Call It Anything
0 Comments Published by Ronaldo Evangelista on quarta-feira, 15 de setembro de 2010 at 5:01 PM.Família é quando a pessoa muda tanto que te continua igual. Noite dessas Pedro colou aqui em casa com projetor e DVD e mergulhamos: cinco da tarde do dia 29 de agosto de 1970, Ilha de Wight, Miles Davis com Keith Jarrett no piano elétrico, Chick Corea no órgão, Gary Bartz no sax soprano, Dave Holland no baixo, Jack DeJohnette na bateria, Airto na percussão, ignorantes do que vem a seguir, algo a se ver.
(Na platéia, Gilberto Gil, fica ligado que você vê.)
Marcadores: Airto Moreira, Miles Davis, TV
OUTRAS COISAS
1 Comments Published by Ronaldo Evangelista on segunda-feira, 2 de agosto de 2010 at 5:57 PM.
O álbum Coisas, lançado em 1965 pela gravadora Forma, é a obra-prima de Moacir Santos. Mais: é obra-prima da música brasileira, do jazz, de sonoridades afro, de evoluções harmônicas, de sofisticações de arranjo, de beleza melódica e profundidade espiritual.
Com pouco mais de meia dúzia de álbuns lançados - se contarmos homenagens e tributos -, Moacir fez mesmo foi muito arranjo pra muita gente. De cantores de marchinhas a orquestras de baile, do que de mais moderno se fazia nos sambas-canções ao que de mais moderno se fazia na bossa nova, Moacir foi abençoando discos, músicas, instrumentistas, intérpretes.
Entre tudo que fez, um punhado de coisas já indicava a grandiosidade das Coisas e algumas outras continuaram no registro. Lembrando de passagens que ele me contou, ouvindo todos os discos com seu nome, caçando sua história, juntei dez faixas em ordem cronológica, pré e pós-Coisas, mas seguindo o espírito.
Play acima, baixe AQUI, faixa-a-faixa abaixo.

RAUL DE BARROS, Toselli no samba, 1950
Choro composto e arranjado por Moacir Santos, inspirado no compositor erudito italiano Enrico Toselli. Gravado em 1950 pelo trombonista Raul de Barros, em 78 rotações para a Odeon. A sofisticação do arranjo, a melodia com surdina, o naipe no contracanto, o solo de piano quase como um interlúdio já mostram quão avançadas eram as idéias de Moacir, desde sempre. Qualquer dúvida, só ouvir ao lado de qualquer disco de Duke Ellington de 1950.
HERBIE MANN e BADEN POWELL, Nanã, 1962
Levado por Baden, Moacir começou a freqüentar as reuniões de Bossa Nova, por exemplo no apartamento da Nara (aliás, sua aluna). Com seu clarinete a tiracolo, sua interpretação em duo com Baden de "Nanã" era dos momentos mais sublimes - Tom Jobim era um que costumava pedir bis atrás de bis. O mais próximo que chegamos de ouvir esse momento nunca registrado senão na memória dos presentes é com o Baden mandando ver em duo com Herbie Mann, gravado em fins de 62, quando o flautista veio checar a bossa in loco.
BADEN POWELL e JIMMY PRATT, Coisa Nº 1, 1962
No estúdio com Baden, que gravava seu disco com o baterista Jimmy Pratt, pra Elenco, Moacir teve que responder: qual o nome dessas músicas novas? São obras, são opus, são Coisas. A número um, depois imponente penúltima faixa do lado B do primeiro elepê do Moacir, aqui debuta em versão com o vocal não-creditado de Moacir (e Alaíde Costa) e balanço afro acentuado.
SÉRGIO MENDES & BOSSA RIO, Coisa Nº 2, 1964
Para o ambicioso disco de samba-jazz do sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes, foram convocados para levar composições e criar arranjos os então e até hoje melhores dos melhores, Tom Jobim e Moacir Santos. Antecipando um dos melhores momentos do seu álbum na Forma no ano seguinte, a ultra-sofisticada e altamente jazzística Coisa dois.
EDISON MACHADO, Menino travesso, 1964
Em 1958 Vinicius levou Moacir para instrumentar e reger disco de Elizeth Cardoso cantando canções do poeta em parceria com Baden, Vadico, Moacir Santos. Duas delas recuperadas por Edison Machado quando foi gravar seu clássico samba-jazz "É Samba Novo", em 1964, Moacir junto para criar arranjos. Essa "Menino travesso", aqui em versão frevo-choro à Art Blakey do combo do Edison.
