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Madrugada de inverno

Se uma mulher por quem eu tenho um certo tesão me interrompesse o sono numa madrugada de inverno me pedindo colo, eu não hesitava: ora, vem correndo, minha flor, eu diria. Braços abertos pra ti. Que é como Flora me recebia sempre que eu dava as três buzinadinhas convencionais na frente do seu prédio, na rua Morato Coelho. Luz na janela, sua silhueta de camisola me acenando, o molho de chaves que estalava metálico na calçada. Quase nunca falhava. Acho que Flora foi a mulher que mais gostou de trepar comigo; talvez mais ainda depois que nos separamos. As feministas que me desculpem, mas é do caralho saber que há na cidade pelo menos uma mulher disposta a te amar a qualquer hora do dia ou da noite. Servilismo sexual? Nada disso. É ligação, transa, curtição. Flora até reclamava quando eu ficava muito tempo sem aparecer. O que acontecia nas nossas respectivas fases de vacas gordas afetivas. Ou quando pifou a buzina do meu carro. Por preguiça, adiava sempre o auto-elétrico. Saía dos bares de porre e baixava na Morato Coelho com o passarinho literalmente na mão. Só então me dava conta de que estava sem buzina. Da primeira vez, resolvi gritar. A velha do terceiro acordou com os meus pungentes apelos - Flora! Flora! - ecoando na rua deserta e me despejou lá de cima um pinico de ameaças terríveis - síndico, revólver, polícia, o scambau. Só Flora não ouviu. Flora só ouvia buzina, nosso código: um toque, dois toques, três toques. De leve.

Mais uma do Tanto Faz.

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