quando eu morrer não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei nada a ninguém

Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim

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