LUIZ CLAUDIO, Coisa Nº 10, 1966
Uma das melodias mais marcantes do Moacir, logo faixa dois no Coisas, aqui em versão cantada em scat por Luiz Claudio. A breve melodia do trompete que abre o original aqui é substituída pelo piano, e o groove do balanço orquestral aqui vem só com violão suingado, bateria marcada e piano econômico. Moacir ajuda a cantarolar a melodia só pra deixar mais bonito.
LUIS GASCA, Coisa Nº 2, 1969
Outra leitura da melodia mais sugestiva de Moacir, pelo trompetista de hard bop tex mex futurista Luis Gasca, de um disco acompanhado de Joe Henderson, Hubert Laws, Mongo Santamaria, Chuck Rainey, Bernard Purdie, Herbie Hancock. Tão ricas e particulares as melodias e harmonias do Moacir que, por mais abstrato o approach, suas composições se provam não só perenes como universais.
AIRTO, Jequié, 1972
Faixa bônus do disco de 72 do Airto, Free, com Chick Corea, Keith Jarrett, George Benson, Stanley Clarke, Ron Carter, Hubert Laws, Joe Farrell. Composição lançada na época do Coisas ou pouco depois (já no disco do Luiz Claudio), parente das coisas mas mais crua, quase barroca. Flauta inteligente, bateria viva, percussão original do Airto, piano nervoso: de gênios elevados a gênio elevados, tudo em casa.
HORACE SILVER, Kathy, 1972
"Horácio Silva", como o chamava Moacir, foi não só uma das maiores influências pra toda a turma do samba-jazz - Donato e Sérgio Mendes em especial, por exemplo -, foi O cara que fez a ponte entre Moacir e a Blue Note - que o assinou só pela indicação de Horace. No mesmo ano em que Moacir lançava seu primeiro disco pela Blue Note, The Maestro, Silver lançava das composições mais bonitas de Moacir, que ele próprio gravaria (cantando, com letra) em 1974. Horace Silver andava moderno e com todo um groove, aqui em quarteto com baixo elétrico e a melodia levada pelo vibrafone.
MOACIR SANTOS, Coisa Nº 6, 1968/1978
Três anos depois do Coisas, 68, Moacir revisitou a de número seis em gravação para o que seria seu primeiro disco americano - no fim lançada dez anos depois no quarto, Opus 3 No.1, pela gravadora Discovery. Só pra atualizar o balanço: de afro-Brasil pesado e rústico a um groove lapidado, tão elasticamente soul-jazz quanto melodicamente afro-cubano.
Com pouco mais de meia dúzia de álbuns lançados - se contarmos homenagens e tributos -, Moacir fez mesmo foi muito arranjo pra muita gente. De cantores de marchinhas a orquestras de baile, do que de mais moderno se fazia nos sambas-canções ao que de mais moderno se fazia na bossa nova, Moacir foi abençoando discos, músicas, instrumentistas, intérpretes.
Entre tudo que fez, um punhado de coisas já indicava a grandiosidade das Coisas e algumas outras continuaram no registro. Lembrando de passagens que ele me contou, ouvindo todos os discos com seu nome, caçando sua história, juntei dez faixas em ordem cronológica, pré e pós-Coisas, mas seguindo o espírito.
Play acima, baixe AQUI, faixa-a-faixa abaixo.

RAUL DE BARROS, Toselli no samba, 1950
Choro composto e arranjado por Moacir Santos, inspirado no compositor erudito italiano Enrico Toselli. Gravado em 1950 pelo trombonista Raul de Barros, em 78 rotações para a Odeon. A sofisticação do arranjo, a melodia com surdina, o naipe no contracanto, o solo de piano quase como um interlúdio já mostram quão avançadas eram as idéias de Moacir, desde sempre. Qualquer dúvida, só ouvir ao lado de qualquer disco de Duke Ellington de 1950.
HERBIE MANN e BADEN POWELL, Nanã, 1962
Levado por Baden, Moacir começou a freqüentar as reuniões de Bossa Nova, por exemplo no apartamento da Nara (aliás, sua aluna). Com seu clarinete a tiracolo, sua interpretação em duo com Baden de "Nanã" era dos momentos mais sublimes - Tom Jobim era um que costumava pedir bis atrás de bis. O mais próximo que chegamos de ouvir esse momento nunca registrado senão na memória dos presentes é com o Baden mandando ver em duo com Herbie Mann, gravado em fins de 62, quando o flautista veio checar a bossa in loco.
