RONALDOEVANGELISTA


Quieto no meu quarto

Noite branca. Nada passa pro papel. Vontade imensa de escrever, mas tem boi na linha. Outro cigarro, outro cigarro. O álcool começa a fazer minha cabeça. E se eu parasse de beber e dar bola e agüentasse a palo seco a porra da ansiedade? Outro dia tentei e não deu pé. Suei frio, deu tremendeira, achei que ia pirar. Não conseguia juntar três palavras numa frase; caí então no rum, única bebida que sobrara em casa. Matei metade da garrafa. A noite ficou mais suportável, escrevi uma carta pra Sônia com desaforos mais ou menos líricos. A bebida desce raspando as unhas na minha garganta e abrindo um buraco ardente no meu estômago. Meu pobre estômago malhado. Na janela, o cubo da noite convida poeticamente pro salto.

Me lembro da manhã de verão ensopada de sol, numa rua do Leblon, em que vi Drummond. Camisa abotoada até o pescoço. Cruzei com ele e seus olhos cinzentos fixos em qualquer coisa que andava à sua frente e não se via. Não eram os edifícios, não eram as caras da rua, nem os outdoors. Não se via. Tive um tchans muito estranho vendo a cara do poeta, que me pareceu de uma serenidade quase sem vida. E aqueles olhos que olhavam o que não se via. Passou por mim e eu vupt fiz meia-volta e fui atrás dele. O homem que uma vez disse que é apenas um homem seguia imperturbável seu caminho, ali na minha frente.

Fui seguindo Drummond pelas calçadas do Leblon até me convencer de que o homem à minha frente não era o poeta. Era mesmo apenas um homem dentro dos seus sapatos. O poeta está guardado em mim, num lugar que nem desconfio, e não tem cara e não tem corpo. É só uma vibração que me acompanha nas minhas noites brancas, vida afora. Larguei de segui-lo. Voltei pelo mesmo caminho, fui cuidar da vida.

Não seguro a barra dessa solidão espessa sem um copo na mão. E um charo bem enrolado. tem razão o Pascal: o homem não toma jeito enquanto não aprende a ficar quieto no seu quarto. Ele diz também que a calma entedia o cidadão e o obriga a sair e "mendigar o tumulto". Jogo mais uísque nas pedras.

A França, quietinha lá fora. Acho que francês segura melhor a barra da solidão que brasileiro. Parece, pelo menos. O brasileiro tem medo pânico da solidão. É um ser que padece de pluralidade. Um cara solitário no Brasil é tratado socialmente como tuberculoso e se sente pessoalmente como leproso. Brasileiro só acata a solidão na privada e no caixão. E, às vezes, nem aí: quantos não caem na vala comum...

Fiz trinta anos e ando com medo de levar a breca na vida. Ficar sem grana, sem amigos, sem mulher. Um ratê baixo astral, desses que sentam no meio-fio e vertem lágrimas grossas como pitangas. E se deixam lamber na cara por um vira-lata sarnento. Te esconjuro, Nelson Rodrigues!


Do Tanto Faz, do Reinaldo Moraes.

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