RONALDOEVANGELISTA


uma outra vida e um gostoso sabor de ineditismo






Eis aqui um disco da genuína música brasileira. Da autêntica, da legítima, da típica, ou que outros adjetivos existam para qualificá-la. Sim, porque a nossa verdadeira música não é aquela que se escuta nas "boites" ou nos bailes da alta sociedade, travestida de granfinismo, com orquestra puxada a "black-tie", gemendo nas cordas de um violino de heráldico "pedigree", com harpas e "cellos" de contrapeso. É esta que aqui está.

Natural, simples, espontânea, sem se escravizar à partitura, brotando dos instrumentos em que ela se sente à vontade, como um barnabé num pijama dominical e matutino. É a música que desconjunta as cadeiras das cabrochas nos "assustados" das gafieiras cariocas. Que, como o nosso futebol, é cheia de improvisações e de imprevistos.

Subitamente, todos os instrumentos recolhem-se à insignificância de um modesto "brackground", enquanto um deles, como um demônio que saltasse para o centro da roda, pede a palavra e executa um solo endiabrado dentro do tema melódico - bordando-o de variações inesperadas, retorcendo-os em espirais alucinantes, colorindo-o de matizes novos, imprimindo-lhe, enfim, uma outra vida e um gostoso sabor de ineditismo.

E tudo ali, feito na hora, nascendo no momento, brotando de repente, chiando na frigideira do improviso - e por isso mesmo, quente, apetitoso, de fazer água no ouvido.







A Turma da Gafieira eram os Jazz Messengers brasileiros, os novos músicos mais interessantes fervendo em solos revolucionários, em plena década de 50 pré-bossa nova. Pelo menos cinco anos antes d'O LP d'Os Cobras, d'O Som do Meirelles e os Copa 5, do Você Ainda Não Ouviu Nada do Bossa Rio Sexteto do Sérgio Mendes, que qualquer disco de trio, do próprio Edison Machado é Samba Novo, totalmente vanguarda no conceito e no som, a Turma da Gafieira é samba-jazz antes do estilo ser sonhado.

Dois discos lançados pela Musidisc, cheios de acompanhamentos e improvisos musculares de Raul de Souza no trombone, Cipó e Zé Bodega nos saxes, Sivuca na sanfona, Altamiro Carrilho na flauta, Baden Powell no violão. E na cadeira de Art Blakey, acelerando o eixo do samba, Edison Machado, com sua pegada pra frente, bebop, pratos chiando, convenções e viradas nervosas.

Jazz no Brasil na época? Só muito timidamente, diluído nas orquestras de baile e gafieira, no máximo ebulindo em encontros informais entre os músicos, jam sessions nas horas vagas ou nos bares mais moderninhos. Dali alguns anos, chegando aos músicos mais antenados da jovem classe média-alta carioca no pequeno Beco das Garrafas, mas até então se confundindo com os regionais de choro, Orquestras Tabajaras, pianistas de cocktail, pequenos combos para acompanhar cantores.

O texto anônimo entre aspas ali em cima é do 10" com composições de Altamiro Carrilho. Tanto ele como o LP lançado pela mesma época, com versões de Caymmi, Tito Mati, Wilson Batista e Tom Jobim, não se avexam de ser revolucionários discos de pequena formação gravados ao vivo com músicos criativos livres para improvisar sobre temas interessantes - para todos os efeitos, dois discos de jazz.

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