BADEN POWELL e JIMMY PRATT, Coisa Nº 1, 1962
No estúdio com Baden, que gravava seu disco com o baterista Jimmy Pratt, pra Elenco, Moacir teve que responder: qual o nome dessas músicas novas? São obras, são opus, são Coisas. A número um, depois imponente penúltima faixa do lado B do primeiro elepê do Moacir, aqui debuta em versão com o vocal não-creditado de Moacir (e Alaíde Costa) e balanço afro acentuado.
SÉRGIO MENDES & BOSSA RIO, Coisa Nº 2, 1964
Para o ambicioso disco de samba-jazz do sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes, foram convocados para levar composições e criar arranjos os então e até hoje melhores dos melhores, Tom Jobim e Moacir Santos. Antecipando um dos melhores momentos do seu álbum na Forma no ano seguinte, a ultra-sofisticada e altamente jazzística Coisa dois.
EDISON MACHADO, Menino travesso, 1964
Em 1958 Vinicius levou Moacir para instrumentar e reger disco de Elizeth Cardoso cantando canções do poeta em parceria com Baden, Vadico, Moacir Santos. Duas delas recuperadas por Edison Machado quando foi gravar seu clássico samba-jazz "É Samba Novo", em 1964, Moacir junto para criar arranjos. Essa "Menino travesso", aqui em versão frevo-choro à Art Blakey do combo do Edison.
LUIZ CLAUDIO, Coisa Nº 10, 1966
Uma das melodias mais marcantes do Moacir, logo faixa dois no Coisas, aqui em versão cantada em scat por Luiz Claudio. A breve melodia do trompete que abre o original aqui é substituída pelo piano, e o groove do balanço orquestral aqui vem só com violão suingado, bateria marcada e piano econômico. Moacir ajuda a cantarolar a melodia só pra deixar mais bonito.
LUIS GASCA, Coisa Nº 2, 1969
Outra leitura da melodia mais sugestiva de Moacir, pelo trompetista de hard bop tex mex futurista Luis Gasca, de um disco acompanhado de Joe Henderson, Hubert Laws, Mongo Santamaria, Chuck Rainey, Bernard Purdie, Herbie Hancock. Tão ricas e particulares as melodias e harmonias do Moacir que, por mais abstrato o approach, suas composições se provam não só perenes como universais.
AIRTO, Jequié, 1972
Faixa bônus do disco de 72 do Airto, Free, com Chick Corea, Keith Jarrett, George Benson, Stanley Clarke, Ron Carter, Hubert Laws, Joe Farrell. Composição lançada na época do Coisas ou pouco depois (já no disco do Luiz Claudio), parente das coisas mas mais crua, quase barroca. Flauta inteligente, bateria viva, percussão original do Airto, piano nervoso: de gênios elevados a gênio elevados, tudo em casa.
HORACE SILVER, Kathy, 1972
"Horácio Silva", como o chamava Moacir, foi não só uma das maiores influências pra toda a turma do samba-jazz - Donato e Sérgio Mendes em especial, por exemplo -, foi O cara que fez a ponte entre Moacir e a Blue Note - que o assinou só pela indicação de Horace. No mesmo ano em que Moacir lançava seu primeiro disco pela Blue Note, The Maestro, Silver lançava das composições mais bonitas de Moacir, que ele próprio gravaria (cantando, com letra) em 1974. Horace Silver andava moderno e com todo um groove, aqui em quarteto com baixo elétrico e a melodia levada pelo vibrafone.
MOACIR SANTOS, Coisa Nº 6, 1968/1978
Três anos depois do Coisas, 68, Moacir revisitou a de número seis em gravação para o que seria seu primeiro disco americano - no fim lançada dez anos depois no quarto, Opus 3 No.1, pela gravadora Discovery. Só pra atualizar o balanço: de afro-Brasil pesado e rústico a um groove lapidado, tão elasticamente soul-jazz quanto melodicamente afro-cubano.
Marcadores: Airto Moreira, Baden Powell, dl, Edison Machado, Herbie Mann, Horace Silver, mixtapes, Moacir Santos, samba-jazz, Sergio Mendes, Você Ainda Não Ouviu Nada
Sambalanço Trio
2 Comments Published by Ronaldo Evangelista on domingo, 25 de julho de 2010 at 6:22 PM.
Cesar Camargo Mariano tinha 17 anos quando começou a freqüentar as Reuniões de Bossa em São Paulo (instituídas meio que em resposta aos então recentes desaforos de Vinicius sobre o samba na cidade), nos apartamentos de gente como a cantora Maricenne Costa e o maestro João de Souza Lima. Naqueles sábados à tarde de 1962, entre jovens modernos ligados em sons descolados, Cesar conheceu, além de jornalistas e compositores, músicos como o contrabaixista Sabá (que tocava com Johnny Alf), o baterista Rubinho Barsotti (prestes a formar o Zimbo Trio) e o pianista Moacyr Peixoto (irmão de Cauby, dos pianistas mais famosos em São Paulo nos anos 50).
Músico profissional desde os 15, Cesinha Mariano já tinha a experiência de tocar incansavelmente em orquestras de baile como a de Enrico Simonetti. Quando Moacyr o indicou para virar pianista da mais descolada boate de jazz em São Paulo, a Baiúca, na praça Roosevelt, foi a oportunidade para Cesar virar de vez um pianista de jazz, como os músicos que mais admirava.
Muitas madrugadas de improviso e até gravação de compacto duplo com o quarteto de Sabá depois, Cesar cristalizou suas idéias ao lado de Airto Moreira na bateria (que vinha de Santa Catarina via Curitiba, já com interesses em percussões criativas) e Humberto Clayber no contrabaixo (que já tinha experiência de três discos com o Manfredo Fest Trio e depois se tornaria gaitista full-time). Os três acordaram um grupo fixo, batizaram Sambalanço Trio (já haviam o Tamba Trio no Rio e o Zimbo Trio em São Paulo) e foram estrear a boate de Paulo Cotrim que superaria a Baiúca em epitomização do zeitgeist: Juão Sebastião Bar, na rua Major Sertório.
Era a segunda metade de 1964 quando lançaram o primeiro LP, pela Audio Fidelity, com "Samblues", "Sambinha" e "Marisa" (essa em solo de piano), de Cesar, além de três de Baden e Vinicius, "Consolação", "Berimbau" e "Pra Que Chorar", mais os obrigatórios Jobim/Vinicius ("O Morro não tem vez") e Menescal/Bôscoli ("Nós e o mar").
Não só a modernidade gráfica das capas já indicava as estilizações jazzísticas da música, mas o primeiro LP traz "Homenagem a Clifford Brown" e a contracapa do segundo fala em "influência das experiências de andamento feitas por Dave Brubeck em 'Time Out'".
Na contracapa do disco de estréia, assinada por J.L. Ferrete, há interessante observação sobre a radical transformação que a bossa nova provocou nos solos instrumentais: "ainda há poucos anos o estilo 'grupo instrumental' era restrito à fórmula 'flauta-cavaquinho-violão-bandolim-pandeiro-acordeão-clarineta-saxofone', que parecia não mais sair do diabólico circulo vicioso onde só o solista variava, a roupagem não".
Realmente, as dinâmicas do Sambalanço estão entre as mais impressionantes de todos os impressionantes arranjos dos jovens sambajazzistas da época, com a bateria grave, percussiva, imprevisível e inteligente de Airto, o contrabaixo sem medo do virtuosimo nem do silêncio de Clayber, o piano melífluo, balançado mas rigoroso, de Cesar, e os desenvolvimentos brilhantes de arranjos que os três criavam juntos.

A contracapa do segundo disco, assinada por Moracy do Val, observa: "Certamente não passarão despercebidas neste LP as experiências de ritmo e andamento do Sambalanço. Naturalmente aparecerá gente para condenar a influência do jazz. Esta existe mesmo em nossa música moderna, assim como no jazz dos nossos dias é marcante a presença da bossa nova. As culturas se intercomunicam e se influenciam mutuamente. Bobagem querer ilhar nossa música e fechar os portos para as experiências alheias bem sucedidas."
"Canção que veio de dentro do azul", de Cesar, um Menescal/Bôscoli ("Você"), três Marcos Valles ("Deus Brasileiro", "Preciso aprender a ser só" e "Samba de Verão"), o standard samba-jazz "Estamos Aí" (de Durval Ferreira), uma pérola de Airto e Claiber, "Improviso Negro" (que deu título a recentes reedições piratas do álbum), "Nanã" de Moacir Santos e matadora versão de "Reza" de Edu Lobo - tema já ficando manjado, mas recriado pelo trio e soando como novo, com vocais no estilo do Tamba.
O disco conclui apontando pro futuro: no fim da última música, "Samba de Verão", a banda sugere, bem à vontade, riffzinho de piano que em 1966 reaparece na versão de "O morro não tem vez" do Som Três e em 1967, sintetizado, entraria de vez pra história criando o clima nos primeiros compassos de "Nem vem que não tem", quando Cesar já estava no auge ao lado de Simonal.
Lançado pela Som/Maior, que substituiu a Audio Fidelity no Brasil, o disco se não é o primeiro do selo, é pelo menos o primeiro de sua série samba-jazz, com número de catálogo SMLP - 1501. (A imagem que ilustra o post é de outra edição, SMSD - 5501.)

Mil novecentos e sessenta e cinco foi um ano cheio para o Sambalanço. Além de discos com Raul de Souza (então simplesmente Raulzinho) e Lennie Dale - gravariam ainda com Geraldo Cunha -, há também o terceiro disco do trio, mesmo vigor mas com título já sugerindo finalmentes: "Reencontro". E com um Oliver Nelson via Jimmy Smith ("Step Right Up", em 70 gravada também por Count Basie no álbum Afrique), um Deodato ("Razão de Viver"), "Pra machucar meu coração" (Ary Barroso recém-revalorizado pelo Getz/Gilberto), um Baden/Vinicius ("Deixa"), uma do Clayber ("Tensão"), uma do Airto ("Só... pela noite") e uma parceria do Cesar com sua namorada Marisa (Gata Mansa, ex-João Gilberto), "Manhã de nós dois".

De passagem por São Paulo um dia em 1964, Lennie Dale viu no Juão Sebastião Bar os Sambalanços tocando e, como todo mundo, ficou de cara com o som dos três. Lennie estava naquele período em que chegou da gringa, invadiu o Beco das Garrafas, instituiu ensaios e marcações, virou coach vocal de Simonal e coreógrafo de Elis e ainda fez shows cantando coisas como "O Pato" acompanhado de um pato de verdade. Fez espetáculos em São Paulo com o Sambalanço e os levou pro Rio para apresentações (com produção de Aloysio de Oliveira), mas na hora de gravar seu primeiro disco, o fez ao vivo, em uma apresentação no Zum Zum com os cariocas do Bossa Três - Luiz Carlos Vinhas, Tião Neto e Edison Machado.
Para o segundo disco, de 65 (ambos saíram pela Elenco), esse em estúdio, com menos medleys e mais arranjos, garantiu o jovem trio de dois paulistas e um catarinense, levados de São Paulo. Ninguém há de dizer que não é uma tiração de onda do começo ao fim, mas como são brilhantes os arranjos e como sempre impressionante a interação entre Cesar, Clayber e Airto. É tão inevitavelmente engraçado o sotaque do Lennie Dale e sua interpretação à broadway quanto são geniais os arranjos e a eletricidade, por exemplo, de "Menino das Laranjas", "The Lady Is a Tramp" em português absurdo, "O morro não tem vez", "Night and Day", completamente despidas de qualquer contexto de letra, movimento musical ou nacionalidade e reinventadas pelo quarteto. Além do Sambalanço no auge, um disco especial, no mínimo, pela pronúncia de Lennie para as palavras "frajola" e "chance" (que ele troca por "chença").

De passagem pelo Rio para apresentações em uma boate, encontraram o velho conhecido de Airto de Curitiba, o trombonista Raulzinho. Ele tinha passado alguns anos no Paraná na aeronáutica, e havia voltado ao Rio há pouco para integrar o talvez mais famoso conjunto instrumental da época: o sexteto Bossa Rio de Sérgio Mendes. Disco bem vendido e turnês depois, Sérgio Mendes havia enxugado a banda e estava viajando pelo mundo com patrocínio da Rhodia (com Wanda Sá e o Brasil '65), e em breve estaria montando o grupo Brasil '66, com duas vocalistas americanas e pegada pop. Raulzinho já era cultuado por suas mil apresentações nas noites carioca e paulista e gravações como a Turma da Gafieira, com Altamiro Carrilho, e agora planejava seu primeiro solo, puro jazz, à J.J. Johnson.
Reencontrou Airto, conheceu Cesar e Clayber e viu a oportunidade perfeita: em dois dias em estúdio, definiram repertório, inventaram arranjos improvisados e gravaram dois Jobins ("Samba do Avião" e "Inútil Paisagem"), um tema de Duke Jordan ("Jor-Du"), o standard americano "Fly me to the moon", o standard samba-jazz "Estamos aí", uma da Cesar e Clayber ("Pureza"), uma de Raul ("À vontade mesmo") e uma do primeiro disco em trio do Donato, "Muito à vontade" - gíria do pianista para estar na paz da influência canábica, de que Raul também era grande adepto nas horas vagas da gravação, com Airto.
***
O Sambalanço estava destinado à vida curta: menos de dois anos, entre fins de 1963/começo de 64 e meados de 1965. Sem problemas para Airto e Clayber, que ainda em 1965 encontraram novo amigo: Hermeto Pascoal, com quem formaram o Sambrasa Trio, que já lançou em 65 disco pela Som/Maior. Sensacional, mas não durou muito.
No primeiro semestre de 1966, acontecia o II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Excelsior e com a grande final marcada para acontecer em seu auditório, em São Paulo. O primeiro festival, no ano anterior, havia estourado Elis Regina e Edu Lobo com "Arrastão" e neste ano buscavam através do festival sua grande chance na música pop compositores como Geraldo Vandré e Caetano Veloso e cantores como Clara Nunes, Milton Nascimento, Flora Purim e... Airto. Que, aliás, ganhou o festival. O que, se não deslanchou sua carreira de cantor, levou ao convite para formar o Quarteto Novo, com Hermeto Pascoal, Théo de Barros e Heraldo do Monte - e que viajou pelo Brasil como Trio Novo (sem Hermeto), pela Rhodia de Livio Rangan.
Enquanto isso, Clayber fez a evolução jazzística de trio para quinteto, formando o Sambossa 5, com Luiz Mello (piano) e José Resala "Turquinho" (bateria) mais Kuntz Naegele (sax) e Magno D'Alcantara "Maguinho" (trompete), depois substituído por Dorival Auriani "Buda" (trompete). Lançaram em 65, pela Som/Maior, LP homônimo, e em 1966, pela RCA, o disco "Zero Hora", primos paulistas d'"O Som", do Copa 5 de Meirelles.
***
Já Cesar, manteve-se ocupado. Ainda em 1965, se juntou a Oswaldo Cadaxo, da gravadora equipe, para produzir o primeiro disco em quatro anos da então namorada de César, Marisa. Então com 22 anos e se dizendo "no começo da carreira", Cesar estreou como arranjador de maiores ambições, escrevendo para nove violinos, quatro violas, dois violoncelos, flauta, trompete, sax tenor, piano, violão, baixo e bateria. Em quatro faixas, a banda base é o Jongo Trio, de Cido Bianchi (piano), Sabá (contrabaixo) e Toninho Pinheiro (bateria). Nas outras oito, uma novidade em disco: Cesar acompanhado de Sabá e Toninho, um terço do Sambalanço com dois terços do Jongo.
Não foi só um encontro casual. Em 1966, quando já estava claro que o Sambalanço não tinha futuro muito longo, Cesar gravou seu próprio disco como orquestrador, Octeto de Cesar Camargo Mariano, com o som de trio acrescido de dois trompetes, trombone, sax e guitarra. Era a transição: metade do disco tinha como base Cesar com Airto e Clayber; a outra metade com Toninho e Sabá.
No mesmo ano, saía o primeiro disco do Som 3, pela Som/Maior, com o estabelecimento definitivo do trio que duraria pelo resto da década, e que logo ganharia fama acompanhando cantores como Elizeth Cardoso (no disco "Muito Elizeth", em 1966), Erasmo Carlos (o single "Capoeirada" e uma faixa de seu disco de 1967) e, notoriamente, com Wilson Simonal, já em 66, e com quem tocariam até 1969/70, período em que o cantor contava com a direção musical de Cesar Camargo Mariano e interagia maravilhosamente bem com os três músicos e seus instrumentos.
Marcadores: Airto Moreira, capismo, Cesar Camargo Mariano, Humberto Clayber, Raul de Souza, samba-jazz, Você Ainda Não Ouviu Nada